sábado, 19 de novembro de 2016

Traficamente Em Estado Grave Ou Policial Levemente Ferido



Não somos mais uma sociedade a beira do caos, creio que já estamos no centro dele e não está claro para nenhum de nós como sair. As reivindicações por direitos sociais potencializaram as repressões e a violência tornou-se evidente, institucionalizada e “democraticamente” apoiada pela maioria das pessoas. Somos uma sociedade do imediatismo, que se nega a fazer reflexões e buscar as soluções para os problemas que temos enfrentado. Voltamos a dividir o mundo em bem e mal, sendo que qualquer um que não esteja de acordo com o meu pensamento, ideologia, religiosidade torna-se evidentemente o meu inimigo, alguém a ser combatido e eliminado. Não há espaços para construções coletivas e sínteses de pensamentos. O acesso à informação também se tornou o instrumento da desinformação e canal da manipulação de grandes indústrias de comunicação.

Para que possa ser claro nas afirmações acima, ilustro a guerra diária entre os chamados “homens de bem” e os “defensores de direitos humanos”. Indo mais profundamente nesse exemplo, podemos citar os casos envolvendo a Polícia Militar brasileira e os defensores de um novo sistema de segurança que preveem uma polícia cidadã e não militarizada. Ambas as partes, em muitos momentos, deixam-se levar pelas palavras e atos de violência, da qual não creio que sejam o caminho para vivermos em uma sociedade que garanta a segurança de todos. Como um militante dos direitos humanos temos que buscar estar atentos para não repetir o discurso e os atos de violência dos opressores. Nessa semana, a morte do jovem Guilherme, assassinado pelo seu próprio pai, deixa evidente que o discurso violento se tornou prática violenta.

Outra evidência de onde chegamos em nossa miserabilidade e mediocridade humana é uma pesquisa feita pelo um canal de televisão brasileiro onde se perguntava quem deveria ser resgatado: Um policial levemente feriado ou um traficante gravemente ferido. Muitas pessoas criticaram o fato de que o escolhido para ser salvo foi aquele que estava gravemente ferido. Deixa-se de lado a humanidade, a solidariedade e como diria alguns cristãos, o amor ao próximo, e usa-se o ódio como instrumento norteador para a tomada de decisões. Livres do ódio, saberíamos sem nenhuma questão de dúvida que o primeiro a ser resgatado é o que está gravemente ferido. Não há fundamentos legais, morais ou éticos que nos façam pensar diferente. Infelizmente, o que vimos foram tentativas de justificar a violência em nossa sociedade sem nenhuma reflexão. Quem defende a morte por gostar da morte em nada se diferencia do traficante ou bandido, é assassino da mesma forma.

Como citei inicialmente, estamos em meio ao caos e não sabemos para onde caminhar. A degradação humana e a violência estabelecerem impérios poderosos demais. As massas parecem ter escolhido o caminhar violento. Se não escolheram estamos hipnotizados pelo poder da grande mídia. Como um cristão, tenho escolhido o caminho ensinado por Jesus, o caminho de socorrer o judeu ferido à beira da estrada, mesmo sendo eu um samaritano. Talvez pudéssemos ter nesse texto diversas outras elucidações sobre o papel da polícia militar, o desafio dos direitos humanos e outras questões básicas. Mas, por hoje estou repetindo as palavras do poeta José Régio: “Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí”!  Entre o traficamente em estado grave ou o policial levemente ferido, eu escolho ter misericórdia. 

(Pr. Régis Pereira, Igreja Presbiteriana Independente de Jardim Iracema)

domingo, 14 de agosto de 2016

Nossa Omissão É Combustível Para Opressão



Há pelo menos dois meses resolvi praticar o silêncio em relação a diversas questões que aconteciam no Brasil. Necessitava de um tempo para poder colocar em ordem os pensamentos, como também refletir sobre os diversos movimentos que tomam conta do da sociedade durante esses dias. O meu silêncio coincidiu com o silêncio da mídia brasileira sobre as questões políticas do país, como também a famosa crise econômica que o Brasil estava submetido. Parece que agora temos um jornalismo menos atento a esses fatos, e mais disposto a criar um ambiente de calmaria e sensatez.

