sábado, 19 de dezembro de 2015

Isso é Um Escândalo!

Ângela Pinheiro[1]
De olhos arregalados e semblante atônito, foi assim que reagiu um amigo, quando lhe fiz um relato do processo que estamos vivendo, integrantes do Fórum DCA, no último mês, em relação ao trâmite do PLOA 2016 – mais conhecido como Orçamento Anual, da Prefeitura Municipal de Fortaleza.
O pasmo tem razões de sobra, das quais seleciono algumas, agora, pelos limites de espaço deste texto:
- a PMF impôs cortes da ordem de mais de R$ 16 milhões de reais para programas e projetos relacionados a crianças, adolescentes e jovens. Os cortes atingem frontalmente programas como: Merenda Escolar; Acolhimento Institucional de Crianças e Adolescentes com Direitos Violados; Atendimento Psicossocial a Crianças e Adolescentes Vítimas de Violência Sexual; Manutenção de Conselhos Tutelares; Construção e Equipamentos de Centros de Educação Infantil; Programas Efetivados pela Rede CUCA;
- enquanto isso... só para o Gabinete do Prefeito estão previstos – pasmemo-nos novamente! – mais de R$ 183 milhões, montante superior ao total de recursos para a FUNCI; e as Secretarias de Direitos Humanos e Cidadania; de Desenvolvimento Habitacional; de Cultura; de Trabalho, Desenvolvimento Social e Combate à Fome; e de Esporte e Lazer (mais uma vez, pasmemo-nos);
- no último mês, estivemos por, pelo menos, dez vezes na Câmara Municipal – espaço institucional de análise, discussão, modificação e aprovação (ou não) do proposta de Orçamento encaminhada pela PMF. Apresentamos emendas para reverter os cortes inaceitáveis; fizemos contato com a Presidência; Liderança e Vice-Liderança do Governo; com integrantes da Mesa Diretora, da Comissão de Direitos Humanos, bem como de Orçamento e Legislação; conseguimos apoio às nossas propostas de 22 Vereadores dos mais diversos Partidos Políticos – da chamada base e da oposição, que subscreveram Carta Aberta, a eles por nós dirigida; procuramos, assim, respeitar os ritos institucionais e a independência dos Poderes Executivo e Legislativo;
- aguardávamos retorno às nossas reivindicações, feitas à Presidência e à Comissão de Orçamento, quando fomos surpreendidos com a notícia inaceitável de que, de mais de 400 emendas, as únicas que foram rejeitadas pela Comissão acima citada foram as 11 por nós apresentadas, referentes a crianças, adolescentes e jovens, apesar da justeza da reivindicação, e desrespeitando a vontade expressa de mais da metade dos Vereadores de Fortaleza, e a articulação de mais de 25 entidades da sociedade civil, filiadas ao Fórum DCA, que coordenou todo esse processo.
Tomados de indignação, voltamos à Casa Legislativa, no dia da votação da Redação Final do Orçamento. Das galerias e nas proximidades do Plenário e na Presidência, ainda tentamos chamar a atenção dos Vereadores – de formas as mais diversas. Alguns deles utilizaram a tribuna, denunciando o absurdo dos cortes. Com prejuízos incontestes para crianças e adolescentes, nada conseguiu quebrar a insensatez e a insensibilidade. Assim, sobram motivos para que a Prefeitura Municipal de Fortaleza seja (re)conhecida como uma gestão que desconsidera a prioridade absoluta prevista na Constituição Federal de 1988; desrespeita as recomendações mínimas do bom senso e de documentos e organismos internacionais de promoção de direitos de crianças e adolescentes; e, mais ainda, apregoa um discurso e deixa de concretizar práticas condizentes com a busca de qualidade de vida para crianças, adolescentes e jovens. Fica a vergonha para nós, habitantes de Fortaleza, por termos uma gestão municipal atual que consegue agregar tantas qualidades indesejáveis, que resultam em gastos exorbitantes com autopromoção e secundarização inadmissível, na alocação de recursos que poderiam resultar na promoção humana de sujeitos sociais com passado, e, infelizmente, com presente e futuro incertos.
Antes que eu esqueça e para como há falta de prioridade absoluta dessa gestão: é igualmente lamentável a baixíssima execução do Orçamento da PMF de 2015, com relação a crianças, adolescentes e jovens, como demonstram os dados constantes do seu Portal da Transparência.
Esmorecer diante de tamanho descaso da PMF, com a anuência da maioria dos Vereadores? Nunca! A Fortaleza que queremos, e que temos contribuído para construir, é bem diferente. Gestores são passageiros, transitórios. Nossos ideais e forças, para seguir lutando por igualdade, respeito e dignidade para todos e todas nós, vêm de há muito, e por muito tempo hão de permanecer.
[1] Integrante do NUCEPEC/UFC e sua representante junto ao Fórum Permanente de ONGs de Defesa dos Direitos de Crianças e Adolescentes (Fórum DCA).

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Criança e Adolescente Não São Prioridades em Fortaleza


No mês de agosto de 2015 o CEDECA Ceará apresentou uma nota técnica especial intitulada: A Prioridade Absoluta na Execução Orçamentária do Município de Fortaleza. A nota apresentava dados gravíssimos sobre a execução do orçamento da infância e adolescência na cidade. Percebeu-se que alguns programas do governo contavam com execução zero, e outros, passado um semestre, ainda não tinha executado 50% do orçado. A nota revelou que a infância não era uma questão prioritária para o governo municipal.

Quando ainda tentávamos buscar junto ao governo a execução do orçamento, tivemos mais uma desagradável notícia. A Prefeitura apresentou o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA 2016) com bruscas reduções financeiras nas políticas voltadas para as crianças e adolescentes. Por exemplo, o Programa Cidadania em Rede – Apoio às Famílias em Situação de Violação de Direitos -, foi praticamente extinto, com uma redução de 99,6% do seu orçamento.

O Fórum DCA do Ceará realizou diversos encontros com a Comissão de Direitos Humanos da Câmara e do Orçamento. Foram várias as visitas feitas pelos membros desse fórum. Através da Comissão de Direitos Humanos foram apresentadas emendas ao orçamento que pudessem complementar os recursos cortados. Todas as tentativas foram rechaçadas pelo Governo Municipal e o seu líder na Câmara, Vereador Evaldo Lima (PC do B). Mesmo com apoio de mais de 22 vereadores, as emendas foram rejeitadas na Comissão de Orçamento e não chegaram a serem votadas no plenário. Além do corte nas políticas públicas para a infância, foi rejeitada uma emenda que previa o aumento do recurso para a manutenção dos Cucas (Centro Urbanos de Cultura, Arte, Ciência e Esporte).


