segunda-feira, 18 de abril de 2016

Para Aqueles Que professam A Fé Cristã No Brasil E Se Encontram Preocupados Com O Destino De Nossa Democracia



Direciona-me a cada um de vocês na graça do Senhor Jesus Cristo, aquele que é Conselheiro Maravilhoso, Deus Forte, Pai para sempre, Príncipe da Paz.

Temos presenciado nos últimos meses em nosso país o acirramento dos ânimos por conta das disputas políticas e econômicas. Um dos ápices desse momento aconteceu no dia 17 de abril de 2016, no plenário da Câmara de Deputados do Brasil, quando foi levado a julgamento o relatório do Processo de Impeachment da Presidenta Dilma Roussef. O resultado final deu prosseguimento ao processo que poderá levar o afastamento da Presidenta de suas funções. Diante dos acontecimentos precisamos tecer nossas reflexões sobre o atual momento e construir saídas para enfrentar a crise ética, política e econômica que nos é apresentada.

Antes de tudo, temos como missão orar incessantemente pelo lugar que nos encontramos. Recordemos as palavras de Deus através do Profeta Jeremias aos cativos judeus levados até a Babilônia: “procurai a paz da cidade, para onde vos fiz transportar em cativeiro, e orai por ela ao Senhor, porque na sua paz vós tereis paz” (Jeremias 29.7). Além da oração, precisamos estar cientes diante de todos os acontecimentos que Deus está no controle de tudo. No final desfrutaremos de sua vontade que é boa, perfeita e agradável. Esse não é um convite à passividade diante da gravidade dos fatos, mas um lugar de segurança em meio às turbulências.

Pontuada essa questão, passo a falar sobre o processo de impeachment conduzido ontem na Câmara de Deputados. Para todos(as) aquele(as) que puderem acompanhar pela televisão ou em outro lugar da cidade, certamente estão perplexos diante das escolhas dos deputados e a forma como foram apresentadas.  Em nenhum momento houve citações sobre qual crime estava sendo julgado. Os parlamentares pareciam mais preocupados com suas famílias do que com a nação. O processo foi conduzido por um réu no Supremo Tribunal Federal, acusado de desviar milhões de reais dos cofres públicos. A maioria dos deputados presentes também tiverem seus nomes divulgados em listas de corrupção. Estranhamente a acusada da noite, a Presidenta Dilma Roussef, não foi citada em operações de lavagem de dinheiro e não aparece em nenhuma dessas listas. Em um dos momentos de maior horror, um dos deputados faz um agradecimento ao torturador da Presidenta Dilma Roussef na época da Ditadura Militar.

Se faltaram motivos para a sustentação legal do processo, sobraram agradecimentos a Deus e aos familiares. Em nome de Deus e de suas respectivas igrejas muitos justificaram os seus votos. Entretanto falar em nome de Deus não santifica nenhuma ação corrupta.  Voltemos aos textos bíblicos e recordemos que as cortes de Israel eram cheias de falsos profetas. Homens que usavam o nome de Deus para justificar a situação de miséria e opressão do povo. Segundo o profeta Miquéias, esses homens faziam desviar o povo, aqueles que lhes pagavam bem, proclamavam paz, mas os outros que não tinham condições e nem recursos para comprar os profetas, a esses eles proclamavam guerra santa (Miqueias 3.5). Parece-nos que presenciamos ontem uma tentativa da sacralização de um processo essencialmente profano.

O estado brasileiro é laico e assim deve se comportar. Não é uma extensão de nossas comunidades cristãs. Sempre que nos misturamos com o estado, desejando determinar suas ações, depois de um sucesso rápido, mergulhamos em ações violentas que visavam à manutenção do poder. Estejamos cientes que o desejo de Deus não é uma teocracia, mas um Reino de igualdade e justiça, onde todas as pessoas podem exercer livremente sua liberdade de crença ou não crença. Isso não retira de nós a responsabilidade de sermos testemunhas fiéis dos princípios do evangelho onde quer que estejamos. Esse exercício de fidelidade a Deus deve ser feito com extremo respeito ao pensamento diferente, ao ser humano que caminha conosco com outras percepções da vida.

Como cidadãos brasileiros nós temos muitos questionamentos a tecer sobre o Governo Dilma. Cremos que outras medidas poderiam ter sido tomadas e que o governo deveria se aproximar cada vez mais dos pobres e oprimidos desse país. Entretanto, nossas críticas não buscam e não alimentam um rompimento democrático. A atual organização do congresso brasileiro é propícia à corrupção e o sistema político está falido. Não acreditamos que novas eleições resolverão os problemas políticos do Brasil: mudam-se os atores, mas a obra continua a mesma. Mas, acreditamos que precisamos nos unir em busca de uma reforma do sistema político que permita que todas as camadas da população sejam representadas.   A nossa luta é pela manutenção e o aperfeiçoamento da democracia. Portanto, o que vimos nos últimos meses e atuação desastrosa dos parlamentares da Câmara de Deputados no julgamento do Impeachment leva-nos a classificá-lo como um atentado ao estado democrático de direito.

Concluo com as palavras do pastor luterano Moltmann: “as promessas de Deus abrem os horizontes da história”. E acrescenta: “Aquilo que era experimentado como ‘história’, como possibilidade de transformação da realidade, coincidia com as promessas de Deus, abrangendo sua lembrança e sua esperança”. A esperança é quem conserva a fé em vida, sustenta e impele para frente. A esperança cristã não se enquadra dentro de um status quo de injustiças e ilegalidades. Ela é convidada a transformação criadora da realidade. É o anúncio da boa notícia de salvação para os presos, oprimidos, cegos e pobres. Portanto, somos mais uma vez convidados a manter a nossa esperança firme e nossa luta perseverante pela justiça. Voltemos as nossas bases, casas, comunidades e denunciamos os crimes que estão sendo cometidos contra o povo e juntos construamos as alternativas para superar esse momento. Lembrando, que nosso objetivo principal é o fortalecimento de nossa democracia. Que Deus nos ajude!

Paz Sobre a Cidade,

Pr. Régis Pereira

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