segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Como se educa sem violência (Dr. Arun Gandhi)



O Dr. Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi e fundador do MK Gandhi Institute, contou a seguinte história sobre a vida sem violência, na forma da habilidade de seus pais, em uma palestra proferida em junho de 2002 na Universidade de Porto Rico.

"Eu tinha 16 anos e vivia com meus pais, na instituição que meu avô havia fundado, e que ficava a 18 milhas da cidade de Durban, na África do Sul. Vivíamos no interior, em meio aos canaviais, e não tínhamos vizinhos, por isso minhas irmãs e eu sempre ficávamos entusiasmados com a possibilidade de ir até a cidade para visitar os amigos ou ir ao cinema.

Certo dia meu pai pediu-me que o levasse até a cidade, onde participaria de uma conferência durante o dia todo. Eu fiquei radiante com esta oportunidade. Como íamos até a cidade, minha mãe me deu uma lista de coisas que precisava do supermercado e, como passaríamos o dia todo, meu pai me pediu que tratasse de alguns assuntos pendentes, como levar o carro à oficina. Quando me despedi de meu pai ele me disse: "Nos vemos aqui, às 17 horas, e voltaremos para casa juntos".

Depois de cumprir todas as tarefas, fui até o cinema mais próximo. Distraí-me tanto com o filme (um filme duplo de John Wayne) que esqueci da hora. Quando me dei conta eram 17h30. Corri até a oficina, peguei o carro e apressei-me a buscar meu pai. Eram quase 6 horas.

Ele me perguntou ansioso: "Porque chegou tão tarde?"

Eu me sentia mal pelo ocorrido, e não tive coragem de dizer que estava vendo um filme de John Wayne. Então, lhe disse que o carro não ficara pronto, e que tivera que esperar. O que eu não sabia era que ele já havia telefonado para a oficina. Ao perceber que eu estava mentindo, disse-me: "Algo não está certo no modo como o tenho criado, porque você não teve a coragem de me dizer a verdade. Vou refletir sobre o que fiz de errado a você. Caminharei as 18 milhas até nossa casa para pensar sobre isso".

Assim, vestido em suas melhores roupas e calçando sapatos elegantes, começou a caminhar para casa pela estrada de terra sem iluminação. Não pude deixá-lo sozinho...guiei por 5 horas e meia atrás dele...vendo meu pai sofrer por causa de uma mentira estúpida que eu havia dito. Decidi ali mesmo que nunca mais mentiria.

Muitas vezes me lembro deste episódio e penso: "Se ele tivesse me castigado da maneira como nós castigamos nossos filhos, será que teria aprendido a lição?" Não, não creio. Teria sofrido o castigo e continuaria fazendo o mesmo. Mas esta ação não-violenta foi tão forte que ficou impressa na memória como se fosse ontem.

Este é o poder da vida sem violência"

A Canção do Homem (Tolba Phanem)

"Esse é um mito africano, contado pela poetisa Tolba Phanem, que nos ensina valores muito importantes para a vivência de uma cultura de paz."


Quando uma mulher de certa tribo da África sabe que está grávida, segue para a selva com outras mulheres, e juntas rezam e meditam até que aparece ” A canção da criança”.
Quando nasce a criança, a comunidade se junta e lhe cantam sua canção. Logo, quando a criança começa sua educação, o povo se junta e lhe canta a sua canção.
Quando se torna adulto, a gente se junta novamente e canta.
Quando chega o momento de seu casamento, a pessoa escuta sua canção.
Finalmente, quando a sua alma está para ir-se deste mundo, a família e amigos aproximam-se e, como em seu nascimento, cantam sua canção para acompanhá-la na “viagem”.
Nesta tribo da África, tem outra ocasião na qual os homens cantam a canção.
Se em algum momento da vida a pessoa comete um crime ou um ato social aberrante, levam-no até o centro do povoado e a gente da comunidade forma um círculo ao seu redor. Então lhe cantam “sua canção.”
A tribo reconhece que a correção para as condutas antisociais não é o castigo; é o amor e a lembrança de sua verdadeira identidade. Quando reconhecemos nossa própria canção, já não temos desejo nem necessidade de prejudicar ninguém.
Teus amigos conhecem a “tua canção”. E a cantam quando a esqueces. Aqueles que te amam não podem ser enganados pelos erros que cometes, ou as escuras imagens que mostras aos demais. Eles recordam tua beleza quanto te sentes feio, tua totalidade quando estás quebrado, tua inocência quando te sentes culpado e teu propósito quando estás confuso.

