terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Lança o Teu Pão Sobre as Águas

Um dia desses saí para visitar uma senhora que faz parte de nossa comunidade. Sem nenhuma intenção recebi um dos maiores ensinamentos de minha vida. Lembro-me quando cheguei a sua casa a recepção foi maravilhosa, fui acolhido como se acolhem os anjos. Uma casa simples, de dois pequenos vãos, mas de uma simplicidade e organização exuberantes.

Ela me convidou até o lugar onde ficava a cozinha e pegou um único pão e começou a esquentá-lo. Fiquei preocupado de estar tirando dela a única alimentação daquela noite, pois éramos três visitantes. Meio constrangido disse que não gostaria de comer nada, estava satisfeito. Entretanto, ela insistiu que eu me alimentasse. Acho que ela estava entendendo o que se passava na minha cabeça, então olhou para mim e comentou: “Pastor, lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás”.

Aquela palavra foi impactante. Senti que uma faca de dois gumes atravessava o meu coração e chocava-se com a minha pouca fé. Fé que na vida daquela senhora era vivida com a certeza de receber tudo aquilo que necessitava para estar ali, mesmo que não estivesse vendo absolutamente nada acontecer.

Saí da casa daquela senhora com a frase ecoando em minha mente: “Pastor, lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás”. Quando cheguei em casa, logo fui procurar o texto de referência. Tratava-se de Eclesiastes 11,1. O texto aborda a maneira prudente como devemos conduzir a nossa vida. Mas, o interessante é que a maneira prudente de se conduzir a vida é vivê-la com fé. É lançar-se na incrível experiência de não ficar estacionado em meio as incertezas do tempo, mas trabalhar certo que dias melhores virão. É a incrível experiência de não ficar observando o vento ou as nuvens, esperando para semear somente quando a chuva cair, mas semear sem ver nuvens e ventos com a certeza que no tempo determinado ela virá.

Na verdade ainda estou aprendendo a lançar o meu pão sobre ás águas. A minha fé ainda é muito pequena se comparada a dessa senhora. Às vezes me pergunto: se eu lançar o meu pão sobre as águas, o que comerei? Mas, sei que tudo o que necessito é lançar-se, porque o melhor investimento que posso fazer é acreditar, é investir em minha fé, algo que ninguém pode tirar de mim. É investir na certeza que o trabalho que faço hoje, quem melhor pode me recompensar é aquele que me alistou para essa boa obra.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Memória: Natal, Simplicidade, Justiça e Doação


Alguns filósofos diziam que toda a vida é fundada e garantida na memória. A memória tratada por eles é aquela em que há consciência, aquela que, ao recordar, sabe que recorda, sabe que tal fato se deu no passado, e que ele faz parte de sua experiência passada. Os tempos de Natal são tempos de trazer a memória algo que não apenas faz parte do nosso passado como cristãos, mas também determina nossa existência atual. Dias atrás, enquanto estávamos vivendo os tempos do Advento aprendemos que necessitamos estar com os corações disponíveis para receber o Deus que se disponibilizou a viver em nosso meio.
Tornou-se natural  ano após ano surgirem reflexões acerca do Natal condenando o espírito mercadológico do mesmo. Que esse se transformou numa intensa troca de mercadorias, esquecendo-se do sentindo original da festa e alguns momentos do próprio aniversariante. Entretanto, essa crítica sempre foi alimentada por alguns que se diziam fiéis aos princípios evangélicos, mas  que permaneciam com práticas legalistas, violentas e desumanizadas. Tais práticas permearam nosso ano, tornando notória a grande diferença entre os ensinamentos de Cristo e os seus ditos seguidores. Nesse ponto, a ideologia agressiva do mercado pouca se diferenciava da teologia da morte de alguns.
Como cristãos devemos nesse Natal aproveitar essa oportunidade e refletirmos sobre nossa caminhada. Não é bom que o Senhor da Seara nos encontrem como encontrou aqueles fariseus em seu tempo: Como homens e mulheres que não entram no Reino dos Céus, mas também não deixem que entrem aqueles que estão querendo entrar. Pessoas que buscam de toda a maneira converter alguém a sua religião, mas quando conseguem tornam essa pessoa duas vezes mais merecedora do inferno do que eles. Não podemos continuar limpando o exterior, quando o nosso interior é marcado pela violência e a ganância.
Como tempo de trazer a memória nossa história, jamais podemos esquecer que nossas raízes estão plantadas no campo da simplicidade, da justiça e da doação. Que nossas expectativas não atendem as expectativas daqueles que perpetuam injustiças, sejam eles sacerdotes, políticos ou reis. Que nossa lógica de vida é baseada na doação e na encarnação, em fazer-se presente onde está o pobre, necessitado e enfermo. Que necessitamos estar abertos ao Mistério, como Maria estava, e “cheio de graça”, corajosamente suplicarmos a intervenção de Deus para “derrubar os poderosos de seu trono e para encher de bens os famintos”.
Quero trazer a memória aquilo que me pode dar esperança”, portanto o nascimento de Jesus faz meu coração regozijar-se de alegria. Porque em meio aos caos, “num determinado momento da história, o Espírito Santo veio sobre Maria e armou sua tenda nela, isso quer dizer, veio, não foi embora e ficou permanentemente nela. Quis morar com ela definitivamente e fazer-se um com ela. E Maria disse: “que assim seja”. (Leonardo Boff em referência a Lucas 1). Que na noite da de Natal, compreendendo nossa história, resgatando nossa memória, possamos dizer ao Altíssimo que deseja habitar em nós: “que assim seja”. E assim compreender finalmente que justo é aquele que: “põe a sua força a serviço do direito, e dos direitos, decretando nele a igualdade de todo homem com todo outro” (Sponville).   

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Uma Voz Se Ouviu em Belém


“Uma voz se ouviu em Belém, o gemido de muito choro amargo. Ana chorando os seus filhos, recusando ser consolada quanto os seus filhos, porque eles não mais existem”. (adaptação Jeremias 22.15).