Resolvi romper esse silêncio depois de um questionamento levantado por um antigo bispo da Igreja Metodista através de uma revista escrita por volta dos anos 80. O texto diz o seguinte: “Numa determinada igreja local, indagaram o bispo a respeito de como iniciar o movimento de dons e ministérios e como descobrir o que o Espírito tinha em mente para aquela igreja local. O bispo respondeu: É necessário orar... orar muito, buscar a Deus... Mas orar com os olhos abertos. Olhos abertos para compreender a Deus, ver a realidade humana que necessita da atuação e resposta de Deus”. Percebi que estava orando de olhos bastante fechados enquanto silenciava. Era necessário voltar a olhar a realidade ao meu redor e buscar as respostas de Deus para nossa atuação.

Alguns exemplos bíblicos nos desafiaram. Isaías (6.1-8) enquanto teve sua visão de Deus, poderoso, santo e exaltado, teve também uma visão de si mesmo e de seu povo necessitado. Seu momento de gozo espiritual não ficou no templo, mas ele atendeu a voz de Deus para exercer seu ministério em meio ao povo. Amós (5.21-27) viu as injustiças ao seu redor e as denunciou. Falou que Deus não aceita cerimônias e rituais, nem ofertas e sacrifícios, enquanto o povo colaborasse com tanta injustiça e maldade. Mateus (25.31-46),  traz o texto do grande julgamento onde Jesus deixa claro que enxergar e atender às necessidades humanas era senha para entrar no Reino, aqueles que foram insensíveis a essas necessidades ficaram fora. O pecado do homem rico foi a sua indiferença às necessidades do seu semelhante (Lucas 16.19-31). Thiago 2.15-16 fala da vida religiosa, afirmando que essa precisa ser praticada em atos de amor e compaixão.

Desafiados pela voz dos profetas e dos textos proféticos proferidos pelo movimento de Jesus, percebemos que a nossa realidade está marcada por situações de injustiça e de opressão. Nosso ambiente religioso tornou-se um canal de morte e condenações sumárias de milhares de vida. A igreja brasileira apoderou-se dos textos bíblicos para justificar as mais perversas ações humanas como racismo, homofobia, machismo, fascismo e neoconservadorismo. A ideia assemelha-se a ideologia de extrema direita do Partido Nazista da qual visava à construção de uma sociedade homogênea que objetivava superar as divisões sociais. Para cumprir o objetivo, judeus, opositores políticos e outros elementos vistos como “indesejáveis” eram marginalizados, escravizados, presos e assassinados.  Percebam que elementos daqueles que se colocam como igreja brasileira, defensora da família, tem buscado criminalizar e condenar qualquer grupo que não se encaixe em suas ideologias/teologias. A questão é de tamanha gravidade que até mesmo políticos envolvidos com estupros e desvio de verbas são defendidos pelas classes “evangélicas” como vítimas de uma sociedade esquerdista maldosa. Mas, esse é um assunto para outro post.

Para o ambiente político, continuo a defender a tese que cada vez mais encontra fundamento em nosso meio. O processo de impeachment da Presidenta Dilma Roussef foi um golpe de uma composição política que não aceitava mais perder pelas vias legais. Se trabalhamos com questões de justiça precisamos estar cientes que apoiar essa ação é agir de maneira injusta e mentirosa. Não há fundamento legal, apenas uma vontade política de afastá-la. Entretanto, percebemos que a mídia silencia no fato que o próprio presidente interino recebeu repasses ilegais, fez reuniões com investigados e provavelmente autorizou muitas das ações ilícitas. Entretanto, porque o silêncio? Onde estão as vozes que clamavam contra a corrupção? Todas se calaram provando que nunca houve nenhum compromisso sério de combate a corrupção. Inclusive, nosso judiciário continua sendo um judiciário acovardado e seletivo na hora de julgar.

