sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Mas este homem tão rico, de que me falas, não morre?



Jean de Léry incluiu, em seus relatos de uma viagem realizada em 1557, um diálogo travado com um velho tupinambá, a respeito do grande interesse demonstrado pelos franceses na retirada do pau-brasil, revelando o choque de visões entre o nativo e o europeu: “Por que vindes vós outros mairs (franceses) e pêros (portugueses) buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra?” Jean de Léry respondeu que os franceses não as queimavam mas dela extraíam tinta. Ao que índio retrucou: “E por ventura precisais de muito?“ Tendo Léry respondido afirmativamente, pois que existiam na Europa grandes comerciantes que acumulavam aquela madeira, o velho tupinambá estranhou aquele desejo pela acumulação: “Mas esse homem tão rico, de que me falas, não morre?”

Na seqüência do diálogo, Jean de Léry explicou que, com a morte, os bens passavam para os filhos, irmãos ou parentes mais próximos. O índio, não satisfeito com a resposta, acrescentou: “Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados.”

Texto extraído de publicação do Museu de Porto Seguro, Ministério da Cultura — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Porto Seguro, 2000.

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