domingo, 14 de agosto de 2016

Nossa Omissão É Combustível Para Opressão



Há pelo menos dois meses resolvi praticar o silêncio em relação a diversas questões que aconteciam no Brasil. Necessitava de um tempo para poder colocar em ordem os pensamentos, como também refletir sobre os diversos movimentos que tomam conta do da sociedade durante esses dias. O meu silêncio coincidiu com o silêncio da mídia brasileira sobre as questões políticas do país, como também a famosa crise econômica que o Brasil estava submetido. Parece que agora temos um jornalismo menos atento a esses fatos, e mais disposto a criar um ambiente de calmaria e sensatez.

Resolvi romper esse silêncio depois de um questionamento levantado por um antigo bispo da Igreja Metodista através de uma revista escrita por volta dos anos 80. O texto diz o seguinte: “Numa determinada igreja local, indagaram o bispo a respeito de como iniciar o movimento de dons e ministérios e como descobrir o que o Espírito tinha em mente para aquela igreja local. O bispo respondeu: É necessário orar... orar muito, buscar a Deus... Mas orar com os olhos abertos. Olhos abertos para compreender a Deus, ver a realidade humana que necessita da atuação e resposta de Deus”. Percebi que estava orando de olhos bastante fechados enquanto silenciava. Era necessário voltar a olhar a realidade ao meu redor e buscar as respostas de Deus para nossa atuação.

Alguns exemplos bíblicos nos desafiaram. Isaías (6.1-8) enquanto teve sua visão de Deus, poderoso, santo e exaltado, teve também uma visão de si mesmo e de seu povo necessitado. Seu momento de gozo espiritual não ficou no templo, mas ele atendeu a voz de Deus para exercer seu ministério em meio ao povo. Amós (5.21-27) viu as injustiças ao seu redor e as denunciou. Falou que Deus não aceita cerimônias e rituais, nem ofertas e sacrifícios, enquanto o povo colaborasse com tanta injustiça e maldade. Mateus (25.31-46),  traz o texto do grande julgamento onde Jesus deixa claro que enxergar e atender às necessidades humanas era senha para entrar no Reino, aqueles que foram insensíveis a essas necessidades ficaram fora. O pecado do homem rico foi a sua indiferença às necessidades do seu semelhante (Lucas 16.19-31). Thiago 2.15-16 fala da vida religiosa, afirmando que essa precisa ser praticada em atos de amor e compaixão.

Desafiados pela voz dos profetas e dos textos proféticos proferidos pelo movimento de Jesus, percebemos que a nossa realidade está marcada por situações de injustiça e de opressão. Nosso ambiente religioso tornou-se um canal de morte e condenações sumárias de milhares de vida. A igreja brasileira apoderou-se dos textos bíblicos para justificar as mais perversas ações humanas como racismo, homofobia, machismo, fascismo e neoconservadorismo. A ideia assemelha-se a ideologia de extrema direita do Partido Nazista da qual visava à construção de uma sociedade homogênea que objetivava superar as divisões sociais. Para cumprir o objetivo, judeus, opositores políticos e outros elementos vistos como “indesejáveis” eram marginalizados, escravizados, presos e assassinados.  Percebam que elementos daqueles que se colocam como igreja brasileira, defensora da família, tem buscado criminalizar e condenar qualquer grupo que não se encaixe em suas ideologias/teologias. A questão é de tamanha gravidade que até mesmo políticos envolvidos com estupros e desvio de verbas são defendidos pelas classes “evangélicas” como vítimas de uma sociedade esquerdista maldosa. Mas, esse é um assunto para outro post.

Para o ambiente político, continuo a defender a tese que cada vez mais encontra fundamento em nosso meio. O processo de impeachment da Presidenta Dilma Roussef foi um golpe de uma composição política que não aceitava mais perder pelas vias legais. Se trabalhamos com questões de justiça precisamos estar cientes que apoiar essa ação é agir de maneira injusta e mentirosa. Não há fundamento legal, apenas uma vontade política de afastá-la. Entretanto, percebemos que a mídia silencia no fato que o próprio presidente interino recebeu repasses ilegais, fez reuniões com investigados e provavelmente autorizou muitas das ações ilícitas. Entretanto, porque o silêncio? Onde estão as vozes que clamavam contra a corrupção? Todas se calaram provando que nunca houve nenhum compromisso sério de combate a corrupção. Inclusive, nosso judiciário continua sendo um judiciário acovardado e seletivo na hora de julgar.

A crise econômica deixou de ocupar os centros dos jornais. Descobriu-se milagrosamente que o dólar a R$ 3,00 é o ideal para a economia brasileira e que a moeda se valorizou em boa parte do mundo. Mais, o governo atual justifica a crise para poder tecer um plano econômico que atacará os direitos dos trabalhadores. Férias, 13º salário e aposentadoria passarão por mudanças radicais. Até mesmo a estabilidade para aqueles que trabalham no setor público está ameaçada, pois uma PEC prevê que o governo possa demitir quando achar necessário. O primeiro campo de Petróleo já foi leiloado, provando que a privatização da Petrobrás é uma questão de tempo. Nos próximos meses veremos empresas públicas perdendo poder no mercado e uma cartilha neoliberal que levou a falência diversos países latinos nos 90 sendo aplicada novamente. Os resultados dessas ações já podem ser previstos: empobrecimento da população e concentração de renda fazendo que o país volte ao passado quando ocupava o mapa da pobreza.

Não bastassem os problemas religiosos, econômicos e políticos que estão ao nosso redor, precisamos escrever mais um parágrafo para analisar o contexto de crianças, adolescentes e jovens do país. Sofremos um ataque a direitos conquistados com muita luta. A redução da maioridade penal será aprovada pelo congresso, levando ao encarceramento milhares de adolescentes.  Esse encarceramento nos trará uma geração de jovens que sairá das prisões marcados pela violência e que responderá nas ruas com mais violência, pois fomos incapazes de educá-los. O machismo ganhará força quando os poucos direitos das mulheres forem reduzidos. Corremos o risco de continuarmos a sermos uma geração que alimenta a cultura do estupro. Pouco avançamos no combate ao racismo nos últimos anos, mas estamos diante de um retrocesso sem precedentes para o povo negro. O acesso universal a educação e a saúde correm sérios riscos. Certamente veremos menos filhos e filhas de pobres na universidade.


Diante desse contexto é preciso abrir nossos olhos e prepararmos nossas mãos para a ação. Nossa omissão é combustível para opressão que se desenha diante de nós. Como desejamos responder a essas questões? Quais são as respostas de Deus para a nossa atuação? 

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