A crise econômica deixou de ocupar os centros dos jornais. Descobriu-se milagrosamente que o dólar a R$ 3,00 é o ideal para a economia brasileira e que a moeda se valorizou em boa parte do mundo. Mais, o governo atual justifica a crise para poder tecer um plano econômico que atacará os direitos dos trabalhadores. Férias, 13º salário e aposentadoria passarão por mudanças radicais. Até mesmo a estabilidade para aqueles que trabalham no setor público está ameaçada, pois uma PEC prevê que o governo possa demitir quando achar necessário. O primeiro campo de Petróleo já foi leiloado, provando que a privatização da Petrobrás é uma questão de tempo. Nos próximos meses veremos empresas públicas perdendo poder no mercado e uma cartilha neoliberal que levou a falência diversos países latinos nos 90 sendo aplicada novamente. Os resultados dessas ações já podem ser previstos: empobrecimento da população e concentração de renda fazendo que o país volte ao passado quando ocupava o mapa da pobreza.

Não bastassem os problemas religiosos, econômicos e políticos que estão ao nosso redor, precisamos escrever mais um parágrafo para analisar o contexto de crianças, adolescentes e jovens do país. Sofremos um ataque a direitos conquistados com muita luta. A redução da maioridade penal será aprovada pelo congresso, levando ao encarceramento milhares de adolescentes.  Esse encarceramento nos trará uma geração de jovens que sairá das prisões marcados pela violência e que responderá nas ruas com mais violência, pois fomos incapazes de educá-los. O machismo ganhará força quando os poucos direitos das mulheres forem reduzidos. Corremos o risco de continuarmos a sermos uma geração que alimenta a cultura do estupro. Pouco avançamos no combate ao racismo nos últimos anos, mas estamos diante de um retrocesso sem precedentes para o povo negro. O acesso universal a educação e a saúde correm sérios riscos. Certamente veremos menos filhos e filhas de pobres na universidade.


Diante desse contexto é preciso abrir nossos olhos e prepararmos nossas mãos para a ação. Nossa omissão é combustível para opressão que se desenha diante de nós. Como desejamos responder a essas questões? Quais são as respostas de Deus para a nossa atuação? 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Para Aqueles Que professam A Fé Cristã No Brasil E Se Encontram Preocupados Com O Destino De Nossa Democracia



Direciona-me a cada um de vocês na graça do Senhor Jesus Cristo, aquele que é Conselheiro Maravilhoso, Deus Forte, Pai para sempre, Príncipe da Paz.

Temos presenciado nos últimos meses em nosso país o acirramento dos ânimos por conta das disputas políticas e econômicas. Um dos ápices desse momento aconteceu no dia 17 de abril de 2016, no plenário da Câmara de Deputados do Brasil, quando foi levado a julgamento o relatório do Processo de Impeachment da Presidenta Dilma Roussef. O resultado final deu prosseguimento ao processo que poderá levar o afastamento da Presidenta de suas funções. Diante dos acontecimentos precisamos tecer nossas reflexões sobre o atual momento e construir saídas para enfrentar a crise ética, política e econômica que nos é apresentada.

Antes de tudo, temos como missão orar incessantemente pelo lugar que nos encontramos. Recordemos as palavras de Deus através do Profeta Jeremias aos cativos judeus levados até a Babilônia: “procurai a paz da cidade, para onde vos fiz transportar em cativeiro, e orai por ela ao Senhor, porque na sua paz vós tereis paz” (Jeremias 29.7). Além da oração, precisamos estar cientes diante de todos os acontecimentos que Deus está no controle de tudo. No final desfrutaremos de sua vontade que é boa, perfeita e agradável. Esse não é um convite à passividade diante da gravidade dos fatos, mas um lugar de segurança em meio às turbulências.