Diante das ações do governo municipal percebemos que crianças, adolescentes e jovens não são prioridades máximas da gestão municipal. Em uma cidade conhecida por sua violação de direitos, os recursos oriundos para tratar vítimas e prevenir essas violências foram bruscamente cortados. Na cidade que mais mata adolescentes no Brasil, uma das mais violentas e desiguais do mundo, os espaços de juventudes foram renegados a segundo plano quando vemos que os investimentos necessários para a manutenção dos Cucas foram negados. Cabe a nós mantermos a luta e a vigilância para que o pouco que foi orçado seja realmente executado. É hora de mantermos um monitoramento ativo na execução orçamentária.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Sobre Dores e Esperança

Foto: Wilton Bandeira

É difícil escrever sobre os últimos acontecimentos que ceifaram a vida de 11 jovens na Grande Messejana. Escrever sobre esses fatos chega a ser um exercício de superação constante e de certo constrangimento, porque enquanto penso em algumas palavras algum jovem está sendo assassinado nessa cidade.  Somos a capital especialista em assassinatos, ninguém mata como a gente tem matado.
Desde o dia 11 dormir uma noite tranqüilo e passar um dia sem grandes preocupações tem sido bastante difícil. Movimentamos-nos, caminhamos de um lugar ao outro e o clima tenso de violência nos domina somando a sensação de medo, transformando a expressão poética do salmista bíblico “caminhando pelo vale da sombra da morte” em uma cruel realidade.

Muitas coisas doeram nesses dias. Ninguém tem o direito de retirar a vida de outro. É lamentável a morte do policial Serpa.  Mas também é lamentável que 11 adolescentes e jovens, entre eles Jardel, Allef, Ícaro e Pedro tenham sido brutalmente assassinados. Talvez a proximidade nesses casos tenha feito a dor ser maior. Essa é a primeira grande dor.

Eram apenas adolescentes iniciando suas juventudes. Eram amados por suas comunidades, por seus amigos. Na expressão do pai do Jardel, enquanto revirava a bolsa do seu filho, era um garoto que tinha as chaves de sua casa, porque ele tinha casa, tinha nome, tinha família. Essa dor será maior para com todos aqueles que no dia 11 também morreram um pouco com a partida repentina desses irmãos/amigos. Morreu o sorriso que só o Jardel sabia retirar de outros, morreu os conselhos sempre certeiros que o Allef dava, o som daquele grupo de percussão no Curió não será o mesmo sem a presença do Ícaro.

Mas, outras coisas doeram em mim. Doeu ver milhares de pessoas mergulhadas em sentimentos de ódio repetir como mantra que: “bandido bom é bandido morto”. Eu queria poder entrar na casa de cada uma delas e gritar: Eles não eram bandidos, eles não tinham passagem. Na madrugada me toquei que estaria entrando em um ciclo vicioso de violência, pois mesmos que fossem bandidos não poderiam ser assassinados. Doeu em saber que esse mantra da morte é repetido na maioria dos casos por aqueles que sentam em nossos bancos de igreja e se diz seguidores de Jesus Cristo. Senti-me em luto e fracassado como “líder religioso”.

Outra coisa que doeu foi ver várias instituições que não mais se sensibilizam com a dor. Aqueles “educadores e tal” que deveriam estar consolando adolescentes e pais que choravam desesperados não apareceram. No final, era uma comunidade, que muitas vezes usada para levantar recursos para projetos que transformarão a vida dos pobres, estava sozinha no luto e na luta, despedaçada, recolhendo os seus cacos para poder levantar-se. Senti-me fracassado como educador social e envergonhado. Os meus amigos de luta tinham outras agendas e outras prioridades.

Ainda está doendo o silêncio dos governantes. Além das dores do luto, da solidão, da opressão, temos que aprender a lidar com a dor do silêncio daqueles que elegemos como nossos representantes. A política pública que chega com efetividade nas nossas comunidades é a do braço armado do estado cearense. O estado que oprime o homem policial, o agride, o reprime e o condiciona a ser violento dentro do seu sistema militarizado. Para mim, que sempre apoiei um governo que fosse do povo, que viesse do meio popular, como homem político me sinto também fracassado e sem respostas.

Mas, quero dizer que têm coisas que me trouxeram esperança e conforto. Carregarei comigo a imagem desses adolescentes do Jangurussu que tem a incrível capacidade de ressurgiram em meio às lágrimas. Que transformam a dor em versos e versos que trazem a coragem para lutar. Que se consolam uns aos outros e que mesmo em meio às lágrimas se recusam a desistirem de construir suas vidas com dignidade. Desses adolescentes que têm percebido o seu lugar na história, como mulher, homem, negra e negro, empobrecidas e empobrecidos, com seus direitos violados, mas prontos para a luta.

Em nome daqueles que se foram, ainda podemos ecoar nosso grito: Juventude Presente! Até Quando? Para Sempre!



quarta-feira, 7 de outubro de 2015

O Que Você Tem a Ver Com o Conselho Tutelar?


Na segunda pela manhã cumpri minha rotina diária. Levantei da cama, peguei o café que estava sobre a mesa e misturei com alguns biscoitos. Caminhei até a sala e enquanto saboreava o café, lia o jornal do dia. Eu estava curioso para saber o resulto da eleição que escolheu os novos conselheiros tutelares de Fortaleza. Foram dias de grandes mobilizações comunitárias pela cidade. Diversas vezes escutamos sobre o perfil ideal do conselheiro tutelar. Lembro-me que a característica mais importante era ter um reconhecido envolvimento na causa da infância.

Assustei-me diante da lista. Desde 2009 milito em Fortaleza nessa causa. Conheci muitos nomes e pessoas cuja dedicação mereceria prêmios anuais. Mas, a lista que estava diante de mim tinha alguma coisa errada. Dos 40 nomes escolhidos, apenas um tinha um trabalho reconhecido dentro da cidade na área da infância. Não estou dizendo que os outros 38 são pessoas desonestas, mas reitero não os conheço caminhando nessa área.

Infelizmente muitas denúncias se fizeram. Críticas na condução do processo e indícios de ilegalidade se multiplicaram. Não estou aqui para fazer um julgamento dos fatos, pois não tenho subsídios e provas materiais suficientes para poder tecer algum tipo de parecer. Mas, o que tenho é a certeza que não foi dada ao processo a importância necessária. Que as dificuldades encontradas nos locais de votação, a má fé de alguns candidatos e o envolvimento de políticos tirou o brilho desse processo.
Para aqueles que não sabem, nós costumamos definir o Conselho Tutelar como a porta de entradas das denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes. Na prática, é o lugar onde toda cidadão deve ir quando presenciar que uma criança está em risco. Pois bem, algo tão importante é negligenciado por nossas autoridades. Lamentamos que os órgãos governamentais não tenha realizado uma massiva campanha convidando a população a participar desse pleito. Parece que há um grande desinteresse por parte de nossas autoridades na melhoria desse equipamento.


