segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Investimentos Sociais Internacionais: Crises e Perspectivas

Existe uma crise que tem atingido o setor social do país: ong´s, associações, fundações e institutos. Nos últimos dez anos a situação econômica e social do país passou por grandes melhorias. Em 2014 o país saiu do Mapa da Fome da ONU. Antes mesmo dessa data já percebíamos a retirada de investidores sociais no país. O foco dos doadores passou a ser nações africanas em sua maioria, e nações latinas que enfrentassem casos de pobreza extrema.

Aparentemente existe uma grande lógica para a saída desses mantenedores. O Brasil se apresenta como a 7ª Economia do mundo, com instituições democráticas consolidas e políticas redistributivas elogiadas por diversos setores da sociedade que permitiram a saída de milhões de brasileiros da miséria. Olhando para esse quadro o investidor social sente que seus investimentos poderiam ter maior utilidade em outras localidades.
As lideranças dessas ONG´s têm afirmado em diversos momentos que essa é uma visão equivocada dos investidores internacionais.  Que retirar alguém da linha da pobreza não significa que essa pessoa saiu da pobreza. Esse ponto é correto, pois sabemos que ainda existem no Brasil milhares de pessoas em situação de pobreza. Mas, na outra parte, os números e dados não mentem. O que investidor internacional na verdade está dizendo é que o Brasil possui as condições necessárias para superar as dificuldades enfrentadas recentemente com relação à pobreza, enquanto em outros países necessita se criar essas condições.

Diante da crise o que sabemos é que precisamos inovar em nossas respostas e atuação. Penso que por muitos anos surfamos na onda tranqüila e negávamos ver a tempestade que se aproximava. Criamos estruturas caríssimas confiantes que o investidor estrangeiro nunca iria embora. Pecamos na inovação dos processos, mesmo que tenhamos construídos metodologias elogiadas por várias partes do mundo. Pouca coisa tem sido escrita sobre esse novo momento das ONG´s, já que temos dificuldades em ver em meio à turbulência. Eu não poderia apresentar aqui todos os motivos do porque dessa situação, mas acredito que não tenha apenas relação com a situação econômica e social do país. Outros fatores podem levar o investidor a sair, como por exemplo, a inovação, a transparência e a eficácia dos projetos apresentados.

Na resposta que temos que dar a essa situação, algumas certezas necessitam caminhar conosco. Uma delas é como nos relacionamos com as pessoas empobrecidas. Nos anos 70 a 90, o pobre era visto pelas ONG´s como um ser incapaz de sair de sua condição de miserabilidade e digno de nossa eterna ajuda. O protagonismo social, o empoderamento comunitário e a mobilização social são conceitos que começam a ser trabalhados mais recentemente. O pobre deixa a sua condição de assistido do “projeto social” para ser o construtor de uma nova sociedade, mais justa e respeitosa dos seus direitos.

Na ânsia por soluções para a crise tenho percebido que muitos gestores sociais têm caminhado com estratégias que reforçam uma idéia ultrapassada sobre o trabalho social. Buscando a entrada de recursos para manter seus processos e estruturas caríssimas, voltou-se a antiga idéia de tratar o empobrecido como um ser digno de nossa caridade. Para isso, tento convencer a minha classe média a investir para garantir a comida na mesa do pobre. Portanto, ele volta a ser objeto de minha ação, deixando de ser protagonista de sua história.

Há um aparente erro na estratégia adotada e este erro relaciona-se com o nível de conscientização adquirida pelas comunidades ao longo desses anos. Ensinadas a questionar e refletir sobre as ações desenvolvidas com elas, certamente não desejarão ser tratadas novamente como meros objetos da caridade do rico. Perderá o poder de mobilização social e os produtos da ação não poderão ser entregues, conseqüentemente o financiador brasileiro, desejoso por resultados rápidos, deixará de financiar ações sem nenhum poder de transformação.

Haverá uma crise instalada nas próprias instituições e suas parceiras, pois tentarão defender suas identidades sociais de qualquer forma. Educadores que discordarem das temáticas desenvolvidas certamente pedirão para sair de suas organizações. O trabalho passará a ser feito por pessoas que não conhecem a realidade local, criando um distanciamento entre instituição e beneficiados, que tornará a primeira irrelevante na vida da segunda. Todos esses fatores porque não se entendeu que fazer caridade com o empobrecido para satisfazer o ego do rico (classe média) é um retrocesso social sem precedentes.


