sábado, 19 de setembro de 2015

Revendo Nossa Lógica de Trabalho


Parece que estamos sempre apressados em nossos trabalhos. Uma correria intensa para alcançarmos metas e objetivos propostos em nossas instituições e empresas. Dedicamos ao nosso trabalho muito mais tempo do que aquele que foi combinado em nossos contratos. Se trabalhamos na área do terceiro setor essa realidade se torna mais real e intensa.

Mas, se tivéssemos mais tempo para dedicarmos a outros afazeres? Se nosso trabalho não consumisse a maioria dos dias de nossa semana, interferindo em nossos relacionamentos sociais e familiares? Se houvesse um tempo maior para o descanso e prática de outras atividades que exercitasse nossa criatividade?

Cito esses exemplos porque temos sofrido nos últimos anos com o excesso de burocracia. Não cabe aqui fazermos uma análise sobre as questões burocráticas levando em conta seus pontos positivos e negativos. Mas, como tudo na vida que é feito em excesso pode trazer-nos riscos, o excesso de procedimentos burocráticos é um sério inibidor da criatividade. Mergulhados em números, processos e rotinas administrativas não é reservado tempo para o exercício da criatividade. Você tem que fazer, não precisa pensar porque tem que fazer. Você entrega o produto seguindo o processo, mesmo que o processo não tenha nenhum sentido e o produto nenhum impacto ou relevância.

Sei que esses questionamentos são colocados por milhares de trabalhadores de nossas associações, fundações, ONG´s espalhadas por todo o Brasil. São questionamentos que ainda estão presentes em minha própria vida e que tenho com muito cuidado procurado respostas adequadas para superarmos esse intenso tempo de trabalho e infelizmente pouca criatividade. Nessa procura, me deparei meses atrás com o livro Ócio Criativo, do sociólogo Domenico de Masi. O livro constitui-se uma crítica a sociedade pós-industrial e o seu modelo baseado na idolatria ao mercado, ao trabalho e a competitividade, mostrando que o futuro pertencerá aqueles que souberem libertar-se da tradicional idéia de trabalho como obrigação ou dever, e souberem apostar em uma mistura de trabalho com o tempo de lazer, o ócio criativo.

A nossa questão é que nos habituamos ao trabalho intenso. Ao invés de caminharmos para a redução de nossa carga de trabalho, preferimos permanecer gratuitamente em nossas empresas (instituições), todos os dias, muitas horas a mais do que as previstas no contrato de trabalho. De acordo com Domenico, com o tempo essa rotina torna-se uma dependência psicológica que se saíssemos antes do horário previsto nos sentiríamos perdidos, desorientados e inúteis. Preferimos mostrar aos outros que temos muitas tarefas a realizar, somos altamente competentes e todos podem confiar suas tarefas a nós, e assim sacrificamos a família e o lazer.

Entretanto essa ação não sacrifica apenas os já citados grupos acima, afeta a empresa e o crescimento pessoal do empregado: “Além disso, é preciso recordar que as pessoas que se habituam a ficar no local de trabalho além do horário de expediente regular tendem a matar o tempo inventando novos procedimentos para impor aos outros. E assim, aos poucos, a empresa se reduz a um amontoado de regulamentos inúteis à sua eficiência, danosos à sua produtividade e letais a sua criatividade”. (Domenico). Precisamos lembrar que “a quantidade de idéias produzidas não é diretamente proporcional à quantidade de horas de permanência no interior de uma empresa”.


Diante dessas questões precisamos rever nosso modelo de trabalho em nossas instituições. Compreendo que estamos mergulhados nesse amontoado de procedimentos que em muitas vezes nos parecem sem sentidos. Se permanecermos dentro dessa lógica de trabalho tendemos a nos tornar irrelevantes para aqueles que trabalham conosco, como também para o público que desejamos oferecer os nossos serviços. Redesenhar, reinventar ou mesmo criar novas formas que valorizem o educador social se faz tarefa primordial na construção de um novo modelo de trabalho. As palavras de Domenico podem servir de inspiração para iniciarmos reflexões em nossos escritórios. 

Régis Pereira

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