Pontuada essa questão, passo a falar sobre o processo de impeachment conduzido ontem na Câmara de Deputados. Para todos(as) aquele(as) que puderem acompanhar pela televisão ou em outro lugar da cidade, certamente estão perplexos diante das escolhas dos deputados e a forma como foram apresentadas.  Em nenhum momento houve citações sobre qual crime estava sendo julgado. Os parlamentares pareciam mais preocupados com suas famílias do que com a nação. O processo foi conduzido por um réu no Supremo Tribunal Federal, acusado de desviar milhões de reais dos cofres públicos. A maioria dos deputados presentes também tiverem seus nomes divulgados em listas de corrupção. Estranhamente a acusada da noite, a Presidenta Dilma Roussef, não foi citada em operações de lavagem de dinheiro e não aparece em nenhuma dessas listas. Em um dos momentos de maior horror, um dos deputados faz um agradecimento ao torturador da Presidenta Dilma Roussef na época da Ditadura Militar.

Se faltaram motivos para a sustentação legal do processo, sobraram agradecimentos a Deus e aos familiares. Em nome de Deus e de suas respectivas igrejas muitos justificaram os seus votos. Entretanto falar em nome de Deus não santifica nenhuma ação corrupta.  Voltemos aos textos bíblicos e recordemos que as cortes de Israel eram cheias de falsos profetas. Homens que usavam o nome de Deus para justificar a situação de miséria e opressão do povo. Segundo o profeta Miquéias, esses homens faziam desviar o povo, aqueles que lhes pagavam bem, proclamavam paz, mas os outros que não tinham condições e nem recursos para comprar os profetas, a esses eles proclamavam guerra santa (Miqueias 3.5). Parece-nos que presenciamos ontem uma tentativa da sacralização de um processo essencialmente profano.

O estado brasileiro é laico e assim deve se comportar. Não é uma extensão de nossas comunidades cristãs. Sempre que nos misturamos com o estado, desejando determinar suas ações, depois de um sucesso rápido, mergulhamos em ações violentas que visavam à manutenção do poder. Estejamos cientes que o desejo de Deus não é uma teocracia, mas um Reino de igualdade e justiça, onde todas as pessoas podem exercer livremente sua liberdade de crença ou não crença. Isso não retira de nós a responsabilidade de sermos testemunhas fiéis dos princípios do evangelho onde quer que estejamos. Esse exercício de fidelidade a Deus deve ser feito com extremo respeito ao pensamento diferente, ao ser humano que caminha conosco com outras percepções da vida.

Como cidadãos brasileiros nós temos muitos questionamentos a tecer sobre o Governo Dilma. Cremos que outras medidas poderiam ter sido tomadas e que o governo deveria se aproximar cada vez mais dos pobres e oprimidos desse país. Entretanto, nossas críticas não buscam e não alimentam um rompimento democrático. A atual organização do congresso brasileiro é propícia à corrupção e o sistema político está falido. Não acreditamos que novas eleições resolverão os problemas políticos do Brasil: mudam-se os atores, mas a obra continua a mesma. Mas, acreditamos que precisamos nos unir em busca de uma reforma do sistema político que permita que todas as camadas da população sejam representadas.   A nossa luta é pela manutenção e o aperfeiçoamento da democracia. Portanto, o que vimos nos últimos meses e atuação desastrosa dos parlamentares da Câmara de Deputados no julgamento do Impeachment leva-nos a classificá-lo como um atentado ao estado democrático de direito.

Concluo com as palavras do pastor luterano Moltmann: “as promessas de Deus abrem os horizontes da história”. E acrescenta: “Aquilo que era experimentado como ‘história’, como possibilidade de transformação da realidade, coincidia com as promessas de Deus, abrangendo sua lembrança e sua esperança”. A esperança é quem conserva a fé em vida, sustenta e impele para frente. A esperança cristã não se enquadra dentro de um status quo de injustiças e ilegalidades. Ela é convidada a transformação criadora da realidade. É o anúncio da boa notícia de salvação para os presos, oprimidos, cegos e pobres. Portanto, somos mais uma vez convidados a manter a nossa esperança firme e nossa luta perseverante pela justiça. Voltemos as nossas bases, casas, comunidades e denunciamos os crimes que estão sendo cometidos contra o povo e juntos construamos as alternativas para superar esse momento. Lembrando, que nosso objetivo principal é o fortalecimento de nossa democracia. Que Deus nos ajude!