Finalizando, penso que a melhor estratégia a ser adotada nesse momento é o investimento nas bases sociais. Preencher o vazio social e ideológico presente nesse momento na nova classe social que surge com o protagonismo juvenil que foi fortalecido nos últimos anos. Nunca tivemos tantos jovens em nosso país como temos agora. Se mobilizá-los hoje, teremos a certeza da continuação de instituições fortes e autônomas nos próximos 50 anos. 

sábado, 19 de setembro de 2015

Revendo Nossa Lógica de Trabalho


Parece que estamos sempre apressados em nossos trabalhos. Uma correria intensa para alcançarmos metas e objetivos propostos em nossas instituições e empresas. Dedicamos ao nosso trabalho muito mais tempo do que aquele que foi combinado em nossos contratos. Se trabalhamos na área do terceiro setor essa realidade se torna mais real e intensa.

Mas, se tivéssemos mais tempo para dedicarmos a outros afazeres? Se nosso trabalho não consumisse a maioria dos dias de nossa semana, interferindo em nossos relacionamentos sociais e familiares? Se houvesse um tempo maior para o descanso e prática de outras atividades que exercitasse nossa criatividade?

Cito esses exemplos porque temos sofrido nos últimos anos com o excesso de burocracia. Não cabe aqui fazermos uma análise sobre as questões burocráticas levando em conta seus pontos positivos e negativos. Mas, como tudo na vida que é feito em excesso pode trazer-nos riscos, o excesso de procedimentos burocráticos é um sério inibidor da criatividade. Mergulhados em números, processos e rotinas administrativas não é reservado tempo para o exercício da criatividade. Você tem que fazer, não precisa pensar porque tem que fazer. Você entrega o produto seguindo o processo, mesmo que o processo não tenha nenhum sentido e o produto nenhum impacto ou relevância.

Sei que esses questionamentos são colocados por milhares de trabalhadores de nossas associações, fundações, ONG´s espalhadas por todo o Brasil. São questionamentos que ainda estão presentes em minha própria vida e que tenho com muito cuidado procurado respostas adequadas para superarmos esse intenso tempo de trabalho e infelizmente pouca criatividade. Nessa procura, me deparei meses atrás com o livro Ócio Criativo, do sociólogo Domenico de Masi. O livro constitui-se uma crítica a sociedade pós-industrial e o seu modelo baseado na idolatria ao mercado, ao trabalho e a competitividade, mostrando que o futuro pertencerá aqueles que souberem libertar-se da tradicional idéia de trabalho como obrigação ou dever, e souberem apostar em uma mistura de trabalho com o tempo de lazer, o ócio criativo.

A nossa questão é que nos habituamos ao trabalho intenso. Ao invés de caminharmos para a redução de nossa carga de trabalho, preferimos permanecer gratuitamente em nossas empresas (instituições), todos os dias, muitas horas a mais do que as previstas no contrato de trabalho. De acordo com Domenico, com o tempo essa rotina torna-se uma dependência psicológica que se saíssemos antes do horário previsto nos sentiríamos perdidos, desorientados e inúteis. Preferimos mostrar aos outros que temos muitas tarefas a realizar, somos altamente competentes e todos podem confiar suas tarefas a nós, e assim sacrificamos a família e o lazer.

Entretanto essa ação não sacrifica apenas os já citados grupos acima, afeta a empresa e o crescimento pessoal do empregado: “Além disso, é preciso recordar que as pessoas que se habituam a ficar no local de trabalho além do horário de expediente regular tendem a matar o tempo inventando novos procedimentos para impor aos outros. E assim, aos poucos, a empresa se reduz a um amontoado de regulamentos inúteis à sua eficiência, danosos à sua produtividade e letais a sua criatividade”. (Domenico). Precisamos lembrar que “a quantidade de idéias produzidas não é diretamente proporcional à quantidade de horas de permanência no interior de uma empresa”.


Diante dessas questões precisamos rever nosso modelo de trabalho em nossas instituições. Compreendo que estamos mergulhados nesse amontoado de procedimentos que em muitas vezes nos parecem sem sentidos. Se permanecermos dentro dessa lógica de trabalho tendemos a nos tornar irrelevantes para aqueles que trabalham conosco, como também para o público que desejamos oferecer os nossos serviços. Redesenhar, reinventar ou mesmo criar novas formas que valorizem o educador social se faz tarefa primordial na construção de um novo modelo de trabalho. As palavras de Domenico podem servir de inspiração para iniciarmos reflexões em nossos escritórios. 

Régis Pereira

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