domingo, 8 de setembro de 2013

"A voz resiste. A fala insiste: você me ouvirá."


Presenciamos mais um final de semana conturbado no Brasil. Várias manifestações ocorreram em diversas cidades e em sua maioria acabaram em atos de violência. A maioria dos participantes era de jovens que cobravam mudanças na atual conjuntura política brasileira, marcada por uma desesperança e um descrédito nas instituições públicas jamais vista nesses anos de democracia.

Os últimos atos fizeram me recordar uma leitura, que eu tinha realizado meses atrás, de um pequeno livro de um sacerdote católico chamado Henri Nouwen. Nesse livreto, o autor apresenta uma análise da atual condição humana cheia de incertezas e amedrontada pelo futuro. Ele classifica o homem atual como o “homem nuclear”. Esse homem compreende que sua capacidade criativa também pode conduzi-lo à autodestruição. Ele vê que, nesta era nuclear, os grandes complexos industriais permitem ao homem produzir em uma hora aquilo pela qual trabalhava durante anos no passado, mas ele compreende também que essas mesmas indústrias perturbaram o equilíbrio ecológico. Ele vê uma tal abundância de produtos de utilidade à sua volta, mas é acometido por um sentimento de escassez que desmotiva a sua vida. O homem nuclear, segundo psico-historiador Robert Jay Lifton é caracterizado por um deslocamento histórico, pois ele se descobre parte de uma não-história, na qual somente o aqui e agora é valioso e uma ideologia fragmentada, pois ele trocou as formas fixas e abrangentes por fragmentos ideológicos mais flexíveis, não crendo em algo que sempre e em toda a parte é verdadeiro e válido. Ele vive no agora e cria a sua vida no aqui.

Para não se entregar a total desesperança o caminho que é essa geração, ou parte dela, tem encontrado é caminho da revolução. Só que nesse caminho a escolha não é mais entre o seu mundo e um mundo melhor, mas entre um mundo nenhum e um mundo novo. “Revolução é melhor do que suicídio”. Os manifestantes que têm saído às ruas do Brasil não querem nenhuma adaptação, restauração ou adição nessa sociedade, eles querem uma sociedade nova. Talvez, esse desejo pelo novo tem pautado as ações radicais em alguns momentos, das quais “o poder constituído” tem chamado de vandalismo e baderna. A certeza que temos diante desses fatos é que a repressão não é a melhor solução para os problemas apresentados. Afinal de contas, não devemos confundir a reação do oprimido com a violência do opressor. Que os estados brasileiros procurem o caminho do diálogo com todos os manifestantes, tendo ciência do que já foi citado acima. Como diria o compositor cearense Belchior: "A voz resiste. A fala insiste: você me ouvirá."

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