Paz Sobre a Cidade,

Pr. Régis Pereira

domingo, 20 de março de 2016

18 de Março, A Democracia Resiste


“Tantas vezes me mataram
Tanta vezes eu morri
Mas agora estou aqui
Ressuscitando”

Depois do dia 18 de março não poderia iniciar o meu texto com outras palavras. A poesia de Maria Elena Walsh traduz muito bem o meu sentimento depois de participar e perceber que a sociedade brasileira continua atenta às tentativas da retirada ilegal da Presidenta da República Dilma Roussef do seu posto. Não importa o número de participantes. Esse aqui não é um jogo de quem coloca mais gente na rua. É um processo de luta pela manutenção da democracia e do estado democrático de direito. E percebemos que não estamos sozinhos nessa luta.

Mais uma vez a mídia tentou diminuir a grande expressão popular da sexta-feira. Uma tentativa inútil diante das redes sociais. Os organizadores do golpe de estado davam certos a sua vitória. Agora necessitam reavaliar suas estratégias para que não coloquem a nação dentro de um caos profundo e sem precedentes. Entretanto, continuam ousados em suas ações. O Ministro Gilmar Mendes do Supremo Tribunal Federal simplesmente retirou a ação sobre o ex-presidente Lula das mãos do também Ministro Teori Zavascky e a devolveu ao Juiz Federal Sérgio Moro. Um ato classificado por alguns juristas de inadequado, já que o ministro não esconde suas posições políticas.

Presenciamos nas duas últimas semanas uma ação orquestrada que tinha como principal objetivo criminalizar o ex-presidente Lula e destituir a Presidenta da República, Dilma Roussef. O processo de impeachment teve o seu andamento nessa semana sob a liderança do Presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha. É de se estranhar que o Presidente para poder apressar o processo está convocando sessões nas sextas e segundas. Tudo para retirar da Presidenta da República o seu direito de defesa.

Diante desse cenário, a presença nas ruas de milhares de cidadãos brasileiros contrários ao processo nos dá uma dimensão que o caminho não será tão fácil como pensado anteriormente pela oposição. Mas, precisamos manter nossa atenção e vigilância durante essa semana. O desrespeito com a presidência da república atingiu níveis intoleráveis, como divulgar gravações sem autorização judicial.  Em qualquer democracia do mundo, os agentes responsáveis por tal ação estaria presos.


Para nós, resta-nos continuarmos a nossa luta de forma organizada, pacifica, mas ao mesmo tempo combativa. As comunidades que foram as ruas na última sexta-feira demonstraram que não aceitarão retrocessos. Os diversos movimentos de esquerda estão mais uma vez alinhados e não podemos perder a oportunidade de também exigirmos as reformas que tanto lutamos. A próxima semana será novamente palco de tensões e, para vencermos mais essa batalha, precisamos estar vigilantes. Não podemos permitir que a democracia brasileira venha cair, para que os interesses de alguns se sobreponha aos interesses de todos os brasileiros. Como afirmamos anteriormente, se gosta ou não concorda com o governo, espera as próximas eleições.  

domingo, 13 de março de 2016

Manifestações - Quem Tem Telhado De Vidro Não Atira Pedra no Telhado dos Outros


Nesse início de madrugada começamos a ter uma noção completa dos impactos das manifestações do dia 13 de março de 2016. Antes de qualquer análise se faz necessário elogiarmos a capacidade de organização dos movimentos, com a força da grande mídia, nesse dia. Penso que os resultados se tratando de números foram alcançados. Devemos continuar a celebrar as conquistas dessa nossa jovem democracia, como o direito de manifestar contra aquilo que pensa estar errado. Nesse ponto, dirijo o meu mais respeitoso enaltecimento.