Encantador de Alunos


O que ele fez foi muito pouco. Tão mínimo, acredita que nem mereça menção. Na visão do professor Manoel Andrade Neto, 53 anos, os feitos e conquistas nada mais são que um reflexo do amor por uma terra chamada Cipó. De tão pequeno, o lugar nem distrito de Pentecostes (a 103 km de Fortaleza) chega a ser. Ainda assim, desse lugarejo de morada de apenas 10 famílias, partiu a ideia de modificar a vida de um povo. Manoel ousou: ao invés de seguir as carreiras dos pais, os filhos dos agricultores poderiam ser o que desejassem.
E foi desse jeito que resolveu reunir um grupo de alunos para que jovens e outros nem tanto assim ensinassem uns aos outros. Manoel seria somente o motivador. Arrumaria transporte, alimentação, livros. E na educação mútua, de troca de saberes, ensinamentos e, principalmente, de vontade de estudar, surgiu o Programa de Educação em Células Cooperativas, antes Projeto Educacional Coração de Estudante (Prece). Foram sete os primeiros alunos, em 1994, que devem se converter em mais de 25 mil participantes em 2013.
De tanto que cresceu, o Prece original deixou de ter controle sobre outras sedes abertas Brasil afora. E, apesar de ter ajudado a formular o programa, o sonho do professor é justamente não precisar mais dele. “O que eu sonho não é que o Prece cresça. O meu sonho é que a gente possa ser forte o suficiente para influenciar o desenvolvimento das escolas públicas. Minha vontade era que, daqui a dez anos, dissesse que o Prece foi feito por um grupo de pessoas que sonhou, mas que hoje a gente não precise mais dele, porque a escola é muito boa”, ensina.

 O POVO – Vamos começar pelo início. O Prece surgiu em 1994, na comunidade rural de Cipó, em Pentecoste, com apenas sete estudantes. O que incentivou o senhor a ter essa ideia?
Manoel Andrade Neto – Bem, o Prece nasceu de uma mistura de coisas. De uma experiência que eu tive quando eu tinha uns 16 anos. Eu saí do interior com noves anos para morar na casa dos meus avós, em Fortaleza. Eles tinham fugido da seca na década de 1940 e acabaram no bairro Panamericano. Ela (avó) era uma mulher muito obstinada, queria muito que os filhos estudassem, mas eles não puderam estudar muito. Meu pai mal assina o nome. E quando eu tinha uns 16 anos, eu estudava numa escola de bairro, no Panamericano, e conheci um jovem que me convidou para participar de um grupo. “O que o grupo faz?”, eu perguntei. “A gente estuda no (bairro) Jóquei Clube”, ele disse. Ele me perguntou o que eu mais gostava de estudar e eu falei que era Biologia. A minha ligação com o Interior? Ele disse: “Ah, você gosta de Biologia, então você vai ensinar a gente Biologia”. Cada um tinha uma função no grupo. Ele era de Matemática, tinha uma pessoa da História... Então, depois eu criei outro grupo, com outros amigos da escola, e começamos a estudar. Quando eu já terminava o ensino médio, nós estudávamos ali próximo ao Liceu (do Ceará, no bairro Jacarecanga), na casa de um pai de um amigo nosso. E eu queria era estudar. Tinha tentado várias coisas de trabalho. Vendi maçã na rua, na praça José de Alencar; vendi livros; fui do exército, mas nada dava certo. Essa experiência de grupo de estudo foi muito forte. Nós fizemos vestibular e do nosso grupo, apenas um não foi aprovado. Eu fui aprovado para Química. Entrei na universidade e nosso grupo se desfez. 


