quinta-feira, 21 de maio de 2015

Memórias Póstumas de Urias, o heteu (Benedito Bezerra)

"Esse texto foi escrito por Benedito Bezerra, está no livro Palavra de Deus na palavra dos pobres, reflexões a partir da periferia"

É bem provável que vocês nunca tenham reparado na minha presença em seu livro sagrado, a Bíblia, pois eu apareço lá apenas como um personagem menor na história da vida do (en)grande(cido) rei Davi. Sim, estou falando de uma história que a maioria de vocês conhece bem, localizada em 2 Samuel 11. Quem de vocês prestou atenção no papel de Urias naquela história? As Bíblias que vocês descrevem/prescrevem uma leitura orientada para as coisas “Davi comete um adultério e um homicídio,” “Davi e Bate-Seba”, “Adultério de Davi e morte de Urias” ou “adultério de Davi com Bate-Seba”. Note que somente um desses títulos o meu nome é mencionado. Nada do que fui ou realizei é lembrado, apenas a minha morte. Urias é realmente apenas uma pedra no meio do caminho de Davi.

Por essa razão, resolvi eu mesmo contar a minha história. Como um certo Brás Cubas, personagem da literatura de vocês, estou aqui não como um autor defunto, mas como um defunto autor, pois estou escrevendo já depois da minha morte. Nessa situação, parece que posso compreender melhor o que aconteceu. De toda forma, se vocês acharem que estou errado, não me importo. Afinal, sou apenas um morto.
Mas, como estava dizendo, do meu ponto de vista, é Davi quem entra no meu caminho. Eu estava bastante empenhado na guerra dele, que eu, apesar de ser apenas um estrangeiro, um heteu, tinha assumido como se fosse minha. Estava lutando com toda a minha bravura. Então Davi, que inexplicavelmente não tinha acompanhado seus exércitos para a guerra, conforme o hábito dos reis valentes e honrados, de repente manda me chamar à sua presença. Eu não tinha a menor idéia do que estava acontecendo. Por que o rei queria me ver?

Bem, ali eu estava diante do rei. Ele queria saber sobre Joabe, meu general, e sobre a situação da guerra. Achei estranho ter deixado a batalha para me transformar em uma espécie de informante do rei. Eu era um guerreiro e não um funcionário dos correios. A coisa ficou ainda mais esquisita quando o rei me aconselhou ir para casa e descansar. Acho que aquele era o sonho de tantos companheiros meus que ficaram na frente de batalha. Rever minha esposa: o que poderia ser melhor? Para completar, mal saí do palácio e recebi um presente do rei. Eu estava espantado com tanta gentileza. Não estava entendendo nada.

Mas resolvi não ir para casa, e preferi dormir com os empregados do rei diante do palácio. Quando o rei perguntou a razão disso, respondi que não poderia ir para casa, comer, beber e dormir com a minha mulher enquanto os meus companheiros e, mais do que isso, a Arca do Senhor, Deus de Davi, estavam acampados ao relento. Me impressionou o fato de que Davi parecia não perceber isso, ele que era tão chegado a Deus. Foi como se eu estivesse ensinando ao homem segundo o coração de Deus como devia se comportar diante desse Deus que ele adorava.

O rei ainda estava muito interessado em minha presença. Convidou-me a ficar mais um dia e me chamou para comer e beber. No final do dia, eu estava completamente bêbado. Mesmo assim, ao contrário de todos os bêbados, não procurei o caminho de casa. Novamente dormi ao lado dos empregados de Davi. Eu senti que isso era ser leal ao Deus em quem Davi dizia crer, e ser leal aos meus companheiros que continuavam na guerra.

No dia seguinte, Davi finalmente me enviou de volta à frente de batalha. Mais uma vez servi de mensageiro para Davi, pois levei comigo, por ordem do rei, uma carta para Joabe. Não sei o que estava escrito na carta, pois ela estava lacrada, conforme o costume, mas tenho uma forte sensação de que o conteúdo tem a ver com a minha morte e com a estranha conduta do rei.