Estamos perplexos diante das notícias que nos chegam de Belém. Onde a violência ceifou durante uma noite a vida de adolescentes e jovens. Onde a fúria por vingança, o desejo pela morte, mais uma vez feriu a vida daqueles que sempre sobreviveram à margem de nossa sociedade, presos a um triste ciclo vicioso de negação de uma vida com dignidade.

O choro das mães de Belém chega-nos perturbador em nossos corações, e com força arrasadora nos envolve com um misto de sentimentos de dor e impotência. E mais uma vez igualmente a elas, nos recusamos a sermos consolados, pois nos recusamos a acreditar que a morte é o único caminho para nossas juventudes negras, empobrecidas e violentadas.

O mais perturbador é que a violência vem daqueles que deveriam promover e proteger as vidas. Não podemos aceitar que algumas pessoas determinem que outros podem ou não viver. É inadmissível aceitar a violência como resposta a outras violências vividas que foram geradas graças a um sistema opressor que beneficia aquele tem mais poder e recursos econômicos.

Como seguidores do evangelho, a nossa voz tem que ser ativa e profética: “Ai daqueles que fazem leis injustas, que escrevem decretos opressores, para privar os pobres dos seus direitos e da justiça os oprimidos do meu povo, fazendo das viúvas sua presa e roubando dos órfãos”. (Isaías 10,1-2). Em nosso meio, não apenas em Belém, mas também em Fortaleza, Rio de Janeiro, Salvador e tantas outras regiões, não roubam apenas bens materiais de nossos órfãos, roubam na verdade suas próprias vidas.

Enquanto choramos com as mães de Belém, temos que lutar pela aprovação de leis mais justas. Decretar o fim dos Autos de Resistência, pois só servem para matar jovem negro e pobre da periferia, negando-lhe os seus direitos básicos de justiça. Desmilitarizar a Polícia, tornando-a uma instituição mais próxima dos cidadãos e não apenas um órgão de repressão do estado. Desmilitarizar a polícia é também oferecer dignidade para quem faz parte dessa instituição, pois aqueles que trabalham com sentimento de humanidade e solidariedade poderão exercer suas funções com maior honradez.

Somos convidados a exercer essa tarefa em nome da justiça e do amor. A não se conformar com essas situações. Não ser complacentes com a morte e a violência. A chorar com essas mães e buscar os meios para que essa triste realidade não se repita. É nosso dever, é nossa missão!


A luta Continua...

domingo, 26 de outubro de 2014

Superar e Integrar


Que meses inesquecíveis! Que dias intensos e polêmicos! Hoje, quando enfim termina o processo eleitoral desejam colocar em nossos corações um sentimento de divisão. Entretanto, o único cabível nesse momento é de celebração. Vivemos em uma democracia das mais novas e brilhantes do mundo.

Nesses três meses discutimos projetos políticos. Vimos temas ambientais sendo colocado em pauta. Dissemos que não estamos felizes com os casos de corrupção. Percebemos que eleições são ganhas no corpo a corpo, no debate constante com os eleitores. Que currais eleitorais estão perdendo a sua força. Vimos que o povo em nome dos projetos que escolheram vão as ruas lutarem por eles, sejam petistas ou tucanos.

Escolhemos entre dois projetos políticos de governança. Nessa escolha, parte de país votou de uma maneira, a outra discordou. No final das contas, tivemos um resultado bastante apertado. É hora de como cidadãos aprendermos com isso. Como nordestino a lição que tiro nessa noite é que precisamos entender porque São Paulo fez uma escolha por um projeto diferente do nosso. O que foi que deu certo em São Paulo que permitiu a reeleição de Alckim e a votação expressiva do Aécio Neves. Os paulistas também precisam buscar compreender a escolha dos nordestinos. Ela não é fruto de uma desinformação política. Ao contrário, os nordestinos votaram como votaram porque veem no atual governo benefícios para a sua região. O povo nordestino é um povo marcado na luta política e por justiça social.

Enfim, proponho que ao invés de alimentarmos preconceitos e discursos de ódio, possamos realizar grandes assembleias de escuta. Um diálogo intenso e troca de experiências entre nordestinos e paulistas. Precisamos superar esse momento, mas levando em conta aquele conceito de Hegel que diz: “O que é superado deve ser conservado. Superar não é esquecer e nem destruir. É integrar”. Que possamos integrar nossas sabedorias, vivencias e conhecimentos na construção de uma país cada vez mais forte.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Não Nos É Permitido Retroceder


Temos um desafio como lideranças comunitárias: Manter vivo em nós a chama ardente pela transformação social. Em outros termos, não se deixar levar pelo discurso da descrença, do falso moralismo ou mesmo da apatia induzida. Aqueles, que desejam que não acreditemos que podemos incidir politicamente em diversas áreas, buscam preencher esses espaços abandonados por nós com suas técnicas não muito éticas. Desde cedo aprendemos que “se não participamos, alguém participa em nosso lugar, e participando poderá decidir contra nós”.

O que temos visto nos últimos dias poderia contribuir para aumentar a descrença na política brasileira. Fazendo uma avaliação rápida do processo eleitoral, percebemos que muitos dos candidatos que hoje disputam o poder, se perdem em um emaranhado de acusações que só se realizam porque encontra um público atento a esse tipo de tática eleitoral, mas displicente quanto as reais propostas de governança para esse país.

Para nós que estamos diariamente no campo de batalha das lutas pelos direitos de crianças, adolescentes, jovens e idosos não nos é permitido retroceder ou mesmo desanimar. Um erro poderia culminar com menos investimentos nessas áreas prioritárias e até mesmo com a retirada de direitos conquistados com vários anos de luta. Não desejamos que isso venha acontecer, por isso temos como responsabilidade pautar esses temas, sendo a voz de milhares de pessoas que ainda não foram escutadas.

Como agentes comunitários de desenvolvimento social nossas reflexões políticas devem partir do lugar onde estiver o pobre, oprimido e violentado. É desse lugar que se deve escutar nosso grito por justiça e nossa voz de denúncia. É a partir desse lugar e em nome desse povo que devemos pautar nossas decisões políticas. Se como lideranças somos apáticos e alimentamos o discurso da descrença na política, estamos contribuindo para que as situações de injustiças existentes em nossas comunidades não venham a se modificar.

