segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Como se educa sem violência (Dr. Arun Gandhi)



O Dr. Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi e fundador do MK Gandhi Institute, contou a seguinte história sobre a vida sem violência, na forma da habilidade de seus pais, em uma palestra proferida em junho de 2002 na Universidade de Porto Rico.

"Eu tinha 16 anos e vivia com meus pais, na instituição que meu avô havia fundado, e que ficava a 18 milhas da cidade de Durban, na África do Sul. Vivíamos no interior, em meio aos canaviais, e não tínhamos vizinhos, por isso minhas irmãs e eu sempre ficávamos entusiasmados com a possibilidade de ir até a cidade para visitar os amigos ou ir ao cinema.

Certo dia meu pai pediu-me que o levasse até a cidade, onde participaria de uma conferência durante o dia todo. Eu fiquei radiante com esta oportunidade. Como íamos até a cidade, minha mãe me deu uma lista de coisas que precisava do supermercado e, como passaríamos o dia todo, meu pai me pediu que tratasse de alguns assuntos pendentes, como levar o carro à oficina. Quando me despedi de meu pai ele me disse: "Nos vemos aqui, às 17 horas, e voltaremos para casa juntos".

Depois de cumprir todas as tarefas, fui até o cinema mais próximo. Distraí-me tanto com o filme (um filme duplo de John Wayne) que esqueci da hora. Quando me dei conta eram 17h30. Corri até a oficina, peguei o carro e apressei-me a buscar meu pai. Eram quase 6 horas.

Ele me perguntou ansioso: "Porque chegou tão tarde?"

Eu me sentia mal pelo ocorrido, e não tive coragem de dizer que estava vendo um filme de John Wayne. Então, lhe disse que o carro não ficara pronto, e que tivera que esperar. O que eu não sabia era que ele já havia telefonado para a oficina. Ao perceber que eu estava mentindo, disse-me: "Algo não está certo no modo como o tenho criado, porque você não teve a coragem de me dizer a verdade. Vou refletir sobre o que fiz de errado a você. Caminharei as 18 milhas até nossa casa para pensar sobre isso".

Assim, vestido em suas melhores roupas e calçando sapatos elegantes, começou a caminhar para casa pela estrada de terra sem iluminação. Não pude deixá-lo sozinho...guiei por 5 horas e meia atrás dele...vendo meu pai sofrer por causa de uma mentira estúpida que eu havia dito. Decidi ali mesmo que nunca mais mentiria.

Muitas vezes me lembro deste episódio e penso: "Se ele tivesse me castigado da maneira como nós castigamos nossos filhos, será que teria aprendido a lição?" Não, não creio. Teria sofrido o castigo e continuaria fazendo o mesmo. Mas esta ação não-violenta foi tão forte que ficou impressa na memória como se fosse ontem.

Este é o poder da vida sem violência"

A Canção do Homem (Tolba Phanem)

"Esse é um mito africano, contado pela poetisa Tolba Phanem, que nos ensina valores muito importantes para a vivência de uma cultura de paz."


Quando uma mulher de certa tribo da África sabe que está grávida, segue para a selva com outras mulheres, e juntas rezam e meditam até que aparece ” A canção da criança”.
Quando nasce a criança, a comunidade se junta e lhe cantam sua canção. Logo, quando a criança começa sua educação, o povo se junta e lhe canta a sua canção.
Quando se torna adulto, a gente se junta novamente e canta.
Quando chega o momento de seu casamento, a pessoa escuta sua canção.
Finalmente, quando a sua alma está para ir-se deste mundo, a família e amigos aproximam-se e, como em seu nascimento, cantam sua canção para acompanhá-la na “viagem”.
Nesta tribo da África, tem outra ocasião na qual os homens cantam a canção.
Se em algum momento da vida a pessoa comete um crime ou um ato social aberrante, levam-no até o centro do povoado e a gente da comunidade forma um círculo ao seu redor. Então lhe cantam “sua canção.”
A tribo reconhece que a correção para as condutas antisociais não é o castigo; é o amor e a lembrança de sua verdadeira identidade. Quando reconhecemos nossa própria canção, já não temos desejo nem necessidade de prejudicar ninguém.
Teus amigos conhecem a “tua canção”. E a cantam quando a esqueces. Aqueles que te amam não podem ser enganados pelos erros que cometes, ou as escuras imagens que mostras aos demais. Eles recordam tua beleza quanto te sentes feio, tua totalidade quando estás quebrado, tua inocência quando te sentes culpado e teu propósito quando estás confuso.

Encantador de Alunos


O que ele fez foi muito pouco. Tão mínimo, acredita que nem mereça menção. Na visão do professor Manoel Andrade Neto, 53 anos, os feitos e conquistas nada mais são que um reflexo do amor por uma terra chamada Cipó. De tão pequeno, o lugar nem distrito de Pentecostes (a 103 km de Fortaleza) chega a ser. Ainda assim, desse lugarejo de morada de apenas 10 famílias, partiu a ideia de modificar a vida de um povo. Manoel ousou: ao invés de seguir as carreiras dos pais, os filhos dos agricultores poderiam ser o que desejassem.
E foi desse jeito que resolveu reunir um grupo de alunos para que jovens e outros nem tanto assim ensinassem uns aos outros. Manoel seria somente o motivador. Arrumaria transporte, alimentação, livros. E na educação mútua, de troca de saberes, ensinamentos e, principalmente, de vontade de estudar, surgiu o Programa de Educação em Células Cooperativas, antes Projeto Educacional Coração de Estudante (Prece). Foram sete os primeiros alunos, em 1994, que devem se converter em mais de 25 mil participantes em 2013.
De tanto que cresceu, o Prece original deixou de ter controle sobre outras sedes abertas Brasil afora. E, apesar de ter ajudado a formular o programa, o sonho do professor é justamente não precisar mais dele. “O que eu sonho não é que o Prece cresça. O meu sonho é que a gente possa ser forte o suficiente para influenciar o desenvolvimento das escolas públicas. Minha vontade era que, daqui a dez anos, dissesse que o Prece foi feito por um grupo de pessoas que sonhou, mas que hoje a gente não precise mais dele, porque a escola é muito boa”, ensina.

