quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Sobre Dores e Esperança

Foto: Wilton Bandeira

É difícil escrever sobre os últimos acontecimentos que ceifaram a vida de 11 jovens na Grande Messejana. Escrever sobre esses fatos chega a ser um exercício de superação constante e de certo constrangimento, porque enquanto penso em algumas palavras algum jovem está sendo assassinado nessa cidade.  Somos a capital especialista em assassinatos, ninguém mata como a gente tem matado.
Desde o dia 11 dormir uma noite tranqüilo e passar um dia sem grandes preocupações tem sido bastante difícil. Movimentamos-nos, caminhamos de um lugar ao outro e o clima tenso de violência nos domina somando a sensação de medo, transformando a expressão poética do salmista bíblico “caminhando pelo vale da sombra da morte” em uma cruel realidade.

Muitas coisas doeram nesses dias. Ninguém tem o direito de retirar a vida de outro. É lamentável a morte do policial Serpa.  Mas também é lamentável que 11 adolescentes e jovens, entre eles Jardel, Allef, Ícaro e Pedro tenham sido brutalmente assassinados. Talvez a proximidade nesses casos tenha feito a dor ser maior. Essa é a primeira grande dor.

Eram apenas adolescentes iniciando suas juventudes. Eram amados por suas comunidades, por seus amigos. Na expressão do pai do Jardel, enquanto revirava a bolsa do seu filho, era um garoto que tinha as chaves de sua casa, porque ele tinha casa, tinha nome, tinha família. Essa dor será maior para com todos aqueles que no dia 11 também morreram um pouco com a partida repentina desses irmãos/amigos. Morreu o sorriso que só o Jardel sabia retirar de outros, morreu os conselhos sempre certeiros que o Allef dava, o som daquele grupo de percussão no Curió não será o mesmo sem a presença do Ícaro.

Mas, outras coisas doeram em mim. Doeu ver milhares de pessoas mergulhadas em sentimentos de ódio repetir como mantra que: “bandido bom é bandido morto”. Eu queria poder entrar na casa de cada uma delas e gritar: Eles não eram bandidos, eles não tinham passagem. Na madrugada me toquei que estaria entrando em um ciclo vicioso de violência, pois mesmos que fossem bandidos não poderiam ser assassinados. Doeu em saber que esse mantra da morte é repetido na maioria dos casos por aqueles que sentam em nossos bancos de igreja e se diz seguidores de Jesus Cristo. Senti-me em luto e fracassado como “líder religioso”.

Outra coisa que doeu foi ver várias instituições que não mais se sensibilizam com a dor. Aqueles “educadores e tal” que deveriam estar consolando adolescentes e pais que choravam desesperados não apareceram. No final, era uma comunidade, que muitas vezes usada para levantar recursos para projetos que transformarão a vida dos pobres, estava sozinha no luto e na luta, despedaçada, recolhendo os seus cacos para poder levantar-se. Senti-me fracassado como educador social e envergonhado. Os meus amigos de luta tinham outras agendas e outras prioridades.

Ainda está doendo o silêncio dos governantes. Além das dores do luto, da solidão, da opressão, temos que aprender a lidar com a dor do silêncio daqueles que elegemos como nossos representantes. A política pública que chega com efetividade nas nossas comunidades é a do braço armado do estado cearense. O estado que oprime o homem policial, o agride, o reprime e o condiciona a ser violento dentro do seu sistema militarizado. Para mim, que sempre apoiei um governo que fosse do povo, que viesse do meio popular, como homem político me sinto também fracassado e sem respostas.

Mas, quero dizer que têm coisas que me trouxeram esperança e conforto. Carregarei comigo a imagem desses adolescentes do Jangurussu que tem a incrível capacidade de ressurgiram em meio às lágrimas. Que transformam a dor em versos e versos que trazem a coragem para lutar. Que se consolam uns aos outros e que mesmo em meio às lágrimas se recusam a desistirem de construir suas vidas com dignidade. Desses adolescentes que têm percebido o seu lugar na história, como mulher, homem, negra e negro, empobrecidas e empobrecidos, com seus direitos violados, mas prontos para a luta.

Em nome daqueles que se foram, ainda podemos ecoar nosso grito: Juventude Presente! Até Quando? Para Sempre!



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