Finalmente, que nos apresentemos como povo presente para as batalhas que ainda não foram vencidas e não como meros expectadores dos discursos que retiram o foco dos mais necessitados. 

domingo, 28 de setembro de 2014

Se eu tiver filhos gays: Quatro promessas de um pastor cristão e pai

Há um bom tempo buscava escrever uma opinião sobre essa pergunta. Encontrei esses dias no site abaixo e resolvi publicá-la. Uma opinião coerente de um pai amoroso.
O texto é do Pr. John Pavlovitz, da Carolina do Norte, que fez quatro promessas a seus filhos caso um dia eles "saiam do armário".
"Às vezes eu penso se terei filhos gays.
Eu não sei se outros pais pensam sobre isso. Mas eu penso. Muito frequentemente.
Talvez seja porque eu tenha muitos gays na minha família e círculo de amigos. Está em meus genes e em minha tribo.
Talvez seja porque, como pastor de estudantes, eu tenha visto e ouvido as histórias de horror de crianças cristãs e gays, dentro e fora do armário, tentando fazer parte da igreja.
Talvez porque, como cristão, eu interaja com tantas pessoas que acham a homossexualidade a coisa mais repulsiva de se imaginar e que fazem questão de deixar isso abundantemente claro a cada oportunidade.
Qualquer que seja a razão, eu penso nisso frequentemente. Como pastor e como pai eu quero fazer algumas promessas a você e aos meus dois filhos.
1) Se eu tiver filhos gays, todos vocês saberão disso.
Minhas crianças não serão nosso mais bem guardado segredo familiar.
Eu não vou desconversar com estranhos. Eu não vou falar em linguagem vaga. Eu não tentarei colocar um venda nos olhos de todos e eu não pouparei as emoções dos mais velhos, ou dos que se ofendem facilmente ou dos desconfortáveis. A infância já é difícil o suficiente e a maioria dos gays passam sua existência se sentindo horríveis, excruciantemente desconfortáveis. Eu não colocarei os meus filhos em mais desconforto desnecessário só para fazer o jantar de Ação de Graças mais fácil para um primo de terceiro grau rancoroso.
Se meus filhos saírem do armário, sairemos do armário como família.
Pastor John Pavlovitz
Pastor John Pavlovitz
2) Se eu tiver filhos gays, eu orarei por eles.
Eu não orarei para que eles sejam “normais”. Já vivi o suficiente para saber que, se meus filhos forem gays, este é o normal deles.
Eu não orarei para Deus curá-los ou consertá-los. Vou orar para que Deus os proteja da ignorância, do ódio e da violência que o mundo despejará sobre eles simplesmente por eles serem quem são. Vou orar para que Deus lhes coloque um escudo de proteção contra aqueles que os desprezam e querem machucá-los, que os amaldiçoam ao inferno e que os colocam como condenados sem nem mesmo conhecê-los. Eu orarei para que eles apreciem a vida, o sonho, que sintam, que perdoem e amem a Deus e a humanidade.
Acima de tudo, orarei para que meus filhos não recebam o tratamento nada cristão de suas ovelhas mal guiadas a ponto de afastá-los de seus caminhos.
3) Se eu tiver filhos gays, eu os amarei.
Não estou falando de um amor distante, tolerante e cheio de reservas. Será um amor extravagante, de coração aberto, sem desculpas. Aquele tipo de amor que constrange na porta da escola.
Eu não vou amá-los apesar de sua sexualidade nem vou amá-los por causa dela. Vou amá-los simplesmente por serem quem eles são: doces, engraçados, carinhosos, inteligentes, legais, teimosos, originais, lindos e… meus.
Se meus filhos forem gays, eles poderão ter milhões e milhões de dúvidas sobre si mesmos, sobre o mundo, mas nunca terão um segundo de dúvida sobre o amor que o pai deles sente por eles.
4) Se eu tiver filhos gays, basicamente, terei filhos gays
Se meus filhos forem gays – e eles já são bem gays… [gay em inglês significa, antes de tudo, alegre] Bem, isso quer dizer que Deus já os criou e os moldou e colocou neles a semente de quem eles são dentro deles. O Salmo 139 diz que Ele “os costurou no útero de sua mãe”. Para mim isso quer dizer que as incríveis e intricadas coisas que os fazem almas únicas na história foi colocado em suas células.
Por isso, não há um “deadline” para a sexualidade deles pela qual eu e sua mãe estejamos orando fervorosamente. Eu não acredito que haja alguma data de expiração mágica se aproximando quando eles “se tornarão héteros”.
O que há hoje é uma simples e jovem versão de quem eles serão; e hoje eles são incríveis.
Muitos de vocês podem se ofender com tudo isso. Eu percebo totalmente. Eu sei que isso deve ser especialmente verdade se você é uma pessoa religiosa, que acha esse tópico totalmente nojento.
Conforme vocês foram lendo isso, podem ter revirado os olhos ou selecionado trechos das escrituras para enviar ou orado para que eu me arrependa ou se preparado para deixarem de ser meus amigos ou me chamado de pecador, mau, herege condenado ao inferno… Mas da forma mais gentil e compreensiva que eu possa ser, digo uma coisa: não dou a mínima.
Isto não diz respeito a você. Isto é muito maior que você.
Você não é a pessoa que eu esperei ansiosamente por nove meses. Você não é a pessoa pela qual eu chorei de alegria quando nasceu. Você não é a pessoa a quem dei banho, alimentei, balancei para dormir durante as noites. Você não é a pessoa a quem eu ensinei a andar de bicicleta e cujo joelho esfolado eu beijei ou cuja mão eu segurei enquanto levava pontos. Você não é a pessoa cuja cabeça eu amo cheirar, cujo rosto ilumina quando eu chego em casa à noite e cuja risada soa como música para minha alma.
Você não é a pessoa que diariamente me dá significado e propósito e que eu adoro mais do que jamais imaginei adorar algo. E você não é a pessoa com quem eu espero estar quando der meus últimos suspiros neste planeta, olhando para trás agradecido por uma vida de tesouros compartilhados, sabendo que eu te amei da maneira certa.
Se você é pai, eu não sei como você responderá caso seus filhos sejam gays, mas eu oro para que você considere isso.
Um dia, a despeito de suas percepções sobre seus filhos ou de como foi sua paternidade, você talvez tenha que responder para uma criança assustada e ferida, cujo sentido de paz, identidade, aceitação, na verdade seu próprio coração, serão colocados em suas mãos de uma maniera que você nunca imaginou. E você terá de responder a isso.
Se este dia chegar para mim, se meus filhos saírem do armário para mim, este é o pai que eu espero ser para eles.
* Nota do autor: A palavra “gay” usada neste post se refere a qualquer um que se identifique como LGBT. Embora em conheça e respeite as distinções e diferenças, escolhi esta palavra porque ela é a mais simples e facilmente comunicável para o contexto deste artigo. Foi a maneira mais clara de me referir aos indivíduos não heterossexuais, usando uma palavra comum que ressoaria facilmente para o leitor comum.
Fonte: http://www.ladobi.com/2014/09/se-eu-tiver-filhos-gays/