O que isso tem a ver com você? Se você foi votar e vendeu o seu voto ou se você não foi votar, saiba que você tem grande responsabilidade na violência que presenciamos em nossos dias. Você é responsável pela dor de 18 mil crianças que diariamente sofrem com a violência doméstica. Saiba que em 2011, 70% das vítimas de abuso sexual tinham menos de 18 anos, e abaixo de 18 anos, 50% tinham menos de 13 anos. Sem um conselho tutelar atuante, a dor dessas crianças continuará silenciada. E o que dizer de outras violências como trabalho infantil, negligência, exploração? Todas essas violências poderiam ser minimizadas com prevenção e com um Conselho Tutelar atuante. Veja agora as conseqüências dos seus atos! Depois não me venha dizer que você é um grande defensor da família e dos bons costumes.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Investimentos Sociais Internacionais: Crises e Perspectivas

Existe uma crise que tem atingido o setor social do país: ong´s, associações, fundações e institutos. Nos últimos dez anos a situação econômica e social do país passou por grandes melhorias. Em 2014 o país saiu do Mapa da Fome da ONU. Antes mesmo dessa data já percebíamos a retirada de investidores sociais no país. O foco dos doadores passou a ser nações africanas em sua maioria, e nações latinas que enfrentassem casos de pobreza extrema.

Aparentemente existe uma grande lógica para a saída desses mantenedores. O Brasil se apresenta como a 7ª Economia do mundo, com instituições democráticas consolidas e políticas redistributivas elogiadas por diversos setores da sociedade que permitiram a saída de milhões de brasileiros da miséria. Olhando para esse quadro o investidor social sente que seus investimentos poderiam ter maior utilidade em outras localidades.
As lideranças dessas ONG´s têm afirmado em diversos momentos que essa é uma visão equivocada dos investidores internacionais.  Que retirar alguém da linha da pobreza não significa que essa pessoa saiu da pobreza. Esse ponto é correto, pois sabemos que ainda existem no Brasil milhares de pessoas em situação de pobreza. Mas, na outra parte, os números e dados não mentem. O que investidor internacional na verdade está dizendo é que o Brasil possui as condições necessárias para superar as dificuldades enfrentadas recentemente com relação à pobreza, enquanto em outros países necessita se criar essas condições.

Diante da crise o que sabemos é que precisamos inovar em nossas respostas e atuação. Penso que por muitos anos surfamos na onda tranqüila e negávamos ver a tempestade que se aproximava. Criamos estruturas caríssimas confiantes que o investidor estrangeiro nunca iria embora. Pecamos na inovação dos processos, mesmo que tenhamos construídos metodologias elogiadas por várias partes do mundo. Pouca coisa tem sido escrita sobre esse novo momento das ONG´s, já que temos dificuldades em ver em meio à turbulência. Eu não poderia apresentar aqui todos os motivos do porque dessa situação, mas acredito que não tenha apenas relação com a situação econômica e social do país. Outros fatores podem levar o investidor a sair, como por exemplo, a inovação, a transparência e a eficácia dos projetos apresentados.

Na resposta que temos que dar a essa situação, algumas certezas necessitam caminhar conosco. Uma delas é como nos relacionamos com as pessoas empobrecidas. Nos anos 70 a 90, o pobre era visto pelas ONG´s como um ser incapaz de sair de sua condição de miserabilidade e digno de nossa eterna ajuda. O protagonismo social, o empoderamento comunitário e a mobilização social são conceitos que começam a ser trabalhados mais recentemente. O pobre deixa a sua condição de assistido do “projeto social” para ser o construtor de uma nova sociedade, mais justa e respeitosa dos seus direitos.

Na ânsia por soluções para a crise tenho percebido que muitos gestores sociais têm caminhado com estratégias que reforçam uma idéia ultrapassada sobre o trabalho social. Buscando a entrada de recursos para manter seus processos e estruturas caríssimas, voltou-se a antiga idéia de tratar o empobrecido como um ser digno de nossa caridade. Para isso, tento convencer a minha classe média a investir para garantir a comida na mesa do pobre. Portanto, ele volta a ser objeto de minha ação, deixando de ser protagonista de sua história.

Há um aparente erro na estratégia adotada e este erro relaciona-se com o nível de conscientização adquirida pelas comunidades ao longo desses anos. Ensinadas a questionar e refletir sobre as ações desenvolvidas com elas, certamente não desejarão ser tratadas novamente como meros objetos da caridade do rico. Perderá o poder de mobilização social e os produtos da ação não poderão ser entregues, conseqüentemente o financiador brasileiro, desejoso por resultados rápidos, deixará de financiar ações sem nenhum poder de transformação.

Haverá uma crise instalada nas próprias instituições e suas parceiras, pois tentarão defender suas identidades sociais de qualquer forma. Educadores que discordarem das temáticas desenvolvidas certamente pedirão para sair de suas organizações. O trabalho passará a ser feito por pessoas que não conhecem a realidade local, criando um distanciamento entre instituição e beneficiados, que tornará a primeira irrelevante na vida da segunda. Todos esses fatores porque não se entendeu que fazer caridade com o empobrecido para satisfazer o ego do rico (classe média) é um retrocesso social sem precedentes.


Finalizando, penso que a melhor estratégia a ser adotada nesse momento é o investimento nas bases sociais. Preencher o vazio social e ideológico presente nesse momento na nova classe social que surge com o protagonismo juvenil que foi fortalecido nos últimos anos. Nunca tivemos tantos jovens em nosso país como temos agora. Se mobilizá-los hoje, teremos a certeza da continuação de instituições fortes e autônomas nos próximos 50 anos. 

sábado, 19 de setembro de 2015

Revendo Nossa Lógica de Trabalho


Parece que estamos sempre apressados em nossos trabalhos. Uma correria intensa para alcançarmos metas e objetivos propostos em nossas instituições e empresas. Dedicamos ao nosso trabalho muito mais tempo do que aquele que foi combinado em nossos contratos. Se trabalhamos na área do terceiro setor essa realidade se torna mais real e intensa.

Mas, se tivéssemos mais tempo para dedicarmos a outros afazeres? Se nosso trabalho não consumisse a maioria dos dias de nossa semana, interferindo em nossos relacionamentos sociais e familiares? Se houvesse um tempo maior para o descanso e prática de outras atividades que exercitasse nossa criatividade?

Cito esses exemplos porque temos sofrido nos últimos anos com o excesso de burocracia. Não cabe aqui fazermos uma análise sobre as questões burocráticas levando em conta seus pontos positivos e negativos. Mas, como tudo na vida que é feito em excesso pode trazer-nos riscos, o excesso de procedimentos burocráticos é um sério inibidor da criatividade. Mergulhados em números, processos e rotinas administrativas não é reservado tempo para o exercício da criatividade. Você tem que fazer, não precisa pensar porque tem que fazer. Você entrega o produto seguindo o processo, mesmo que o processo não tenha nenhum sentido e o produto nenhum impacto ou relevância.

