sábado, 1 de março de 2014

Duas Decisões Importantes


Nos reunimos nessa sexta-feira para tomarmos decisões importantes. Essa geralmente é nossa rotina e dever como líderes da igreja, zelar pelo testemunho puro da comunidade e o cumprimento de sua “santa doutrina”. Eis as questões: tínhamos um terreno e um asilo pediu para utilizar, pois não existia um lugar que eles pudessem ocupar no momento. A outra questão era que, duas irmãs idôneas tinham visto uma moça da igreja sair de um motel.


Primeiro decidirmos sobre o nosso caso administrativo. Tínhamos duas opções: doar o terreno ou emprestá-lo. Aliás, terreno que em vinte anos nunca foi utilizado para nada. A primeira reação foi uma grande indignação porque não organizamos naquele lugar um ponto de pregação em todo esse tempo. Superada essa barreira, veio o que mais me surpreendeu. A minha opinião que doássemos o terreno e fizéssemos um projeto que pudesse ajudar essa instituição foi rebatida com outra opinião, defendida com unhas e dentes por alguns. A ideia deles era que emprestássemos o terreno por um período e que tivéssemos alguém da nossa igreja na diretoria desse asilo. Meu discurso foi tido como filosófico, bonito e utópico, algo fora da realidade.

A minha opinião, primeiramente baseava-se em uma questão de ética e responsabilidade: não podemos fazer algo que não sabemos fazer. Falo da questão da diretoria, o asilo tinha uma diretoria que estava fazendo seu trabalho corretamente, não posso simplesmente chegar e invadir seu espaço. Segundo, nossas igrejas têm algo que gostaria de classificar como “mania do poder”. Achamos que para servir temos que estar no controle de tudo. Nossos pastores e líderes já não acompanham o crescimento de suas ovelhas, ovelhas que como crianças deveriam ser nutridas pelo puro leite espiritual para cresceram, mas o que elas têm recebido as torna em eternas crianças que nunca crescem (I Pe. 2,9). Desejamos controlar todos que estão ao nosso lado, pois fora de nós não salvação e nem outra verdade. Nós somos a verdade!

Fui acusado de pregar um evangelho que não busca a salvação da alma do homem, mas que se resume a ação social, ou um marxismo disfarçado de teologia da libertação. Entretanto, o que eu gostaria era viver um evangelho não somente em palavras, mas procurar trazer sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em meu corpo (II Co 4,10). O meu Senhor Jesus deixou-me claro que o reino de Deus é dos pobres, daqueles que buscam a justiça (Mt 5,1-11, Lc 6,20). Que eu deveria anunciar as boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos. Aprendi com Ele que bem-aventurado é aquele que dar sem esperar nada em troca, é doar àqueles que não podem retribuir. (Lc 14,14).

Sobre a igreja faço minhas as palavras de Frederico Stein: “Não gosto do título de “sacerdote”, que lembra o culto do templo de Jerusalém e de todos os cultos das religiões pagãs da antiguidade. [...] Talvez seja melhor acabar com todo tipo de enfeite especial, tanto para homens quanto para mulheres a serviço das comunidades.” E sonho juntamente com José Luiz Cortés: “A igreja que eu quero não tem sinos: as pombas se encarregam de avisar o povo. [...] Claro que nesta igreja haverá também um papa! Mas um papa caseiro, com chinelos de lã, mais pai do que papa, mais santo do que o Santíssimo. E se ele se pode chamar José, ninguém deverá chamá-lo de ‘pio’ [...]. Minha igreja não se enfeita, nem anda com objetos de ouro; tem humor, conta piadas [...]. Eu sempre penso que, se tirarmos a roupa de qualquer pessoa, suas jóias e seus títulos, ficará muito pouquinho, mas bom e autêntico.”

Ah, quase esquecia. Temos o segundo caso, a jovem no motel. Não é muito importante, não se trata de um terreno nem de bens. A nossa decisão foi rápida. “Pastor, verifique se foi verdade e aplique o código disciplinar da igreja”.

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