sábado, 13 de setembro de 2014

Uma Pedagogia Para Saírmos da Apatia?


Vivemos nesses temos uma verdadeira crise de representação. Essa crise não perpassa apenas os modelos políticos partidários, mas também está imbuída em nossos movimentos sociais. Não é difícil encontrar pessoas que estão desiludidas com o trabalho comunitário na base ou mesmo financiadores que não mais acreditam que instituições possam promover as transformações sociais necessárias em determinadas regiões.

Dentro desse contexto uma apatia generalizada invade nossa sociedade. É a descrença que algo realmente possa vir acontecer e acabar com as injustiças existentes e propor um novo modelo de vivência. Levando em consideração esses pontos uma questão nos parece fundamental: O que mantém certos movimentos atuantes e cheios de credibilidade perante a sociedade?

Para responder essa questão precisei recorrer à vivência de minha fé, certo que ainda não tenho todas as respostas e talvez nunca as encontre. Para mim, Jesus Cristo é um paradigma de atuação social exemplar. Não somente pelas palavras ditas por Ele, mas pela vivência prática daquilo que Ele acreditava. Independente do seu pensamento sobre Jesus é indiscutível a sua presença em nossa sociedade na força de suas ideias.

No mundo teológico costumamos usar a expressão que Jesus encarnou a sua missão. Ele usa uma nova pedagogia que faz o povo crescer, segundo palavras do Frei Carlos Mesters: “Ele tem um novo jeito de se relacionar com as pessoas e de ensinar as coisas: Dá atenção às pessoas sem fazer distinção (Mt 22,16); ensina em qualquer lugar, acolhe a todos como ouvintes e permite que mulheres o sigam como discípulas (Lc 8,1-3; Mc 15,41); usa linguagem simples em forma de parábolas; reflete a partir dos fatos da vida (Lc 21,1-4; 13,1-5; Mt 6,26); confronta os discípulos com os problemas do povo (Mc 6,37); ensina com autoridade sem citar “autoridades” (Mc 1,22); apresenta crianças como professores de adultos (Mt 18,3); sendo livre, comunica liberdade aos que cercam (Jo 8,32-36), e estes, por sua vez, criam coragem para transgredir tradições caducas (Mt 12,1-8). Jesus vive o que ensina; passa noites em oração (Lc 5,16; 6,12; 9,18.28; 22,41) e suscita nos outros a vontade de rezar (Lc 11,1).

 Viver aquilo que se acredita é a base fundamental de qualquer ideia ou movimento. O que percebemos hoje um dia é um distanciamento do discurso e da prática. Discursos podem animar por instante, mas a prática ficará presente para sempre na memória daqueles que a vivenciaram. Não posso falar de comunidade se não sou comunidade, pois é a partir das nossas próprias dores e alegrias que tecemos o futuro que desejamos. Para nos mantermos como movimentos sociais atuantes e imbuídos de credibilidade perante a sociedade precisamos refazer o caminho sugerido por Jesus nos textos acima citados.


Poderíamos escrever sobre cada observação feita pelo Carlos Mesters sobre a pedagogia de Jesus e assim sistematizar um modelo de atuação que pudesse nos tirar dessa apatia. Entretanto, seriam as minhas observações a partir dos movimentos da qual faço parte. Por isso, convido-os a realizarem uma reflexão a partir de nossa indagação inicial (O que mantém certos movimentos atuantes e cheios de credibilidade perante a sociedade?), relacionando com o texto de Mesters e a prática de Jesus. Que essas reflexões animem seus corações!

domingo, 27 de julho de 2014

Palestina e Israel, Lutar Pela Vida É Necessário

Nos últimos dias o conflito entre israelenses e palestinos tem causado comoção mundial. Milhares de pessoas, maioria palestina, estão sofrendo as consequências de ataques sangrentos sem o mínimo de respeito à vida humana. Divergências fora do mundo palestino têm se desenvolvido, principalmente na hora de defender algum envolvido no conflito.

Tenho sido questionado várias vezes por acusar Israel de cometer um genocídio ético na região. As acusações perpassam a ideia que não tenho visto o ponto de vista de Israel e sua necessidade de defender-se dos foguetes palestinos, como também de me comportar como um árduo defensor do terrorismo, sendo assim também comunista e todos os conceitos ideológicos que tenham alguma relação com a esquerda política.

Nessas próximas linhas apresentarei o meu ponto de vista sobre o atual panorama, baseado em alguns questionamentos levantados. O primeiro deles é que se fosse ao contrário, se a Palestina, através do Hamas, estivesse atacando e matando milhares de israelenses, eu continuaria defendendo os palestinos? A questão aqui levantada não é a defesa de um dos lados, mas sim a defesa da vida. O mundo árabe tem suas dificuldades quanto a liberdade de expressão, dentre outras, mas isso não justifica que eu saia assassinando árabes. Precisamos defender a vida em todas as suas formas. Os ataques do Hamas, ferindo inocentes israelitas devem ser condenados. O ataque das forças militares de Israel também, principalmente por sua desproporcionalidade, que levou a morte milhares de civis palestinos, sendo 25% de crianças. Esse é fato que questionamos e continuaremos a questionar. Isso não tem nenhuma relação em ser comunista, terrorista ou qualquer outro termo. Isso é uma defesa da vida.