Os números não me causaram surpresa. Os fatos das últimas semanas não foram coincidências, mas uma sequencia de ações muito bem planejadas para que pudéssemos chegar nesse dia 13. Até mesmo o pedido de prisão do ex-presidente Lula contribuiu para a criação de um clima festivo entre aqueles que desejam de todas as formas a prisão do mesmo, e compreendem que a corrupção no país é um ato criado e alimentado unicamente pelo Partido dos Trabalhadores. A grande mídia, Organizações Globo e Abril, deram a sua contribuição importantíssima, da qual os movimentos não teriam capacidade de arregimentar o número esperado. A manifestação cria uma pressão no governo, mas no geral, não muda muita coisa.

Não muda, porque os participantes são sempre os mesmos. Geralmente pessoas que votaram no presidenciável Aécio Neves nas últimas eleições. Representam no geral a Classe Média Alta do Brasil. São brancos, com rentabilidade financeira razoável, ocupando bairros nobres da cidade. O recorte social permanece o mesmo desde o ano passado. São Paulo sempre foi um caso emblemático. Existe uma polarização mais acentuada, mas os participantes não fogem do recorte social feito acima. A imagem de uma empregada negra, vestida de branco, cuidando do filho da patroa enquanto essa se manifesta, é uma imagem detalhada do que estou falando: as manifestações não englobam a população brasileira. Muitos brasileiros não desejam entrar na briga de nenhuma das partes. Ficarem em suas casas, chateados com a programação da televisão sendo atrapalhada, tomando uma cervejinha no bar, indo ao culto à noite ou assistindo ao maior clássico do Nordeste.

Mas, todas essas questões nos convidam a nos colocarmos atentos e vigilantes. A classe política brasileira padece por conta dos inúmeros casos de corrupção. Muitos olham a Presidenta Dilma Roussef, não como uma pessoa incapaz de governar um país, mas como uma pessoa incapaz de interferir no judiciário e mudar os rumos das investigações. A saída da presidenta é vista com bons olhos por aqueles que desejam se livrar das denuncias. E talvez a manifestação de hoje alimente o ideal desses políticos, boa parte deles filiados ao PMDB. Lembre-se que o vice-presidente estar desejoso por assumir o país. O presidente do Senado, Renan Calheiros, citado em várias delações, deseja limpar o seu nome. E correndo por fora está Eduardo Cunha, presidente da Câmara, e réu em um processo de desvio de recursos. Todos ansiosos pelo poder e membros do PMDB.

Quem talvez tenha estragado tudo isso tenha sido o PSDB. Envolvido em diversos casos de corrupção, de forma hipócrita foram às ruas. O constrangimento foi inevitável: foram expulsos do próprio ato que convocaram. Se o PT não tem legitimidade para governar, os mesmo manifestantes disseram que o PSDB também não tem. Nessa semana, nenhum dos partidos poderá utilizar-se dos movimentos para se promoverem no Congresso. O ato ficou isolado, como fruto apenas dos movimentos pró-impeachment. A grande mídia tentará reverter o erro na estratégia, mas não creio no sucesso dessa empreitada. Aécio Neves e Alckim deveriam ter escutado o conselho dos mais velhos: quem tem telhado de vidro não atira pedra no telhado dos outros.

Caberá a Presidenta Dilma tomar as rédeas do processo. Nesse cenário, trazer o ex-presidente Lula para o governo pode ajudar na formação de uma coalizão que misture articulação política e planejamento econômico para sair da crise. Entretanto, é necessário desembarcar o PMDB. Se eles desejam sair é necessário que se tome a dianteira do processo, e afirme categoricamente que eles precisam escolher um lado. Quem foi as ruas nesse dia 13, mesmo que influenciados pela grande mídia, certamente estará esperando ações firmes do governo. Não podemos mais esperar, pois a situação política impede maiores esforços para a resolução dos problemas econômicos.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Brasil, O Golpe Que Bate A Nossa Porta


As duas últimas semanas dentro do mundo político foram marcadas por um conjunto de ações que nos parecem bastante alinhadas. É impossível que as investigações recentes, pedidos de prisões, operações da Polícia Federal tenham sido uma triste coincidência. As delações, mesmo sem confirmações, estamparam as páginas dos jornais. A cobertura feita pelo jornalismo, digamos de passagem, das Organizações Globo e parceiros, traze-nos a certeza que a mídia conservadora deseja o fim de um governo eleito democraticamente pelo povo.