Sei que esses questionamentos são colocados por milhares de trabalhadores de nossas associações, fundações, ONG´s espalhadas por todo o Brasil. São questionamentos que ainda estão presentes em minha própria vida e que tenho com muito cuidado procurado respostas adequadas para superarmos esse intenso tempo de trabalho e infelizmente pouca criatividade. Nessa procura, me deparei meses atrás com o livro Ócio Criativo, do sociólogo Domenico de Masi. O livro constitui-se uma crítica a sociedade pós-industrial e o seu modelo baseado na idolatria ao mercado, ao trabalho e a competitividade, mostrando que o futuro pertencerá aqueles que souberem libertar-se da tradicional idéia de trabalho como obrigação ou dever, e souberem apostar em uma mistura de trabalho com o tempo de lazer, o ócio criativo.

A nossa questão é que nos habituamos ao trabalho intenso. Ao invés de caminharmos para a redução de nossa carga de trabalho, preferimos permanecer gratuitamente em nossas empresas (instituições), todos os dias, muitas horas a mais do que as previstas no contrato de trabalho. De acordo com Domenico, com o tempo essa rotina torna-se uma dependência psicológica que se saíssemos antes do horário previsto nos sentiríamos perdidos, desorientados e inúteis. Preferimos mostrar aos outros que temos muitas tarefas a realizar, somos altamente competentes e todos podem confiar suas tarefas a nós, e assim sacrificamos a família e o lazer.

Entretanto essa ação não sacrifica apenas os já citados grupos acima, afeta a empresa e o crescimento pessoal do empregado: “Além disso, é preciso recordar que as pessoas que se habituam a ficar no local de trabalho além do horário de expediente regular tendem a matar o tempo inventando novos procedimentos para impor aos outros. E assim, aos poucos, a empresa se reduz a um amontoado de regulamentos inúteis à sua eficiência, danosos à sua produtividade e letais a sua criatividade”. (Domenico). Precisamos lembrar que “a quantidade de idéias produzidas não é diretamente proporcional à quantidade de horas de permanência no interior de uma empresa”.


Diante dessas questões precisamos rever nosso modelo de trabalho em nossas instituições. Compreendo que estamos mergulhados nesse amontoado de procedimentos que em muitas vezes nos parecem sem sentidos. Se permanecermos dentro dessa lógica de trabalho tendemos a nos tornar irrelevantes para aqueles que trabalham conosco, como também para o público que desejamos oferecer os nossos serviços. Redesenhar, reinventar ou mesmo criar novas formas que valorizem o educador social se faz tarefa primordial na construção de um novo modelo de trabalho. As palavras de Domenico podem servir de inspiração para iniciarmos reflexões em nossos escritórios. 

Régis Pereira

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Redução da Maioridade Penal, Ainda Resistimos!

Quando todas essas crises e invencionices passarem não sei se estaremos em um lugar melhor e mais seguro. Quando meus filhos crescerem e surgirem os primeiros netos, não sei se terão a segurança e todas as oportunidades para desenvolverem suas capacidades e talentos. Quando chegarmos ao futuro, imagino que as dificuldades para todos os adolescentes duplicarão, pois uma criança crescer livre de qualquer violência não será mais uma prioridade de nenhum político, como não é hoje.

Costumava falar de política com o meu avô, enquanto lia o jornal do dia para ele. Essa foi minha primeira formação política de fato. Meu avô não desejava que fôssemos desconhecedores sobre as práticas não tão honrosas de alguns representantes do povo. Para isso, nos alertava que deveríamos manter a honradez e a dignidade em qualquer circunstância. Sabedor da eficiência desse método da formação de cidadãos, prometi que também conversaria com os meus filhos sobre democracia, povo, dignidade, honra e injustiça.
Lamento que minhas conversas talvez não terão o saudosismo dos bons exemplos políticos.  Terei que relatar que vivi em uma época onde os políticos foram os grandes responsáveis pelos maiores ataques a dignidade humana. Que na calada da noite retiraram direitos de crianças e adolescentes, negociaram as suas vidas e os venderam a preço vil. Que nessa época, esses homens e mulheres, ditos representantes do povo, escolheram encarcerar adolescentes, ao invés de oferecerem educação de qualidade, moradia digna, segurança pública eficiente.

Terei que relatar que o chefe desses representantes era conhecido por desviar o recurso público por mais de 20 anos, e que mesmo acusado de corrupção, mantinha-se no poder inabalável. Que atacou não apenas os direitos de crianças e adolescentes, mas tirou do trabalhador o direito de possuir um trabalho digno, seguro e recompensador. Que odiando os pobres, tentou destruir a Saúde Pública e em nome dos poderosos transformou nossa alimentação em veneno tomado a pequenas doses diárias. Nem o direito de escolhermos o que comer permaneceu intocável.
Tomara que consigamos reverter essas situações. Não desejo que a próxima geração seja tomada por um pessimismo desmedido, mas facilmente explicável. Quero poder dizer aos meus filhos quando eles me perguntarem o que fizemos: “Nós resistimos, fomos às ruas, lutamos e vencemos”. 

sábado, 11 de julho de 2015

Reinaldo Azevedo Não Se Sente Representado Por Francisco. Graças a Deus!


Não leio a Revista Veja. O que é colocado nessa revista nunca me interessou. Seus repórteres não detêm de confiabilidade para com a sociedade e sua informação jornalística é sempre muito tendenciosa. Além dos seus repórteres, existem aqueles donos da verdade, como por exemplo, seus articulistas, que proferem mentiras e tentam formar na sociedade um estado de caos. Para mim, a verdade é algo primordial em qualquer meio de comunicação. Se o jornal agiu de maneira desrespeitosa, simplesmente não leio mais, pode ser de esquerda, direita, centro, de cima ou de baixo.

Nessa tarde fui surpreendido por um artigo dessa Revista. Com o título Bergoglio, o dito Papa Francisco, Não Me Representa, Reinaldo Azevedo me encheu de alegrias. Fiquei aliviado em saber que o Papa Francisco não representa um império construído na base de mentiras e opressão do povo brasileiro. Estou aliviado em saber que o Papa Francisco não representa o Reinaldo Azevedo, pois como poderia representar alguém que mente de forma contínua e oportunista. Ainda bem que o Papa Francisco não representa alguém que é contrário às lutas dos negros, pobres, gays e lésbicas desse país. Que acusa de vagabundo quem recebe o Bolsa Família, que menospreza um região do país, sentindo-se superior. Certamente, O Papa Francisco não representa um ser humano que deseja colocar adolescentes na cadeia e é a favor do linchamento de suspeitos em praça pública. 

Usando uma expressão evangelística, espero que o Reinaldo Azevedo conheça o poder salvador do perdão encontrado em Jesus Cristo e a sua força profética de denúncia do mal. Somente dessa maneira poderá compreender as ações de Francisco. Se não, corre o risco de permanecer como alguém que frustrado em suas próprias teorias, tenta de todas as maneiras culpabilizar outros por suas fraquezas e medos. Afinal, arrogância é apenas  demonstração de covardia.

