quinta-feira, 8 de maio de 2014

Decidirá Com Retidão Em Favor Dos Humildes Do País

Foto: Jornal O Povo na Manifestação Pela Liberação das Carteiras de Estudantes em Fortaleza

Nos últimos dias temos presenciado situações de extrema violência. Não que elas fossem alguma novidade em nossa sociedade, mas quando as percebo não consigo ficar inerte diante dessas ações que revelam o lado mais cruel da humanidade. São linchamentos públicos, violências policiais contra estudantes, opressão contra os empobrecidos e os trágicos assassinatos de nossas juventudes.

Aprendi com o mestre Croatto que a violência é sempre uma manifestação de poder e se desencadeia pelo egoístico desejo de “ser/ter/poder” mais que o outro, que se converte em seu receptor e no prejudicado real. Para ele existem cinco expressões de violência, sendo que a primeira delas é aquela que rompe o equilíbrio das nossas relações justas e normais da sociedade. É perversa por gerar injustiças por um lado, e respostas violentas, pelo outro. É aquela que é produto do “abuso do poder”, gerando estados de injustiça e de desordem nas relações sociais. Em outras palavras, é quando o poder que visa proteger o fraco se perverte em violência contra ele, gerando injustiças, desproteção, impunidade e carências. Os profetas de Israel condenam veemente a corrupção do poder que gera injustiça e pobreza: “Não sabem viver com honestidade – oráculo de Javé – aqueles que em seus palácios entesouram violência e opressão”. (Amos 3.10)

Diante desse cenário surge outra expressão da violência, aquela que é resposta e rejeição. Se a primeira é gerada no egoísmo, a segunda é originária no amor ou ao menos no direito de legítima defesa. É um ataque a “injustiça da justiça”. É quando os profetas criticam os ricos e os poderosos que oprimem os fracos (Is 1,10; Am 2,6; 4,1; Jr 7, 5-6), e estes simplesmente condenam suas palavras proféticas. Quando o pobre e violentado procura aqueles que têm por função exercer a justiça em favor dos desvalidos, objeto da violência opressora dos poderosos, mas não encontram espaço para suas queixas, acontece essa segunda violência que chamamos de justiça pervertida. “Os seus chefes são bandidos, cúmplices de ladrões: todos eles gostam de suborno, correm atrás de presentes; não faz justiça ao órfão, e a causa da viúva nem chega até eles” (Isaías 1,23).

A terceira violência chamamos de “repressão ao profeta”. Os autores da primeira e segunda violência (opressão dos poderosos e a justiça pervertida) começam a se incomodar com as palavras dos profetas. Suas atitudes revelam que desejam que se calem as vozes que clamam por justiça, como quando o profeta Amasias reprime Amós, dizendo-lhe: “Vai, foge para o país de Judá” (7,12) ou então: “Não profetizeis contra Israel e não fales contra a casa de Isaac” (v.16). Croatto conclui: “Nas histórias de Jeremias e Amós vê-se bem a sequencia: a violência da opressão econômica e social, longe de ser suprimida pela prática da justiça, é agravada pela violência antí-salvífica dos juízes e seus colaboradores; o profeta sai a campo em defesa dos oprimidos, mas é reprimido por aqueles que deveriam usar o poder para restabelecer a justiça incialmente ferida”.

Diante das respostas violentas surge um processo de libertação. Se esse processo é violento é porque não existem mais alternativas pacíficas, é a expressão do direito que cabe aos oprimidos de lutarem pela vida e pela justiça. “É bem diferente o sinal desta violência do oprimido, quando necessária, sem alternativas, daquela violência do opressor ou do juiz que perverte a justiça”. E por fim, a última violência diz respeito à repressão a esses processos de libertação. A repressão pode acontecer pelas vias políticas, militares e econômicas, pretendendo aniquilar totalmente o “inimigo” e ainda vem acompanhada por forte componente ideológico que criminaliza os movimentos que lutam por justiça, pregando uma falsa “paz”: “Eles dizem aos que desprezam Javé: Vocês terão paz. E aos que seguem seu próprio coração obstinado dizem: O mal nunca atingirá vocês”.


O que experimentamos nesses dias pode ser resumido nessas realidades bíblicas vivenciadas pelos profetas e tão sabiamente compartilhadas por Croatto. As formas de violência se reduzem ao binômio “opressão-libertação”. Sempre que o nosso povo buscar por libertação, o opressor se levantará ferozmente para aniquilar qualquer forma de luta, e para isso usará os seus meios mais violentos e sangrentos.  Mas, também tentará cooptar os mais desatentos para a vivência de uma falsa justiça e paz. Para todas essas formas de violência a nossa resistência teimosa deve-se manter na certeza de que: “Julgará os pobres com retidão e decidirá com retidão em favor dos humildes do país” (Is 11,4a). 

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