O fato é que o voltei com Joabe para a batalha, e fomos para um lugar onde os adversários eram terríveis. Estranhamente, no momento mais difícil, Joabe se afastou de mim e de meus companheiros. Naquele dia, morreram alguns valentes guerreiros de Davi, e entre eles estava eu, Urias, o heteu.

E vocês, que conheceram o resto da história, o que acham dela? Como é que eu, um estrangeiro, que tentava viver minha vida e meus compromissos com honestidade e lealdade, perdi tudo que tinha, a esposa e até a própria vida, por causa dos caprichos pessoais de um rei que deveria andar nos justos caminhos do seu Deus?

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O Direito ao Delírio - Eduardo Galeano


Mesmo que não possamos adivinhar o tempo que virá, temos ao menos o direito de imaginar o que queremos que seja.

As Nações Unidas tem proclamado extensas listas de Direitos Humanos, mas a imensa maioria da humanidade não tem mais que os direitos de: ver, ouvir, calar.

Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar?
Que tal se delirarmos por um momentinho?

Ao fim do milênio vamos fixar os olhos mais para lá da infâmia para adivinhar outro mundo possível.

O ar vai estar limpo de todo veneno que não venha dos medos humanos e das paixões humanas.

As pessoas não serão dirigidas pelo automóvel, nem serão programadas pelo computador, nem serão compradas pelo supermercado, nem serão assistidas pela televisão.

A televisão deixará de ser o membro mais importante da família.

As pessoas trabalharão para viver em lugar de viver para trabalhar.

Se incorporará aos Códigos Penais o delito de estupidez que cometem os que vivem por ter ou ganhar ao invés de viver por viver somente, como canta o pássaro sem saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca.

Em nenhum país serão presos os rapazes que se neguem a cumprir serviço militar, mas sim os que queiram cumprir.

Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida à quantidade de coisas.

Os cozinheiros não pensarão que as lagostas gostam de ser fervidas vivas.

Os historiadores não acreditarão que os países adoram ser invadidos.

O mundo já não estará em guerra contra os pobres, mas sim contra a pobreza.
E a indústria militar não terá outro remédio senão declarar-se quebrada.

A comida não será uma mercadoria nem a comunicação um negócio, porque a comida e a comunicação são direitos humanos.

Ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão.

As crianças de rua não serão tratadas como se fossem lixo, porque não haverá crianças de rua.

As crianças ricas não serão tratadas como se fossem dinheiro, porque não haverá crianças ricas.

A educação não será um privilégio de quem possa pagá-la e a polícia não será a maldição de quem não possa comprá-la.

A justiça e a liberdade, irmãs siamesas, condenadas a viver separadas, voltarão a juntar-se, voltarão a juntar-se bem de perto, costas com costas.

Na Argentina, as loucas da Praça de Maio serão um exemplo de saúde mental, porque elas se negaram a esquecer nos tempos de amnésia obrigatória.

A Santa Madre Igreja corrigirá algumas erratas das tábuas de Moisés, e o sexto mandamento mandará festejar o corpo, a igreja também ditará outro mandamento que Deus havia esquecido: “amaras a natureza da qual fazes parte”.

Serão reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma.

Os desesperados serão esperados e os perdidos serão encontrados, porque eles se desesperaram de tanto esperar e se perderam de tanto procurar.

Seremos compatriotas e contemporâneos de todos os tenham vontade de beleza e vontade de justiça, tenham nascido onde tenham nascido e tenham vivido quando tenham vivido, sem se importarem nem um pouquinho com as fronteiras do mapa e ou do tempo.

Seremos imperfeitos porque a perfeição continuará sendo um chato privilégio dos Deuses.

Neste mundo trapalhão, seremos capazes de viver cada dia como se fosse o primeiro e cada noite como se fosse a última.

Como Lutar Pela Democracia?

Nos dias que antecederiam o afastamento da Presidenta Dilma Roussef de suas funções no Governo Federal, recordo que fomos até a Avenida...