terça-feira, 8 de outubro de 2013

Putinha, Algoz e Vítima


Nesse final de semana três adolescentes esfaquearam uma jovem na Praia do Futuro em uma tentativa de assalto. Quando presas, não demonstraram arrependimento e até um certo lamento por não terem conseguido matar a vítima. Um jornal local trazia os apelidos das três adolescentes: Safadinha, Piradinha e Putinha, a última com apenas 11 anos de idade. Toda a sociedade demonstra-se revoltada com a violência dessas adolescentes, mesmo que no outro lado da cidade outra jovem tenha sido morta com 26 tiros. Entretanto, esse não é um fato muito importante, pois ela era pobre e negra. A revolta da sociedade até exigem pena de morte no Brasil. Culpa-se integralmente essas ferozes ameaças a sociedade por toda a violência.

Mas, vamos aos fatos, e escolherei apenas uma das três adolescentes para poder elucidar alguns pontos. Putinha, 11 anos, certamente não tem esse apelido por achar charmoso e doce. Alguma coisa aconteceu para que uma criança passasse a ser designada nesses termos. Certamente, antes de Putinha ser Putinha, muitos dos seus direitos foram desrespeitados. Provavelmente tenha sentido a violência em sua pele, a invasão em seu corpo, que sem entender passou a achar normal a convivência com a miséria e a dor. Não conhecemos a história de Putinha, apenas que ela é capaz de de matar alguém por alguns trocados. Talvez, quando Putinha passou a ser conhecida dessa forma todo o sistema que garantiria os seus direitos deveria ser acionado. O primeiro equipamento deveria ser o Conselho Tutelar, mas em uma cidade que tem apenas 6 Conselhos quando deveria ter 24, esse caso passou desapercebido como tantos outros. Sozinha, violentada pelas circunstâncias da vida, escolheu o caminho que lhe pareceu o único. Perdeu a sua identidade, sua perspectiva de futuro e entregou-se ao acaso. Aos 11 anos não pode mais brincar de faz-de-conta, pois as dores são reais e nem o seu corpo pertence a ela mesma.

Putinha não é apenas a algoz da violência, ela também é a vítima. Vítima de um estado que não consegue garantir os seus direitos básicos, que está mais preocupado em construir viadutos e circos do que fazer uma opção radical pela proteção dela. Putinha é vítima de uma sociedade preconceituosa, que reafirma todos dias que gente como ela, pobre, periférica e negra não merece cuidado. Putinha é vítima de nossas inúmeras reuniões em nossos conselhos democráticos para solucionar o seu caso tão chocante para nós pessoas instruídas. Putinha, não é puta, é apenas uma criança, vítima da educação de má qualidade, da ausência de acompanhamento familiar, da negação do seu direito de brincar, de um governo que não investe em sua proteção e de uma comunidade excluída que para sobreviver tenta também excluir, sem perceber que os verdadeiros filhos da puta estão sentados nas nossas assembleias legislativas e nas cadeiras do poder executivo preocupado com os milhões investidos em suas próprias contas. E com todo o respeito as putas, elas não merecem os filhos que lhe são outorgados.

Se você ficou escandalizado por essas palavras, saiba que eu me escandalizo muito mais em saber que a cada oito minutos uma criança é violentada no Brasil. Me escandalizo também em perceber que semanalmente são assassinados vários jovens na comunidade, e a única resposta que o estado consegue dar é repressão e mais violência. Me escandalizo com a injustiça que correm como um rio em nosso meio. Me escandalizo por ter perdido Biú, Nêgo, Chapiado, Magão, Guri, Grampola... condenados a pena de morte desde sua infância.

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