OP – E qual era a situação financeira da sua família?
Manoel – Meus pais eram pobres, são agricultores, bem simples, e meus avós também.

OP – E foi a experiência do grupo de estudo da casa próxima ao Liceu que estimulou o senhor?
Manoel – A experiência foi muito forte mesmo. Aquilo ficou na minha cabeça. Terminei a Química, fui trabalhar fora, voltei, fiz mestrado e quando comecei o doutorado e ganhei um pouco mais de dinheiro, comecei a retornar para Pentecoste nos fins de semana. Quando era menino, passava quatro meses de férias lá. Cipó não chega nem a ser um distrito, é uma localidadezinha que nem tinha escola quando eu tinha nove anos de idade. Eu fui alfabetizado na casa de uma vizinha. Comprei uma moto, então todo o fim de semana, eu voltava para lá. Eu queria muito ajudar a comunidade. 

OP – Foi quando começou com o grupo de estudo?
Manoel – Eu comecei a organizar campeonatos de futebol. Ia para os jogos aos domingos, comecei a organizar campeonatos de todos os times da área rural de Pentecoste. Mas, com o passar do tempo, eu já estava cansado de organizar. Ficava revoltado ao ver a dependência muito grande da política, principalmente na época de eleição. As pessoas ficavam vendendo voto.
OP – Para conseguir jogar?
Manoel – Não, por outros motivos. Mas eu pensei que tinha que fazer alguma coisa que fosse diferente do futebol. Eu tive a ideia de convidar algumas pessoas para montar um grupo de estudos, inspirado na ideia do meu amigo que me convidou para o grupo do Jóquei Clube. O nome dele era Flávio Barbosa Barroso, ele faleceu há dois anos. No Cipó, chamamos vários jovens para estudar debaixo do pé de juazeiro, mas somente seis homens e uma mulher aceitaram.
OP – Como eram os estudos?

Manoel – Eu não posso dizer que eu ensinava, eu era o estimulador. O que eu fiz? Eu botei os meninos para estudar juntos. Eu sabia que não era a minha aula que ia resolver, eles tinham que ter estímulo, motivação. E como eu ajudava? Eu os colocava no meu carro, trazia para a universidade, para mostrar o museu, visitar os cursos. E eles me viram como alguém da região, que não era da mesma idade porque eles eram mais novos, mas como alguém que tinha tido sucesso. Não era um cara rico, mas tinha um emprego, eu já era professor da universidade (UFC) desde essa época. Eu disse a eles que eles também podiam entrar na universidade, que eles podiam ter sucesso na vida. E eles tinham muita vontade de mudar de vida. 

OP – Eles tinham terminado o ensino médio ou estavam cursando?
Manoel – Não, não. Um tinha 20 anos e tinha abandonado a escola na 4ª série. Outro estava com 18 anos e fazendo a 6ª série. Tinha outro com 18 anos também, fazendo a 6ª série, mas ainda estava na escola. Só um tinha terminado o ensino médio, mas pelo sistema supletivo. Eram jovens completamente excluídos educacionalmente. Numa casa de farinha que a gente tinha lá (no Cipó), que estava abandonada, eles começaram a ensinar uns aos outros. O sucesso deles foi atraindo outros jovens também. E alguns desses jovens passaram a morar na casa de farinha.

OP – Numa cidade pequena, isso não gerou comentários maldosos?
Manoel – Gerou sim. Porque alguns pais não gostavam muito da ideia de eles estudarem. Queriam que eles trabalhassem no campo e os jovens queriam mudar de vida. Eles também se sentiam rejeitados na própria comunidade, então ir para lá (casa de farinha) era uma forma de refúgio. Porque alguns desses jovens ficavam sem fazer nada. Aí o pessoal do Interior dizia que era perda de tempo, porque não valorizavam muito isso. E começaram a criticar, porque os meninos estavam morando junto, acharam que eram homossexuais. Os jovens começaram, então, a se agregar. Foi nesse período que eles se fortaleceram. Depois de dois anos, um desses estudantes, o Francisco Antônio, o Toinho, fez vestibular para Pedagogia e foi aprovado. Foi uma festa.