Sobre os regimes que sob a égide de uma teoria comunista mataram mais de 120 milhões de pessoas, percebe-se o despreparo e o desconhecimento do articulista sobre essa causa. Certamente ele faltou às aulas de introdução a filosofia e história moderna. Se tivesse assistido as essas aulas ou se preocupado em ler um pouco, saberia que antes da Primeira Guerra Mundial, Rosa Luxemburgo e demais marxistas eram contrários a qualquer tipo de guerra e tentaram evitá-la ao máximo, pois a idéia básica era promover a solidariedade internacional entre as classes operárias ante os nacionalistas militares. Rosa e os políticos do partido Socialista Alemão foram às únicas vozes oposicionistas no Império Alemão contra a catástrofe humana que foi a Primeira Guerra Mundial. Seu antimilitarismo não foi tolerado pelo partido, que os expulsam.

Sobre a Rússia, o programa da Revolução, construído por Lenin, consistia no fim imediato da guerra, reforma agrária e todo poder aos soviets (trabalhadores).  Isso significava abolir o exército, a polícia e a burocracia, estabelecendo a igualdade salarial entre um operário e um funcionário público, a fim de abolir a hierarquia entre estado e sociedade, instaurando relações políticas horizontais entre os trabalhadores. Depois da morte de Lenin, Stalin supera Trótsky (que mantinha idéias parecidas com as de Lenin) na liderança do partido. Stalin não tinha o mesmo comprometimento com a classe operária e a realização da liberdade em um plano internacional, iniciando em 1928 um expurgo de todas as lideranças bolcheviques originais, por meio de expulsões, exílios, prisões e assassinatos. O programa levado a cabo por Stálin nada tem a ver com o programa comunista de Lenin. Essa é parte da historia que o Reinaldo esqueceu de dizer.

Fiz essas duas observações históricas antigas para mostrar que o articulista ou desconhece de história ou simplesmente está usando de má fé quando se refere ao comunismo e ao papa Francisco. Enfim, se o Reinaldo Azevedo não se sente representado por Francisco só temos algo a dizer: Graças a Deus.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Venderam Meninos e Meninas Como Escravos e Gastaram o Dinheiro com Prostitutas e Com Vinho


As suas autoridades são pessoas revoltadas e têm amizades com ladrões. Estão sempre aceitando dinheiro e presentes para torcer a justiça. Não defendem os direitos dos órfãos e não se preocupam com as causas das viúvas (Isaías 1.23).

Escolhi começar esse texto com as palavras do profeta Isaías. Talvez sejam elas que mais podem exemplificar o momento que vivemos atualmente. Creio que como cristão não podemos nos furtar da nossa tarefa de refletir o mundo que vivemos atualmente.  E nossa reflexão precisa estar alinhada com a fé que os profetas, apóstolos, discípulos e o próprio Jesus Cristo vivenciaram. Se não fizermos dessa forma, corremos o risco de cairmos no fanatismo religioso e na defesa irracional de temas que geram violência e morte. O mais grave é que podemos nos tornar canais desses maus.

Nessa madrugada, de maneira ilegal, foi aprovada na Câmara dos Deputados a Redução da Maioridade Penal de 18 para 16 anos de idade. A medida gerou surpresas para aqueles que estão acostumados aos ritos da vida política no Congresso. A constituição, regimentos internos e demais mecanismos foram esquecidos para que se prevalecesse à voz de um senhor. A voz desse senhor foi acompanhado pela bancada dos chamados evangélicos. Os discursos de ódio foram inflamados. Não se apresentaram soluções para a morte de milhares de jovens no Brasil, a não ser a construção de mais prisões. É determinar a morte para aqueles que já estão morrendo.

Diante desses fatos, lamentamos que boa parte dos evangélicos brasileiros caminhem em desacordo com as escrituras. Se olharmos para aqueles deputados que dizem defenderem a família brasileira e a fé cristã, veremos que muitos já respondem por algum crime político. É nesse momento que percebemos que nossas supostas autoridades são revoltadas e têm amizades com ladrões. Vários deles ganham milhares de reais em suas igrejas e programas, levando a triste ilusão de prosperidade para o povo pobre brasileiro. Agora, além dessa faceta criminosa da fé, resolvem atacar o direito dos órfãos e das viúvas.

Os órfãos e as viúvas constituíam a classe mais vulnerável do tempo dos profetas. Eles precisavam ter os seus direitos garantidos para que não sofressem a exploração dos mais abastados. Sempre que os direitos dos órfãos e das viúvas eram desrespeitados, a Palavra de Deus advertia ao povo de Israel a se arrepender dos seus pecados. Atualmente, temos nossos órfãos e viúvas. As pessoas mais propensas a violência e a morte são nossos jovens negros e pobres. Ninguém no Brasil tem tanta chance de ser assassinado antes dos 20 anos como eles. E ontem, nossos deputados, em sua maioria, cristãos, aceitaram presentes para distorcerem a justiça. Não defenderam o direito dos pobres e certamente as palavras de Amós caberiam aqui: “vocês maltratam as pessoas honestas, aceitam dinheiro para torcer a justiça e não respeitam os direitos dos pobres” (Amós 5.12).

Se a justiça fosse analisada nesse caso as perguntas seriam por que tantos jovens negros e pobres morrem? Por que os direitos das crianças e adolescentes não estão respeitados nesse país? Por que continuamos ter uma educação falha? Por que os governos não cumprem as leis referentes aos nossos filhos e filhas? A resposta é que nos distanciamos de Jesus Cristo. Somos mais parecidos com os fariseus que desejam apedrejar a mulher pega em adultério do que com aquele que disse: “Eu também não te condeno”. Não defendemos com unhas e dentes nossas crianças e adolescentes, porque esses não geram rendas para nossas igrejas.

O que aconteceu ontem no Congresso Brasileiro pode ser definido nas palavras de Joel: “Tiraram a sorte para ver quem ficava com os prisioneiros do meu povo; venderam meninos e meninas como escravos e gastaram o dinheiro com prostitutas e com vinho”. (Joel 3.3). Triste notícia para nós! 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Redução da Maioridade Penal Um Pauta Sem Reflexão


O assunto da Redução da Maioridade Penal tem sido destaque em todas as mídias sociais e jornais. Ontem presenciamos a primeira batalha dentro do plenário da Câmara que tentava reduzir a maioridade penal para crimes hediondos. Discursos inflamados foram proferidos, principalmente daqueles que defendem a redução, contra outros que de todas as maneiras buscavam demonstrar que essa não é a solução para os problemas da violência do país. Para nossa felicidade os direitos de crianças e adolescentes foram mantidos. Mas, precisamos estar atentos para os próximos movimentos que buscarão retirá-los.

Nesse contexto percebemos uma grande desinformação sobre o Estatuto da Criança e Adolescente e o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE). Creio que uma maior pesquisa na internet esses fatos seriam facilmente esclarecidos. Mas, estamos sofrendo de um mal bastante interessante, não sei se advindo da sociedade atual e sua midiatização ou fruto de um processo de educação falho, que não permite que as pessoas leiam, reflitam e opinem sobre os casos. Não adiante demonstrar estatísticas, estudos de casos ou outros modelos metodológicos que ajudariam na reflexão se a pessoa está condicionada a não refletir a época em que vive e o tecido histórico da formação do nosso povo.