Outra questão: não me preocupe com outros conflitos, como o caso da Síria ou mesmo o número altíssimo de assassinatos no Brasil? Quem me conhece sabe da minha luta diária para evitar que mais adolescentes e jovens venham a ser sucumbidos pela morte prematura por conta das drogas e outras mazelas sociais. Preocupe-me e choro com a morte desses adolescentes, principalmente aqueles que são mais próximos de mim. Como também tenho orado pela paz na Síria, como fizemos no Jejum Solidário, organizado pela Visão Mundial, onde motivamos a várias igrejas estarem em clamor pelas crianças que vivem nesse país. Essa tem sido nossa oração diária e desejo sempre presente. Entretanto, isso não significa que eu não possa denunciar mais um conflito e exigir uma solução pacífica, mas que seja justa para ambos os lados. Esse discurso apenas serve para tirar o foco sobre o que Israel tem feito na Faixa de Gaza, e não sei explicar ainda quem está interessado nisso.


Finalizando, os números apresentados pela ONU nos levam a acreditar que algo precisa ser feito de imediato para solucionar esse conflito. O que acontece agora não é fruto da morte de três adolescentes israelenses. É fruto de um sistema de opressão construído por Israel que não permite que um palestino respire sem autorização, como foi lembrado por Eduardo Galeano. Os números são chocantes: 857 palestinos assassinados, sendo 194 crianças. 4.605 palestinos feridos, sendo pelo menos 1.200 crianças. 39 israelenses assassinados, sendo 37 soldados. 167.000 palestinos deslocados em 95 escolas da ONU e locais. 165.000 crianças palestinas precisam de apoio psicossocial. 1.200.000 palestinos sem qualquer acesso ou com acesso parcial a serviços de água e saneamento básico.  Mais do que números, tratam-se de vidas. Por isso, que precisamos de uma solução rápida para esse conflito. Não apenas um cessar-fogo que mantenha as péssimas condições de vida na Palestina, mas um cessar-fogo completo, que ponha fim a barreira imposta a Faixa de Gaza. A Palestina não necessita de migalhas de Israel, necessita ser livre. E essa tem sido minha posição! 

terça-feira, 17 de junho de 2014

HATUEY


O conto seguinte relata uma triste história vivenciada pelos habitantes das américas quando esta foi invadida pelos europeus. É interessante que o personagem principal desta história pensa que o deus cristão é o ouro, causa do assassinato dos seus familiares e irmãos.

"Nestas ilhas, nestes humilhadeiros, são muitos os que escolhem sua morte, enforcando-se ou bebendo veneno junto aos seus filhos. Os invasores não podem evitar essa desgraça, mas sabem explicá-la: os índios, tão selvagens que pensam que tudo é comum, dirá Oviedo, são gente de natural ociosa e viciosa, e de pouco trabalho...Muitos deles por ser passatempo, se mataram com peçonha para não trabalhar, e outros se enforcaram com suas próprias mãos.

Hatuey, chefe índio da região de Guahaba, não se suicidou. Em canoa fugiu do Haiti, junto aos seus, e se refugiou nas covas e montes do oriente de Cuba.

Ali apontou uma cesta cheia de ouro e disse:
- Este é o deus cristão. Por causa dele nos perseguem. Por ele morreram nossos pais e nossos irmãos. Bailemos para ele. Se nossa dança o agradar, este deus mandará que não nos maltratem.

É agarrado três meses depois.
E amarrado em um pau.
Antes de acender o fogo que o reduzirá a carvão, um sacerdote promete-lhe glória e eterno descanso se aceitar batizar-se. Hatuey pergunta:
- Nesse céu estão os cristãos?
- Sim
- Hatuey escolhe o inferno e a lenha começa a crepitar."

(Cuzco - O Trono de Latão em Memória do Fogo, Os Nascimentos - Eduardo Galeano).

sábado, 10 de maio de 2014

A Repressão ao Movimento Estudantil Em Fortaleza

Foto: Sérgio Farias (retirada do Facebook)

Começo a reflexão de hoje com uma fala contundente da companheira dos movimentos sociais Lídia Rodrigues: “Um Estado que autoriza e ordena a polícia jogar bombas de gás e spray de pimenta em crianças e adolescentes estudantes em manifesto pelo direito de ir e vir rompe com qualquer perspectiva de civilidade e democracia”.

No último dia 09 de maio estudantes de Fortaleza caminharam pelas ruas do centro até o Paço Municipal para reivindicar pelos seus direitos estudantis. Acompanhei todo o trajeto da caminhada até o Paço, que se seguiu tranquilamente. Ao lado da Catedral uma barricada da polícia foi montada para não permitir o acesso dos estudantes a Prefeitura. Poucos minutos depois disparos, bombas de gás e balas de borracha foram vistos. Os estudantes correram apavorados pelas ruas. Como relatou um dos manifestantes, “não deu tempo nem montar o som”. O que presenciamos depois foram correrias pelas ruas com a polícia perseguindo estudantes como se estivessem em um festival de caça a animais.

O que a mídia falou depois, principalmente pelos canais de comunicação ligados a Rede Globo, como Diário do Nordeste, foi que os estudantes foram ao centro para badernar. Divulgaram imagens que confundirão a compreensão das pessoas e criminalizará o movimento estudantil. Imagens que não condizem com a realidade dos fatos. Tentará tirar o foco da luta, por isso é sempre necessário relembrar porque estão lutando.

A Prefeitura de Fortaleza cancelou no último dia 01/05 milhares de carteirinhas de estudantes. Reprimiu violentamente manifestações do dia 07/05. No dia 09 novamente os estudantes voltaram a manifesta-se, e foram novamente violentamente reprimidas. Nesse meio termo a Prefeitura voltou atrás e liberou as carteirinhas. Se podia adiar, porque não fez isso antes? Apenas para gerar lucros a empresários e prejudicar milhares de estudantes? E porque o uso da força policial desmedida contra adolescentes? E o que falar do uso de armas letais na manifestação?