OP – Foi daí que a comunidade passou a valorizar a ideia?
Manoel – Quando ele entrou na universidade, conseguimos residência para ele, se alimentava no restaurante universitário e retornava todo fim de semana comigo. Era um jovem da comunidade, da idade deles, e isso trouxe uma grande motivação para a comunidade. Seis meses depois, o Francisco José também fez vestibular e foi aprovado na UFC, no último vestibular semestral. Estávamos com dois estudantes aprovados no vestibular. Depois, mais dois outros estudantes foram aprovados na UFC. Em 1998, tínhamos quatro estudantes na UFC, retornando todo fim de semana para ajudar outros estudantes. A gente criou o Projeto Educacional Coração de Estudante (Prece), por causa da música (Coração de Estudante) do Milton Nascimento. Esse nome pegou, e nós criamos uma instituição registrada. Mas com o tempo, o nome da instituição ficou sem sentido. A coisa cresceu tanto, criou tantos projetos, que fomos obrigados a mudar de nome em 2004. O projeto foi registrado na Pró-reitoria de Extensão (da UFC). Em 2004, mudado de projeto para programa de extensão, porque tinham vários (projetos) já. O Prece ficou Programa de Educação em Células Cooperativas. Só que o nome Prece significa muito mais que um programa. Ele virou uma marca. Foram criadas mais de 10 instituições a partir do Prece. Tem uma agência de desenvolvimento local, foi criado um programa de rádio, que hoje não existe mais. Esse ingresso dos meninos na universidade e o retorno deles, nos fins de semana comigo fez com que o programa crescesse muito.

OP – E foi daí que se criaram os Preces em Fortaleza.

Manoel – Isso. Criou-se um no Benfica, no Pirambu e depois tiveram vários núcleos que foram se multiplicando.

OP – O Prece nasce do debaixo de um pé de juazeiro, sem apoio de ninguém deu muito certo. O que isso significa para o senhor?
Manoel – É uma pergunta complexa (pausa). O Prece para mim é uma prova contundente que a interação, a cooperação e a solidariedade entre as pessoas são forças e instrumentos fortes para a aprendizagem. É uma compreensão que eu tenho com muita clareza. A gente aprende muito interagindo com as pessoas. Muito mais que você simplesmente recebendo aula. Não tenho dúvidas em relação a isso.

OP – Quem financiava o Prece? Ele precisou de dinheiro no início?

Manoel – No início, as despesas do Prece eram de coisas que não eram contabilizadas. Os meninos precisavam vir fazer prova em Fortaleza. Aí eu trazia no meu carro e passavam dois dias na minha casa. Livros, eu pedia aos meus amigos, como doações, e levava. Depois, os meninos entraram na universidade e precisaram de uma bolsa para viver. E a universidade foi ajudando com bolsa. Começou a aumentar o número de alunos que passou no vestibular e meu carro já não dava para levá-los. A UFC, então, deu o transporte num primeiro momento, depois já não podia dar mais. A gente então tinha que alugar carro, ônibus.

OP – Hoje, o Prece tem quantos estudantes?
Manoel – É difícil dar essa resposta. Nós temos ações mais organizadas em Pentecostes, Apuiarés, Paramoti, Umiri. O Prece é uma entidade descentralizada.

OP – Que papel o senhor pensa em ainda alcançar com o Prece?