O mais assustador é encontrar representates do povo (deputados) que também não exercem a reflexão crítica sobre os fatos atuais da sociedade. Parece que tomados por um sentimento de vigança, ou de interesses abstrusos, mergulham em falsa defesa do pobre, das vítimas de violência e trazem a ilusão que os problemas do país se resolverão com mais prisões. Colocam em risco a economia de um país, pois não explica de onde virá dinheiro para a construção de mais presídios, como também alimentam um estado de violência futura sem precedentes. Alguém preso aos 16 anos não ficará o resto da vida preso, quando sair de nossos presídios teremos um profissional do crime. A todos esses fatos soma-se a certeza que milhares de adolescentes serão usados pelo mercado assustador da exploração sexual e deixarão de ser atendidos pelos programas de proteção integral da criança e do adolescente.

Todos nós estamos cientes que os investimentos necessários no ECA nunca foram feitos. Milhares de cidades não têm números suficientes de conselhos tutelares e nem mesmo estrutura adequada para o funcionamento dos mesmos. Os atuais abrigos para a ressocialização estão lotados e constantemente recebemos denúncias de maus-tratos e tortura. Não conseguimos monitorar adequadamente se uma criança ou adolescente teve algum dos seus direitos desrespeitados. Mesmo assim, nossos legisladores ao invés de monitorarem essa situação, escolhem punir adolescentes para justificar a incapacidade dos legislativo brasileiro em cumprir sua função de guardião dos direitos do povo brasileiro, em especial das crianças, adolescentes e jovens.  

Por isso, necessitamos nos manter vigilantes e informar a sociedade brasileira que redução não é solução para a violência, mas sim um fator motivador para o aumento da mesma nos próximos anos.


quinta-feira, 18 de junho de 2015

Altos voos (Por Magali Cabral)

Muitos dos tratados internacionais em matéria de meio ambiente devem sua existência à personalidade aguerrida das ONGs. Mas elas também fazem uma autocrítica

Desde a década de 1970, braços dados com a academia científica, as organizações não governamentais têm influenciado as agendas globais a gerar soluções transnacionais de sustentabilidade. “São as ONGs que sempre transformaram o conteúdo científico produzido nas academias em advocacy [militância]”, testemunha a diretora-executiva do World Resources Institute (WRI), Rachel Biderman. Entretanto, ela ressalva: “Não sei se o Terceiro Setor chegou ao limite de um modelo, mas sinto como se o planeta estivesse surdo e não quisesse mais ouvir o que a gente está falando”.

Há 24 anos no movimento ambientalista, Biderman faz um mea-culpa: é difícil alguém se dispor a ouvir quando tem um dedo permanentemente apontado em sua direção. “Quem quer ser acusado de criminoso?”, questiona.

Nos últimos anos, porém, dentro e fora do Brasil, as organizações adquiriram tons intermediários, buscando assumir uma postura mais propositiva. Em uma ponta do leque estão as mais combativas, como o Earth First! Worldwide e o próprio Greenpeace, sempre empenhados em mostrar e denunciar crimes ambientais, até chegar àquelas que estenderam as mãos para cooperar com empresas, governos e instituições multilaterais, caso da The Nature Conservancy (TNC) e do WWF. “É importante que existam todas. As mais radicais mantêm a luz piscando, enquanto as demais juntam as partes nas mesas de negociações”, afirma Biderman.

Nos matizes do meio surgem organizações com características bem definidas, como o Local Governments for Sustainability (Iclei), presente em várias partes do mundo, acreditando poder contribuir muito mais para a governança ao atuar em nível local. O Iclei assessora governos na criação de políticas públicas para a mudança do clima e o combate à poluição. “É um ótimo exemplo de atitude pragmática”, defende Rachel Biderman. “Não adianta só jogar luz no problema, é preciso também dar as mãos e participar ativamente da solução dos problemas.”

Outro papel fundamental das ONGs se desenrola nas grandes convenções das Nações Unidas. Elas são as observadoras da sociedade civil, o que, na avaliação do secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, é um elemento fundamental para assegurar que as decisões tomadas reflitam de fato os anseios dos países lá representados. “Se as ONGs não preenchessem esses espaespaços, a tradução dos processos de tomada de decisão chegaria à sociedade com um viés dos governos”, supõe Rittl. Ou seja, as decisões poderiam não refletir os reais interesses de avanço de determinadas agendas.

MAIS AMBIÇÃO

Para o assessor de políticas públicas do Greenpeace, Pedro Telles, somente a partir da Rio 92 as ONGs alçaram voos verdadeiramente globais com poder de influenciar a governança. A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, representou um marco nesse sentido. “Ali que os movimentos da sociedade civil trouxeram para si a responsabilidade de elevar o nível do debate ambiental no mundo”, afirma Telles.

Talvez as ONGs nem fossem os agentes mais indicados para fazer a costura da governança pelo mundo com governos e empresas. Pedro Telles arrisca que poderia ter sido a própria ONU, com toda a sua influência e capilaridade.

Mas, na opinião de Telles, os quase 200 países-membros preferiram continuar atuando em prol de seus interesses políticos e econômicos particulares. Assim, cabe hoje às não governamentais a importante tarefa – e até aqui bem-sucedida – de trabalhar para elevar sempre mais a ambição do movimento ambiental em todo o mundo.

Outro trabalho ainda dentro dos mecanismos de governança global é o acompanhamento pelas ONGs dos acordos e tratados firmados nas reuniões multilaterais.

Segundo o assessor do Greenpeace, muito poucos segmentos se dispõem a fazer esse trabalho. A mídia, por exemplo, não costuma cobrir o trâmite dos acordos multilaterais. É como se eles deixassem de existir depois de assinados. “São as ONGs e os movimentos sociais que geralmente se responsabilizam por trazer esse tipo de informação para os países.”

Telles também exercita uma autocrítica. Ele crê que as ONGs perdem muita energia, por exemplo, na construção de coalizões que não costumam ir adiante. “Temos muita dificuldade nos processos de construção coletiva, por meio dos quais poderíamos firmar demandas mais fortes. Principalmente em questões urgentes, com prazos apertados, como a mudança do clima”, admite.

O ativismo ambiental obteve uma vitória histórica em janeiro passado em relação aos oceanos. As Nações Unidas cederam à pressão das ONGs e aprovaram um tratado para proteger a vida marinha além das águas territoriais nacionais. O acordo deverá tornar obrigatória a realização de estudos de impacto ambiental antes de atividades humanas também em áreas remotas dos oceanos. Mais aqui.

ENCONTRO NA FLORESTA

Essa deficiência das ONGs detectada por Telles pode estar com os dias contados. A falta de objetividade e mobilização no governo brasileiro em relação ao que se quer levar para a Conferência das Partes (COP 21) em dezembro, na França, possibilitou a um grupo de ONGs, entidades de classe e empresas criar recentemente um consórcio denominado Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.

