domingo, 13 de março de 2016

Manifestações - Quem Tem Telhado De Vidro Não Atira Pedra no Telhado dos Outros


Nesse início de madrugada começamos a ter uma noção completa dos impactos das manifestações do dia 13 de março de 2016. Antes de qualquer análise se faz necessário elogiarmos a capacidade de organização dos movimentos, com a força da grande mídia, nesse dia. Penso que os resultados se tratando de números foram alcançados. Devemos continuar a celebrar as conquistas dessa nossa jovem democracia, como o direito de manifestar contra aquilo que pensa estar errado. Nesse ponto, dirijo o meu mais respeitoso enaltecimento.

Os números não me causaram surpresa. Os fatos das últimas semanas não foram coincidências, mas uma sequencia de ações muito bem planejadas para que pudéssemos chegar nesse dia 13. Até mesmo o pedido de prisão do ex-presidente Lula contribuiu para a criação de um clima festivo entre aqueles que desejam de todas as formas a prisão do mesmo, e compreendem que a corrupção no país é um ato criado e alimentado unicamente pelo Partido dos Trabalhadores. A grande mídia, Organizações Globo e Abril, deram a sua contribuição importantíssima, da qual os movimentos não teriam capacidade de arregimentar o número esperado. A manifestação cria uma pressão no governo, mas no geral, não muda muita coisa.

Não muda, porque os participantes são sempre os mesmos. Geralmente pessoas que votaram no presidenciável Aécio Neves nas últimas eleições. Representam no geral a Classe Média Alta do Brasil. São brancos, com rentabilidade financeira razoável, ocupando bairros nobres da cidade. O recorte social permanece o mesmo desde o ano passado. São Paulo sempre foi um caso emblemático. Existe uma polarização mais acentuada, mas os participantes não fogem do recorte social feito acima. A imagem de uma empregada negra, vestida de branco, cuidando do filho da patroa enquanto essa se manifesta, é uma imagem detalhada do que estou falando: as manifestações não englobam a população brasileira. Muitos brasileiros não desejam entrar na briga de nenhuma das partes. Ficarem em suas casas, chateados com a programação da televisão sendo atrapalhada, tomando uma cervejinha no bar, indo ao culto à noite ou assistindo ao maior clássico do Nordeste.

Mas, todas essas questões nos convidam a nos colocarmos atentos e vigilantes. A classe política brasileira padece por conta dos inúmeros casos de corrupção. Muitos olham a Presidenta Dilma Roussef, não como uma pessoa incapaz de governar um país, mas como uma pessoa incapaz de interferir no judiciário e mudar os rumos das investigações. A saída da presidenta é vista com bons olhos por aqueles que desejam se livrar das denuncias. E talvez a manifestação de hoje alimente o ideal desses políticos, boa parte deles filiados ao PMDB. Lembre-se que o vice-presidente estar desejoso por assumir o país. O presidente do Senado, Renan Calheiros, citado em várias delações, deseja limpar o seu nome. E correndo por fora está Eduardo Cunha, presidente da Câmara, e réu em um processo de desvio de recursos. Todos ansiosos pelo poder e membros do PMDB.

Quem talvez tenha estragado tudo isso tenha sido o PSDB. Envolvido em diversos casos de corrupção, de forma hipócrita foram às ruas. O constrangimento foi inevitável: foram expulsos do próprio ato que convocaram. Se o PT não tem legitimidade para governar, os mesmo manifestantes disseram que o PSDB também não tem. Nessa semana, nenhum dos partidos poderá utilizar-se dos movimentos para se promoverem no Congresso. O ato ficou isolado, como fruto apenas dos movimentos pró-impeachment. A grande mídia tentará reverter o erro na estratégia, mas não creio no sucesso dessa empreitada. Aécio Neves e Alckim deveriam ter escutado o conselho dos mais velhos: quem tem telhado de vidro não atira pedra no telhado dos outros.

Caberá a Presidenta Dilma tomar as rédeas do processo. Nesse cenário, trazer o ex-presidente Lula para o governo pode ajudar na formação de uma coalizão que misture articulação política e planejamento econômico para sair da crise. Entretanto, é necessário desembarcar o PMDB. Se eles desejam sair é necessário que se tome a dianteira do processo, e afirme categoricamente que eles precisam escolher um lado. Quem foi as ruas nesse dia 13, mesmo que influenciados pela grande mídia, certamente estará esperando ações firmes do governo. Não podemos mais esperar, pois a situação política impede maiores esforços para a resolução dos problemas econômicos.

Um comentário:

  1. Leitura equilibrada da situação, que não desconstrói e nem desmerece a capacidade do povo Brasileiro de exercitar a democracia, mas que também não perde de vista a leitura crítica do período delicado e decisivo que estamos atravessando na política brasileira.

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