Manoel – A educação é um dever do estado. Então, nós hoje estamos cada vez mais envolvidos com o estado, sendo a palavra “estado” no sentido geral. Estamos hoje ajudando o estado com a nossa experiência, a multiplicar uma ideia. Não é alguém de fora. Se ele não tivesse deficiência, não precisaria da nossa ajuda. Estamos trabalhando em cima disso. O primeiro desafio foi a UFC, que olhou o Prece e pensou: “será que podemos levar o gene do Prece para a graduação?”. Assim nasceu o Programa de Aprendizagem Cooperativa, da graduação da UFC. Hoje temos o programa com 250 bolsistas de vários cursos, em todos os cantos da UFC. Foi criado também na Coordenadoria de Protagonismo Estudantil da Seduc (Secretaria da Educação do Ceará) um movimento para estimular estudantes de escola pública a também montarem grupos de estudos.

OP – O senhor achava que o Prece ganharia uma dimensão tão importante?

Manoel – Não, desse jeito não. Eu tinha uma visão de que os meninos poderiam entrar na universidade, podiam mudar de vida, ser agentes de transformação das suas comunidades.

OP – Quais foram os louros colhidos pelo Prece para além da aprovação do vestibular?
Manoel – Através desses ‘matutos do interior’, nós temos um grande processo de multiplicação da rede. Já saímos do Estado do Ceará e tem um programa criado em Mato Grosso inspirado no daqui. Os professores estão sendo contaminados com a metodologia da aprendizagem cooperativa. Temos uma escola de educação profissional lá em Pentencoste. Este ano, pretendemos atingir 25 mil alunos. Tudo isso aconteceu por conta daqueles primeiros sete estudantes que acreditaram e conseguiram compartilhar o que sabiam. Dos sete estudantes, um abandonou e os outros seis se graduaram. Um deles, terminou agora o doutorado em química. Esse menino tinha abandonado os estudos na quarta série e estava com 20 anos e hoje é pesquisador na Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Outro menino que estava na sexta série, com 18 anos, hoje está terminando o doutorado em Fitopatologia, na Universidade Rural de Pernambuco. O outro é agrônomo, a outra é professora de História, um outro é mestre em Educação e outro é graduado em Teologia. Só um que desistiu. O mais importante não é isso, não. Se só eles tivessem tido sucesso, era legal. Mas nós contabilizando cerca de 500 estudantes, todos lá de Pentecoste, que passaram pelos grupos do Cipó, que estão na universidade a partir desse movimento.

OP – O Prece dá a oportunidade a uma pessoa que mora no interior de estudar para ser o que ela quiser, não é isso?

Manoel – O que ela quiser. Agora, o meu sonho é que a gente possa ser forte o suficiente para influenciar o desenvolvimento das escolas públicas, entendeu? A gente sonha que a gente possa influenciar o desenvolvimento das escolas públicas, para que toda criança tenha uma escola pública de qualidade desde o momento que ela começa a estudar. Entenda: se nós tivermos uma população mais educada, ela vai saber exigir mais dos governos. Ao invés de querer tomar o papel de educador, a gente tem é de dizer assim: eu vou votar num prefeito, num governador que vai ter um olhar na educação, porque eu sei que desenvolvendo a educação, tudo vai se desenvolver. A gente vai montar o Prece enquanto ele for preciso. A visão é de que é preciso melhorar a educação brasileira e não assumir o papel que é de lugar da escola.

OP – O senhor considera sua formação um exemplo e conquista?

Manoel – Acho que essa titulação acadêmica que eu conquistei foi uma coisa que aconteceu paralelo. O Prece foi um trabalho de extensão, que foi feito movido pelo coração. O que eu aprendi na academia não tem influência direta aqui. Agora, o mundo vive disso, os títulos valem alguma coisa. Talvez as relações que eu construí na pós-graduação tenham influenciado... Nada que foi feito aqui nasceu do banco da academia. Nasceu de uma paixão pela educação, de uma relação com o lugar, entendeu?

OP – O senhor acha que mudaram as prioridades das pessoas das comunidades onde o programa atuou?
Manoel – Na área da educação, sem dúvida, o impacto do Prece é grande. Hoje, os jovens têm o desejo de ir para a universidade. Em qualquer comunidade rural, tem muito menino sonhando com isso. Porque eles têm vários colegas na universidade e que mudaram de vida. O que a gente gostaria muito de impactar era na renda, na politização. Mas se o cara não tem como se sustentar, ele fica sempre dependente. A gente gostaria de afetar, mas isso pode levar 20, 30 ou 50 anos. Na educação, já afetou.