Segundo Roberto Waack, presidente da Amata e membro do consórcio, o propósito é firmar uma posição para o Brasil em Paris. “Somos o principal país florestal do mundo e todos estão querendo conhecer a nossa agenda. Como essa discussão não tem avançado na esfera governamental, decidimos nós, empresários, sociedade civil e acadêmicos, criar essa coalizão.”

As discussões ainda estão em fase inicial, mas as entidades e empresas que já integram o grupo são muitas e bem diversas. Do Greenpeace à Sociedade Rural Brasileira, representante-mor do agronegócio no País, todos se juntaram na busca de uma proposta comum para o Brasil. Também toparam sentar à mesa Centro Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), Diálogo Florestal, Instituto Ethos, Observatório do Clima, Arapyaú, WWF, TNC, WRI, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Imazon, Imaflora, entre outros.

“Somos apartidários, portanto, se o governo também quiser participar, ótimo. Se não, ótimo também, avisa Roberto Waack. “O Brasil e suas empresas são muito relevantes e a causa é grande demais para ficar esperando.”

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Memórias Póstumas de Urias, o heteu (Benedito Bezerra)

"Esse texto foi escrito por Benedito Bezerra, está no livro Palavra de Deus na palavra dos pobres, reflexões a partir da periferia"

É bem provável que vocês nunca tenham reparado na minha presença em seu livro sagrado, a Bíblia, pois eu apareço lá apenas como um personagem menor na história da vida do (en)grande(cido) rei Davi. Sim, estou falando de uma história que a maioria de vocês conhece bem, localizada em 2 Samuel 11. Quem de vocês prestou atenção no papel de Urias naquela história? As Bíblias que vocês descrevem/prescrevem uma leitura orientada para as coisas “Davi comete um adultério e um homicídio,” “Davi e Bate-Seba”, “Adultério de Davi e morte de Urias” ou “adultério de Davi com Bate-Seba”. Note que somente um desses títulos o meu nome é mencionado. Nada do que fui ou realizei é lembrado, apenas a minha morte. Urias é realmente apenas uma pedra no meio do caminho de Davi.

Por essa razão, resolvi eu mesmo contar a minha história. Como um certo Brás Cubas, personagem da literatura de vocês, estou aqui não como um autor defunto, mas como um defunto autor, pois estou escrevendo já depois da minha morte. Nessa situação, parece que posso compreender melhor o que aconteceu. De toda forma, se vocês acharem que estou errado, não me importo. Afinal, sou apenas um morto.
Mas, como estava dizendo, do meu ponto de vista, é Davi quem entra no meu caminho. Eu estava bastante empenhado na guerra dele, que eu, apesar de ser apenas um estrangeiro, um heteu, tinha assumido como se fosse minha. Estava lutando com toda a minha bravura. Então Davi, que inexplicavelmente não tinha acompanhado seus exércitos para a guerra, conforme o hábito dos reis valentes e honrados, de repente manda me chamar à sua presença. Eu não tinha a menor idéia do que estava acontecendo. Por que o rei queria me ver?

Bem, ali eu estava diante do rei. Ele queria saber sobre Joabe, meu general, e sobre a situação da guerra. Achei estranho ter deixado a batalha para me transformar em uma espécie de informante do rei. Eu era um guerreiro e não um funcionário dos correios. A coisa ficou ainda mais esquisita quando o rei me aconselhou ir para casa e descansar. Acho que aquele era o sonho de tantos companheiros meus que ficaram na frente de batalha. Rever minha esposa: o que poderia ser melhor? Para completar, mal saí do palácio e recebi um presente do rei. Eu estava espantado com tanta gentileza. Não estava entendendo nada.

Mas resolvi não ir para casa, e preferi dormir com os empregados do rei diante do palácio. Quando o rei perguntou a razão disso, respondi que não poderia ir para casa, comer, beber e dormir com a minha mulher enquanto os meus companheiros e, mais do que isso, a Arca do Senhor, Deus de Davi, estavam acampados ao relento. Me impressionou o fato de que Davi parecia não perceber isso, ele que era tão chegado a Deus. Foi como se eu estivesse ensinando ao homem segundo o coração de Deus como devia se comportar diante desse Deus que ele adorava.

O rei ainda estava muito interessado em minha presença. Convidou-me a ficar mais um dia e me chamou para comer e beber. No final do dia, eu estava completamente bêbado. Mesmo assim, ao contrário de todos os bêbados, não procurei o caminho de casa. Novamente dormi ao lado dos empregados de Davi. Eu senti que isso era ser leal ao Deus em quem Davi dizia crer, e ser leal aos meus companheiros que continuavam na guerra.

No dia seguinte, Davi finalmente me enviou de volta à frente de batalha. Mais uma vez servi de mensageiro para Davi, pois levei comigo, por ordem do rei, uma carta para Joabe. Não sei o que estava escrito na carta, pois ela estava lacrada, conforme o costume, mas tenho uma forte sensação de que o conteúdo tem a ver com a minha morte e com a estranha conduta do rei.

O fato é que o voltei com Joabe para a batalha, e fomos para um lugar onde os adversários eram terríveis. Estranhamente, no momento mais difícil, Joabe se afastou de mim e de meus companheiros. Naquele dia, morreram alguns valentes guerreiros de Davi, e entre eles estava eu, Urias, o heteu.

E vocês, que conheceram o resto da história, o que acham dela? Como é que eu, um estrangeiro, que tentava viver minha vida e meus compromissos com honestidade e lealdade, perdi tudo que tinha, a esposa e até a própria vida, por causa dos caprichos pessoais de um rei que deveria andar nos justos caminhos do seu Deus?

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O Direito ao Delírio - Eduardo Galeano


Mesmo que não possamos adivinhar o tempo que virá, temos ao menos o direito de imaginar o que queremos que seja.

As Nações Unidas tem proclamado extensas listas de Direitos Humanos, mas a imensa maioria da humanidade não tem mais que os direitos de: ver, ouvir, calar.

Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar?
Que tal se delirarmos por um momentinho?

Ao fim do milênio vamos fixar os olhos mais para lá da infâmia para adivinhar outro mundo possível.

O ar vai estar limpo de todo veneno que não venha dos medos humanos e das paixões humanas.

As pessoas não serão dirigidas pelo automóvel, nem serão programadas pelo computador, nem serão compradas pelo supermercado, nem serão assistidas pela televisão.

A televisão deixará de ser o membro mais importante da família.

As pessoas trabalharão para viver em lugar de viver para trabalhar.

Se incorporará aos Códigos Penais o delito de estupidez que cometem os que vivem por ter ou ganhar ao invés de viver por viver somente, como canta o pássaro sem saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca.

Em nenhum país serão presos os rapazes que se neguem a cumprir serviço militar, mas sim os que queiram cumprir.

Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida à quantidade de coisas.

Os cozinheiros não pensarão que as lagostas gostam de ser fervidas vivas.