Aos estudantes que continuem com a sua luta, cada vez mais organizada e focada nas metas que desejam alcançar. Nesse exato momento é preciso colocar em pauta e encontrar soluções finais para o problema das carteirinhas. Vocês estão lutando por aquilo que é direito de vocês e precisam se orgulhar disso. Busquem cada vez mais formação e conhecimento, para exercerem uma resistência e um diálogo firme.

Aos fortalezenses adultos, saibam que os seus filhos ontem foram perseguidos como animais pelas ruas do Centro, como se fossem criminosos de alta periculosidade. Mas, eles estavam apenas reivindicando os seus direitos. Antes de se colocarem ao lado da mídia, escutem todo o contexto dessa história. Os direitos de seus filhos, como os seus próprios, tem sido desrespeitados a cada dia. Dias atrás escrevi que os oprimidos quando se levantassem para lutar seriam reprimidos brutalmente pelo opressor. O que vimos ontem foi apenas a constatação desses fatos.


Ao Estado do Ceará, ao invés de criminalizar as juventudes, que procure dar uma resposta aos pedidos desses adolescentes. Mas, a resposta tem que ser baseada no diálogo e no compromisso com eles, não na prática covarde e violenta do uso da força militar. Lembro-lhes que ainda vivemos em um país que prega a democracia. É necessário que o estado venha a público desculpar-se por seus atos criminosos contra crianças e adolescentes.

 Fotos: Lídia Rodrigues (Retida do Facebook)

Nesse vídeo policiais em uso de armas letais em plena manifestação. Tiros são escutados. Um crime contra adolescentes.



quinta-feira, 8 de maio de 2014

Decidirá Com Retidão Em Favor Dos Humildes Do País

Foto: Jornal O Povo na Manifestação Pela Liberação das Carteiras de Estudantes em Fortaleza

Nos últimos dias temos presenciado situações de extrema violência. Não que elas fossem alguma novidade em nossa sociedade, mas quando as percebo não consigo ficar inerte diante dessas ações que revelam o lado mais cruel da humanidade. São linchamentos públicos, violências policiais contra estudantes, opressão contra os empobrecidos e os trágicos assassinatos de nossas juventudes.

Aprendi com o mestre Croatto que a violência é sempre uma manifestação de poder e se desencadeia pelo egoístico desejo de “ser/ter/poder” mais que o outro, que se converte em seu receptor e no prejudicado real. Para ele existem cinco expressões de violência, sendo que a primeira delas é aquela que rompe o equilíbrio das nossas relações justas e normais da sociedade. É perversa por gerar injustiças por um lado, e respostas violentas, pelo outro. É aquela que é produto do “abuso do poder”, gerando estados de injustiça e de desordem nas relações sociais. Em outras palavras, é quando o poder que visa proteger o fraco se perverte em violência contra ele, gerando injustiças, desproteção, impunidade e carências. Os profetas de Israel condenam veemente a corrupção do poder que gera injustiça e pobreza: “Não sabem viver com honestidade – oráculo de Javé – aqueles que em seus palácios entesouram violência e opressão”. (Amos 3.10)

Diante desse cenário surge outra expressão da violência, aquela que é resposta e rejeição. Se a primeira é gerada no egoísmo, a segunda é originária no amor ou ao menos no direito de legítima defesa. É um ataque a “injustiça da justiça”. É quando os profetas criticam os ricos e os poderosos que oprimem os fracos (Is 1,10; Am 2,6; 4,1; Jr 7, 5-6), e estes simplesmente condenam suas palavras proféticas. Quando o pobre e violentado procura aqueles que têm por função exercer a justiça em favor dos desvalidos, objeto da violência opressora dos poderosos, mas não encontram espaço para suas queixas, acontece essa segunda violência que chamamos de justiça pervertida. “Os seus chefes são bandidos, cúmplices de ladrões: todos eles gostam de suborno, correm atrás de presentes; não faz justiça ao órfão, e a causa da viúva nem chega até eles” (Isaías 1,23).

A terceira violência chamamos de “repressão ao profeta”. Os autores da primeira e segunda violência (opressão dos poderosos e a justiça pervertida) começam a se incomodar com as palavras dos profetas. Suas atitudes revelam que desejam que se calem as vozes que clamam por justiça, como quando o profeta Amasias reprime Amós, dizendo-lhe: “Vai, foge para o país de Judá” (7,12) ou então: “Não profetizeis contra Israel e não fales contra a casa de Isaac” (v.16). Croatto conclui: “Nas histórias de Jeremias e Amós vê-se bem a sequencia: a violência da opressão econômica e social, longe de ser suprimida pela prática da justiça, é agravada pela violência antí-salvífica dos juízes e seus colaboradores; o profeta sai a campo em defesa dos oprimidos, mas é reprimido por aqueles que deveriam usar o poder para restabelecer a justiça incialmente ferida”.

Diante das respostas violentas surge um processo de libertação. Se esse processo é violento é porque não existem mais alternativas pacíficas, é a expressão do direito que cabe aos oprimidos de lutarem pela vida e pela justiça. “É bem diferente o sinal desta violência do oprimido, quando necessária, sem alternativas, daquela violência do opressor ou do juiz que perverte a justiça”. E por fim, a última violência diz respeito à repressão a esses processos de libertação. A repressão pode acontecer pelas vias políticas, militares e econômicas, pretendendo aniquilar totalmente o “inimigo” e ainda vem acompanhada por forte componente ideológico que criminaliza os movimentos que lutam por justiça, pregando uma falsa “paz”: “Eles dizem aos que desprezam Javé: Vocês terão paz. E aos que seguem seu próprio coração obstinado dizem: O mal nunca atingirá vocês”.