O desejo da oposição, como também de boa parte da alta classe média brasileira, sempre foi derrubar o governo petista. Não conseguiram fazê-lo através dos instrumentos legais, por isso caminham para ilegalidade em prol da conquista dos seus objetivos. Não chegam a nos causar espantos tais atitudes. Parece que vivemos um ciclo infindável de golpes políticos no Brasil. Foi assim em 1964, está sendo assim, em 2016: a demonização das forças políticas de esquerda em prol de uma moralidade de direita, conservadora e ao mesmo tempo ignorante, pois desconhecem seus próprios princípios.

Todas as reportagens não confirmadas aconteceram a uma semana das manifestações, conhecidas como megas manifestações das elites brasileiras. A ideia é poder criar um ambiente de grande estabilidade que possa levar milhares de pessoas as ruas. O alvo não é a denúncia da corrupção, pois se assim fosse, lembrariam do caso dos desvios de recursos das Merendas em São Paulo, ou mesmo a participação de Aécio na Lista de Furnas. O alvo é o PT, é o seu governo, “criador, propagador e único partido político brasileiro que sofreu denúncias de desvio de conduta”. A indignação é seletiva e quem vai as ruas parece não está consciente disso. Estão sendo usado como massa de manobra, igualmente a 64, para promover a desestabilidade do país e também enterrar qualquer tipo de investigação sobre esquemas de corrupção.

Essa é a segunda parte da história que parecer passar despercebida. O PMDB fará sua convenção no sábado, dia 12 de março, onde provavelmente decidirá sobre a saída do governo Dilma. Aliando-se com o PSDB e DEM desejam criar uma nova força política no país, buscando a tal unidade. Mas, o que está por trás disso é apenas um desejo de livrar-se das denúncias de corrupção. Todos eles sabem que a Presidenta Dilma Roussef não irá interferir nos julgamentos do STF. Lugar que todos os líderes do PMDB estão sendo investigados. Enquanto as atenções caem sobre o PT, a Câmara de Deputados é presidida por um homem que é réu no Supremo Tribunal Federal. Um homem que é capaz de intimidar testemunhas e até falsificar assinaturas para poder livrar-se de processos.

A situação política não é simples. Ela é grave por conta das forças conservadores que desejam destruir o Projeto Popular construído ao longo dos últimos anos. Os ânimos estão acirrados, pois não seria possível aceitarmos que um governo ilegítimo assumisse o poder. As investigações precisam continuar e atingir a todos(as) que de alguma forma agiram de maneira corrupta. O golpe desse momento certamente paralisaria as investigações ou faria com que continuassem sendo apenas investigações de cunho político. E não adianta tentar negar que as investigações têm sido apenas instrumentos políticos: A Veja/Globo, Ministério Público de São Paulo, delegados da Polícia Federal do Paraná e o Juiz Moro não nos deixam enganar.

A partir de agora é necessário ocuparmos as ruas. Ocuparmos em defesa da democracia e ao mesmo tempo denunciar todos os tipos de desmandos feitos por tais paladinos da moralidade. Denunciar os crimes de manipulação cometidos pelas Organizações Globo e Veja. Nossa luta na rua não pode ser apenas em defesa do Presidente Lula ou do Governo vigente. Tem que ser uma luta pela regulamentação da mídia e por uma reforma política que venha das bases. Uma luta em defesa dos milhares de brasileiros que saíram da miséria graças aos programas sociais, programas que permitiram que eles vivessem com maior dignidade. É uma luta em defesa dos milhares de jovens que hoje ocupam as cadeiras de nossas universidades no Brasil e também em diversos países do mundo. Tem-se feito desse momento o momento do confronto, então que o façamos com dignidade, persistência e sabedoria. 

Como Lutar Pela Democracia?

Nos dias que antecederiam o afastamento da Presidenta Dilma Roussef de suas funções no Governo Federal, recordo que fomos até a Avenida...