Os historiadores não acreditarão que os países adoram ser invadidos.

O mundo já não estará em guerra contra os pobres, mas sim contra a pobreza.
E a indústria militar não terá outro remédio senão declarar-se quebrada.

A comida não será uma mercadoria nem a comunicação um negócio, porque a comida e a comunicação são direitos humanos.

Ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão.

As crianças de rua não serão tratadas como se fossem lixo, porque não haverá crianças de rua.

As crianças ricas não serão tratadas como se fossem dinheiro, porque não haverá crianças ricas.

A educação não será um privilégio de quem possa pagá-la e a polícia não será a maldição de quem não possa comprá-la.

A justiça e a liberdade, irmãs siamesas, condenadas a viver separadas, voltarão a juntar-se, voltarão a juntar-se bem de perto, costas com costas.

Na Argentina, as loucas da Praça de Maio serão um exemplo de saúde mental, porque elas se negaram a esquecer nos tempos de amnésia obrigatória.

A Santa Madre Igreja corrigirá algumas erratas das tábuas de Moisés, e o sexto mandamento mandará festejar o corpo, a igreja também ditará outro mandamento que Deus havia esquecido: “amaras a natureza da qual fazes parte”.

Serão reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma.

Os desesperados serão esperados e os perdidos serão encontrados, porque eles se desesperaram de tanto esperar e se perderam de tanto procurar.

Seremos compatriotas e contemporâneos de todos os tenham vontade de beleza e vontade de justiça, tenham nascido onde tenham nascido e tenham vivido quando tenham vivido, sem se importarem nem um pouquinho com as fronteiras do mapa e ou do tempo.

Seremos imperfeitos porque a perfeição continuará sendo um chato privilégio dos Deuses.

Neste mundo trapalhão, seremos capazes de viver cada dia como se fosse o primeiro e cada noite como se fosse a última.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Sobre Abutres e Cigarras


Os abutres são animais interessantes. Quando eles percebem o cadáver caído ao chão, se reúnem em grupo e começam uma guerra sangrenta pelo alimento. A agressividade é determinada pelo o grau de fome de cada animal. Quanto mais faminto, mais agressivo ele se torna. Eles não se entendem entre si, e os mais fortes acabam dominando os mais fracos. No final, estabelecida à dominação e possessão da presa, juntos desfrutam alegremente os restos mortais do ex-vivente. Os abutres não atacam presas que ainda parecem estar vivas. Eles esperam que outros façam o trabalham sujo por eles.
Os abutres estão presentes na política brasileira. Eles estão nas sacadas das janelas dos seus apartamentos luxuosos. Não interferem diretamente no ataque à presa, preferem se esconder. São “éticos” o bastante e mesmo que tenham contribuído no assassinato da presa, dirão que foi apenas as circunstâncias do tempo. Os abutres da política brasileira são capazes de caminhar pelo fim da corrupção, mesmo que tenham sido processados por serem os maiores propineiros do país. Os abutres são cínicos, pois desviam recursos para alimentar os seus egos e fazem outros acreditarem em suas almas honestas. A fórmula é fácil, diga uma mentira várias vezes e outros acabarão acreditando que é verdade. O mais constrangedor é que tem pessoas que se alegram em caminhar lado a lado dos abutres, não sabendo que cavam suas próprias covas.
Entretanto, há uma coisa que os abutres da política brasileira não enxergam bem: as presas que eles imaginam estarem mortas, na verdade têm uma grande capacidade de ressureição. Como latinos americanos somos como cigarras, como bem lembrou a María Elena Walsh, na canção eternizada na voz de Mercedes Sosa: “Tantas vezes me mataram, tantas vezes eu morri, no entanto, eu estou aqui, ressuscitando. Agradeço à desgraça e à mão com punhal, porque me matou tão mal e continuei cantando”.

Diante do visto nos últimos dias, celebração pela democracia construída, mas olhares atentos aos abutres de plantão. O recado está sendo dado: “Este povo não se afoga com marés” (Este pueblo no se ahoga com marullo).

domingo, 15 de março de 2015

15 de Março - Avaliações


Passados os momentos finais das manifestações desse domingo (15) é hora de fazermos as avaliações. Não me permitirei a fazer piadas desse momento, pois conheço alguns dos manifestantes e tenho consciência do espírito democrático deles. Não farei observações sobre classes participantes nesse momento. Deixo para outro dia.

Primeiramente, vamos aos números concretos. Houve em várias cidades brasileiras focos de manifestações. Alguns lugares com mais pessoas, outros com menos. O caso emblemático é São Paulo. Não havia 1 milhão de pessoas, mesmo com todo aparato do governo estadual a disposição e a força de meios de comunicação. Mas, segundo o instituto DataFolha participaram do momento 210 mil pessoas. Um número bastante relevante e expressivo. Em Fortaleza fiquemos com os números de 15 mil pessoas.

Segundo, não podemos negar um interesse clássico dos canais de comunicação por esse momento. Nunca um ato foi tão divulgado, coberto e analisado em tempo real pelos meios de comunicação, diga-se de passagem, a Rede Globo. Havia um interesse aberto em demonstrar toda a irritação dos manifestantes com o Governo Dilma.

A resposta do governo veio à noite. Entretanto, o que percebemos foi frustrante. Ministros despreparados para uma situação como a que se apresentou. Não foram firmes em suas respostas e não souberam passar com convicção quais são as ações do governo daqui para frente.

Diante de tudo isso, Dilma continuará sendo presidenta. Foi eleita democraticamente pela maioria dos eleitores. Não há espaços para golpes ou aventuras burguesas. Entretanto precisará mudar. Percebemos que fazer às coisas a maneira da “direita” não agrada. Tenho uma sugestão para a presidenta: Convide cada liderança responsável por esses atos no Brasil e solicite a pauta deles. Diálogo é fundamente nesse processo.

Outra sugestão, vamos fazer a reforma política completa. Somente dessa maneira teremos condições de diminuir a corrupção no país, que para a frustração de muitos não é uma invenção do PT. Finalmente, é hora da regulamentação da mídia. Não podemos aceitar que meios de comunicação, cujo seus donos estão envolvidos em casos de desvio de dinheiro, se prezem a ditar as regras políticas desse país. É necessário dar uma basta nisso!

Para Dilma todo apoio necessário nesse momento. Aqueles que votaram nela, e os brasileiros que se preocupam com este país, desejam um governo de muito sucesso. Se o governo vai bem, o povo também irá. Por isso, vamos realizar as transformações que ainda falta do nosso jeito, dentro dos princípios da esquerda. Nesse ponto, você poderá contar com o apoio irrestrito de todos nós.


*Sobre cartazes com pedidos de intervenção militar, críticas a Paulo Freire, comunismo... lamento que estas pessoas tenham atrapalhado o ato.

Como Lutar Pela Democracia?

Nos dias que antecederiam o afastamento da Presidenta Dilma Roussef de suas funções no Governo Federal, recordo que fomos até a Avenida...