O que experimentamos nesses dias pode ser resumido nessas realidades bíblicas vivenciadas pelos profetas e tão sabiamente compartilhadas por Croatto. As formas de violência se reduzem ao binômio “opressão-libertação”. Sempre que o nosso povo buscar por libertação, o opressor se levantará ferozmente para aniquilar qualquer forma de luta, e para isso usará os seus meios mais violentos e sangrentos.  Mas, também tentará cooptar os mais desatentos para a vivência de uma falsa justiça e paz. Para todas essas formas de violência a nossa resistência teimosa deve-se manter na certeza de que: “Julgará os pobres com retidão e decidirá com retidão em favor dos humildes do país” (Is 11,4a). 

sábado, 1 de março de 2014

Duas Decisões Importantes


Nos reunimos nessa sexta-feira para tomarmos decisões importantes. Essa geralmente é nossa rotina e dever como líderes da igreja, zelar pelo testemunho puro da comunidade e o cumprimento de sua “santa doutrina”. Eis as questões: tínhamos um terreno e um asilo pediu para utilizar, pois não existia um lugar que eles pudessem ocupar no momento. A outra questão era que, duas irmãs idôneas tinham visto uma moça da igreja sair de um motel.


Primeiro decidirmos sobre o nosso caso administrativo. Tínhamos duas opções: doar o terreno ou emprestá-lo. Aliás, terreno que em vinte anos nunca foi utilizado para nada. A primeira reação foi uma grande indignação porque não organizamos naquele lugar um ponto de pregação em todo esse tempo. Superada essa barreira, veio o que mais me surpreendeu. A minha opinião que doássemos o terreno e fizéssemos um projeto que pudesse ajudar essa instituição foi rebatida com outra opinião, defendida com unhas e dentes por alguns. A ideia deles era que emprestássemos o terreno por um período e que tivéssemos alguém da nossa igreja na diretoria desse asilo. Meu discurso foi tido como filosófico, bonito e utópico, algo fora da realidade.

A minha opinião, primeiramente baseava-se em uma questão de ética e responsabilidade: não podemos fazer algo que não sabemos fazer. Falo da questão da diretoria, o asilo tinha uma diretoria que estava fazendo seu trabalho corretamente, não posso simplesmente chegar e invadir seu espaço. Segundo, nossas igrejas têm algo que gostaria de classificar como “mania do poder”. Achamos que para servir temos que estar no controle de tudo. Nossos pastores e líderes já não acompanham o crescimento de suas ovelhas, ovelhas que como crianças deveriam ser nutridas pelo puro leite espiritual para cresceram, mas o que elas têm recebido as torna em eternas crianças que nunca crescem (I Pe. 2,9). Desejamos controlar todos que estão ao nosso lado, pois fora de nós não salvação e nem outra verdade. Nós somos a verdade!

Fui acusado de pregar um evangelho que não busca a salvação da alma do homem, mas que se resume a ação social, ou um marxismo disfarçado de teologia da libertação. Entretanto, o que eu gostaria era viver um evangelho não somente em palavras, mas procurar trazer sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em meu corpo (II Co 4,10). O meu Senhor Jesus deixou-me claro que o reino de Deus é dos pobres, daqueles que buscam a justiça (Mt 5,1-11, Lc 6,20). Que eu deveria anunciar as boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos. Aprendi com Ele que bem-aventurado é aquele que dar sem esperar nada em troca, é doar àqueles que não podem retribuir. (Lc 14,14).

Sobre a igreja faço minhas as palavras de Frederico Stein: “Não gosto do título de “sacerdote”, que lembra o culto do templo de Jerusalém e de todos os cultos das religiões pagãs da antiguidade. [...] Talvez seja melhor acabar com todo tipo de enfeite especial, tanto para homens quanto para mulheres a serviço das comunidades.” E sonho juntamente com José Luiz Cortés: “A igreja que eu quero não tem sinos: as pombas se encarregam de avisar o povo. [...] Claro que nesta igreja haverá também um papa! Mas um papa caseiro, com chinelos de lã, mais pai do que papa, mais santo do que o Santíssimo. E se ele se pode chamar José, ninguém deverá chamá-lo de ‘pio’ [...]. Minha igreja não se enfeita, nem anda com objetos de ouro; tem humor, conta piadas [...]. Eu sempre penso que, se tirarmos a roupa de qualquer pessoa, suas jóias e seus títulos, ficará muito pouquinho, mas bom e autêntico.”

Ah, quase esquecia. Temos o segundo caso, a jovem no motel. Não é muito importante, não se trata de um terreno nem de bens. A nossa decisão foi rápida. “Pastor, verifique se foi verdade e aplique o código disciplinar da igreja”.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Os Bandidos de Rachel Sheherazade


Rachel Sheherazade já não me surpreendia por seus comentários sensacionalistas e sem nenhuma profundidade, marcados pelo preconceito e o fundamentalismo religioso. Entretanto nesses dias, como diria amigos próximos, ela se superou. Defendeu a violência gratuita e se colocou acima do estado para que seu direito a vingança seja respeitado. Esquecendo-se dos motivos que causam a desigualdade e a violência, recorreu ao “senso comum” de nossa sociedade preconceituosa que marginal (geralmente pobre e negro) precisa mesmo de uma boa corsa. Mais parecia um pedido de retorno ao tempo dos senhores dos escravos.

Uma das causas da violência para Rachel é porque o estado desarmou a população. Logicamente concluo que se a sociedade estivesse armada e pudessem sair amarrando ao tronco cada “marginalzinho” à violência acabaria. Ela cita os números de mortos no Brasil, mas parece desconhecer que a maioria deles são pobres e negros. Desconhece que a sociedade brasileira está sim muito bem armada e tem matado milhares a cada dia. Então afirma que é compreensível essa atitude de violência de jovens ricos contra o marginalzinho, sem analisar o porquê que o tal o marginal que estava à margem da sociedade ficou tão violento.

O mais incrível é que meses atrás quando um astro teen pinchou, roubou, brigou, usou drogas e foi preso, ela concluir que ele era apenas um adolescente em formação e que precisávamos dar mais tempo para “ele se encontrar”. Ao adolescente negro e pobre uma boa surra, porque não presta. No final do ano passado, quando o filósofo Paulo Ghiraldelli sugeriu que Rachel fosse estuprada, ela se defendeu: “Caso grave de incitação ao crime... liberdade de expressão termina onde começa a calúnia, difamação, ameaça e incitação ao crime”. Então, o que dizer do seu comentário no dia 04 de fevereiro? Foi uma incitação a paz?