OP – Aonde o Prece quer chegar?

Manoel – Eu posso responder onde eu gostaria que ele chegasse. Quando eu penso num futuro para o Prece, não penso em criar um programa em qualquer lugar. A ideia não é chegar ao mundo. Se nós conseguíssemos que esse caso de Pentecoste desse certo – e esse dar certo significa não só o menino ir para a universidade, mas criar uma situação com que o aluno vá e volte, com apoio de governo e ver as escolas funcionando a contento - acho que isso já é um sonho que vale à pena. A toda criança que entra na escola é dada a oportunidade de aprender e de usar a aprendizagem para a própria vida. Se a gente puder contribuir com isso, eu me sentiria satisfeito. Porque, a partir dessas escolas, todas as outras coisas acontecerão.

Por Angélica Feitosaangelica@opovo.com.br

sábado, 29 de dezembro de 2012

Paradigmas do Passado e do Futuro



Aproximamo-nos do cumprimento de mais um círculo anual. Entretanto, mais do que olhar para esses períodos anuais, precisamos estender nossa visão e compreender o processo evolucionário da terra e da humanidade. O teólogo brasileiro Leonardo Boff definiu essa fase como planetária: “Os povos dispersos nos diversos continentes e encerrados seus estados-nações começam a se mover rumo à Casa Comum, ao planeta Terra”.

Duas atitudes básicas estão presentes no processo de globalização. Uma que se orienta pelo passado e outra que se volta para o futuro. Entre esses dois paradigmas, necessitamos escolher qual será o nosso orientador neste novo mundo. Olhar para trás é deixar se levar por conceitos e práticas da inimizade e do confronto. Carl Schmitt afirmava que “a essência da existência política de um povo é a sua capacidade de definir o amigo e o inimigo”. Huntington caminhava na mesma direção ao afirmar: “Os inimigos são essenciais para os povos que estão buscando sua identidade e reinventando sua etnia... pois só sabemos quem somos quando sabemos quem não somos e, muitas vezes, quando sabemos contra quem somos”.

Essas duas afirmações são perigosas demais para a nossa existência na terra. Deixa o nosso tempo com as tristes marcas das guerras. Ensinam-nos a dividir o mundo em bem e mal. Todos aqueles que não pensam igualmente a nós, não creem como cremos ou não levam o estilo de vida que levamos são essencialmente maus. Não há espaço para o diálogo, pois na crença que o outro é inferior a mim não percebo a vida, a criatividade e a diversidade existentes nele.

Mas não precisamos ficar presos a esse paradigma. Podemos olhar para frente, para o novo, para o paradigma do hóspede e da aliança. “Necessitamos mudar nossos hábitos para não sermos responsáveis por grandes crises e desastres clamorosos”. Os recursos naturais do nosso planeta não são infinitos, nossa água potável é escassa, nossas guerras podem levara destruição do planeta. “Ao paradigma do inimigo e do confronto, precisamos contrapor o paradigma do aliado, do hóspede e do comensal. Do confronto devemos passar a conciliação e da conciliação chegar à convivência e da convivência a comunhão e da comunhão à comensalidade” (Boff).

Esse novo paradigma se inicia em nossa prática diária. Não podemos falar em grande transformação planetária, se não houver uma grande transformação dentro de cada indivíduo. Esses conceitos necessitam ser valorizados no indivíduo, na família, na comunidade e na cidade.  Olhar para outro como aliado, hóspede importante, perceber o entrelaçar da vida, onde antes só existia o confronto e a inimizade.

Como Lutar Pela Democracia?

Nos dias que antecederiam o afastamento da Presidenta Dilma Roussef de suas funções no Governo Federal, recordo que fomos até a Avenida...