O que mais me deixa boquiaberto é que muitos dos comentários da Rachel são baseados em seus princípios religiosos.  Mas, vejo que ela não segue algumas partes importantes desses tais “princípios cristãos”.  Se a Rachel é tão corajosa como diz ser e tão seguidora de Cristo, porque ao invés da vingança não propôs o perdão? Penso que ela pulou algumas partes importantes desse texto sagrado, principalmente aquele que diz: “se alguém lhe dá um tapa na face direita, ofereça também a esquerda! Se alguém faz um processo para tomar de você a túnica, deixe também o manto! Se alguém obriga você a caminhar um quilômetro, caminhe dois quilômetros com ele”! Não me estenderei nesses detalhes evangélicos, pois já percebemos que há uma grande diferença entre fala e prática.

Se nós faríamos um favor ao Brasil participando da campanha da Rachel Sheherazade “adote um bandido”, quero-te dizer que estamos quites. Diariamente eu acredito que pessoas que foram marginalizadas, tiveram seus direitos desrespeitados, foram vítimas do racismo e da violência do estado e de uma classe média ignorante podem sim chegar à consciência que lutando por seus direitos alcançarão os seus objetivos de igualdade e justiça. Eu posso deitar tranqüilo em minha cama todos os dias sabendo que ao invés de propor a morte aos meus irmãos lhes trouxe uma proposta de esperança. E você irmã Rachel?

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A Atuação do CONJUCE: É hora de Refletir!


Na última sexta-feira (31/01) aconteceu mais uma reunião do Conselho Estadual de Juventudes do Ceará. Na oportunidade foram eleitos novos integrantes para a mesa diretora do conselho. De antemão parabenizo a todos companheiros que democraticamente foram eleitos.

Entretanto, como um participante das reuniões do Conjuce, posso afirmar com toda a certeza e preocupação, que esse conselho não tem caminhado bem. Como representante de juventudes necessitamos agir com clareza e objetividade. O texto que encontrei nessa tarde no blog da Coordenadoria Especial de Políticas Públicas de Juventude não deixa transparecer todos os problemas que enfrentamos.

Primeiramente, o ano de 2013 foi um ano perdido. Não podemos mostrar as juventudes do Ceará algum produto que seja fruto de nossos encontros. Reuniões não aconteceram por falta de quórum e passamos um ano inteiro realizando um planejamento. O tal Sistema Estadual de Juventude, o Estatuto e outros pontos, ainda são desconhecidos pela maioria dos jovens do Estado e sua funcionalidade e real aprovação estão muito distantes. Mas sempre será o mês que vem.

Segundo, enquanto milhares de jovens morrem vítimas da violência no estado, este conselho demonstrou-se ineficaz na discussão sobre a temática e na proposição de ações que viessem contribuir com a diminuição das mortes de milhares de adolescentes e jovens. Por vezes, trouxe comigo denuncias gravíssimas de práticas violentas contras as juventudes e em silêncio ficou o conselho. Afinal de contas que jovens representamos?

E um terceiro ponto, e fundamental nisso tudo, o atual presidente afirmou que é meta “ampliar a participação e democratizar ainda mais o conselho e suas decisões”. Cabe-nos perguntar quem realmente participa do conselho? Que decisões vão ser democratizadas? Vejo a sociedade civil muito distante do conselho, talvez representada por duas ou três instituições que acabam sucumbidas por acordos políticos que na prática não atendem os anseios dessas juventudes que tem sido dizimada pela violência, opressão e preconceito. Só tenho duas certezas: Precisamos renovar e necessitamos urgentemente que as juventudes desse estado sejam mais presentes nesse espaço político. 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Conselhos de Direito: Uma Conquista Desconhecida?


Uma conquista dos brasileiros na constituinte de 1988 ainda é desconhecida por muitos. Naquele ano a sociedade brasileira ganhou um instrumento capaz de contribuir com a consolidação do processo democrático de direito: tratava-se dos Conselhos de Direito. Uma definição abrangente do que é um conselho é dado por Gomes:

“Os conselhos são considerados condutos formais de participação social, institucionalmente reconhecidos, com competências definidas em estatuto legal, com o objetivo de realizar o controle social de políticas públicas setoriais ou de defesa de direitos de segmentos específicos. Sua função é garantir, portanto, os princípios da participação da sociedade no processo de decisão, definição e operacionalização das políticas públicas, emanados da Constituição. Ou seja: são instrumentos criados para atender e cumprir o dispositivo constitucional no que tange ao controle social dos atos e decisões governamentais” (GOMES, 2000, p.166).

Há poucos anos passei a integrar alguns desses conselhos como membro da sociedade civil. No início apenas observava os acontecimentos e tentava compreender o funcionamento de cada um deles e suas dinâmicas de trabalho. Com o passar do tempo as primeiras posições começaram a aparecer, entretanto, percebi que a sociedade civil pouco se aproxima dessa importante conquista do povo. Talvez não seja uma ausência do desejo de participação, mas apenas um mero desconhecimento sobre esse espaço político, alimentado por aqueles que desejam se perpetuar no poder.

Temos diversos conselhos em funcionamento tanto em Fortaleza como em todo o Ceará. Entretanto, sentimos que a participação da sociedade civil tem se reduzido a cada ano fruto da ausencia da renovação de suas lideranças, como também a inexistência de um programa de formação política que permita que todos os cidadãos tenham conhecimento sobre seus direitos de participação e sejam motivados a ocuparem esses espaços. Não adianta fazer parte de conselhos onde governo se maqueia de sociedade civil, tornando-o apenas um instrumento consultivo ou uma instituição de faixada.

Temos o desafio de realizar o controle social de políticas públicas garantido a participação de toda a sociedade. A melhor maneira de começar cumprir esse objetivo é buscar os conselhos de direitos de nossa cidade e acompanhar os seus trabalhos. Já aviso de antemão que não terás uma grata surpresa.

Como Lutar Pela Democracia?

Nos dias que antecederiam o afastamento da Presidenta Dilma Roussef de suas funções no Governo Federal, recordo que fomos até a Avenida...