 O POVO – Vamos começar pelo início. O Prece surgiu em 1994, na comunidade rural de Cipó, em Pentecoste, com apenas sete estudantes. O que incentivou o senhor a ter essa ideia?
Manoel Andrade Neto – Bem, o Prece nasceu de uma mistura de coisas. De uma experiência que eu tive quando eu tinha uns 16 anos. Eu saí do interior com noves anos para morar na casa dos meus avós, em Fortaleza. Eles tinham fugido da seca na década de 1940 e acabaram no bairro Panamericano. Ela (avó) era uma mulher muito obstinada, queria muito que os filhos estudassem, mas eles não puderam estudar muito. Meu pai mal assina o nome. E quando eu tinha uns 16 anos, eu estudava numa escola de bairro, no Panamericano, e conheci um jovem que me convidou para participar de um grupo. “O que o grupo faz?”, eu perguntei. “A gente estuda no (bairro) Jóquei Clube”, ele disse. Ele me perguntou o que eu mais gostava de estudar e eu falei que era Biologia. A minha ligação com o Interior? Ele disse: “Ah, você gosta de Biologia, então você vai ensinar a gente Biologia”. Cada um tinha uma função no grupo. Ele era de Matemática, tinha uma pessoa da História... Então, depois eu criei outro grupo, com outros amigos da escola, e começamos a estudar. Quando eu já terminava o ensino médio, nós estudávamos ali próximo ao Liceu (do Ceará, no bairro Jacarecanga), na casa de um pai de um amigo nosso. E eu queria era estudar. Tinha tentado várias coisas de trabalho. Vendi maçã na rua, na praça José de Alencar; vendi livros; fui do exército, mas nada dava certo. Essa experiência de grupo de estudo foi muito forte. Nós fizemos vestibular e do nosso grupo, apenas um não foi aprovado. Eu fui aprovado para Química. Entrei na universidade e nosso grupo se desfez. 


OP – E qual era a situação financeira da sua família?
Manoel – Meus pais eram pobres, são agricultores, bem simples, e meus avós também.

OP – E foi a experiência do grupo de estudo da casa próxima ao Liceu que estimulou o senhor?
Manoel – A experiência foi muito forte mesmo. Aquilo ficou na minha cabeça. Terminei a Química, fui trabalhar fora, voltei, fiz mestrado e quando comecei o doutorado e ganhei um pouco mais de dinheiro, comecei a retornar para Pentecoste nos fins de semana. Quando era menino, passava quatro meses de férias lá. Cipó não chega nem a ser um distrito, é uma localidadezinha que nem tinha escola quando eu tinha nove anos de idade. Eu fui alfabetizado na casa de uma vizinha. Comprei uma moto, então todo o fim de semana, eu voltava para lá. Eu queria muito ajudar a comunidade. 

OP – Foi quando começou com o grupo de estudo?
Manoel – Eu comecei a organizar campeonatos de futebol. Ia para os jogos aos domingos, comecei a organizar campeonatos de todos os times da área rural de Pentecoste. Mas, com o passar do tempo, eu já estava cansado de organizar. Ficava revoltado ao ver a dependência muito grande da política, principalmente na época de eleição. As pessoas ficavam vendendo voto.
OP – Para conseguir jogar?
Manoel – Não, por outros motivos. Mas eu pensei que tinha que fazer alguma coisa que fosse diferente do futebol. Eu tive a ideia de convidar algumas pessoas para montar um grupo de estudos, inspirado na ideia do meu amigo que me convidou para o grupo do Jóquei Clube. O nome dele era Flávio Barbosa Barroso, ele faleceu há dois anos. No Cipó, chamamos vários jovens para estudar debaixo do pé de juazeiro, mas somente seis homens e uma mulher aceitaram.
OP – Como eram os estudos?

Manoel – Eu não posso dizer que eu ensinava, eu era o estimulador. O que eu fiz? Eu botei os meninos para estudar juntos. Eu sabia que não era a minha aula que ia resolver, eles tinham que ter estímulo, motivação. E como eu ajudava? Eu os colocava no meu carro, trazia para a universidade, para mostrar o museu, visitar os cursos. E eles me viram como alguém da região, que não era da mesma idade porque eles eram mais novos, mas como alguém que tinha tido sucesso. Não era um cara rico, mas tinha um emprego, eu já era professor da universidade (UFC) desde essa época. Eu disse a eles que eles também podiam entrar na universidade, que eles podiam ter sucesso na vida. E eles tinham muita vontade de mudar de vida. 

OP – Eles tinham terminado o ensino médio ou estavam cursando?
Manoel – Não, não. Um tinha 20 anos e tinha abandonado a escola na 4ª série. Outro estava com 18 anos e fazendo a 6ª série. Tinha outro com 18 anos também, fazendo a 6ª série, mas ainda estava na escola. Só um tinha terminado o ensino médio, mas pelo sistema supletivo. Eram jovens completamente excluídos educacionalmente. Numa casa de farinha que a gente tinha lá (no Cipó), que estava abandonada, eles começaram a ensinar uns aos outros. O sucesso deles foi atraindo outros jovens também. E alguns desses jovens passaram a morar na casa de farinha.

OP – Numa cidade pequena, isso não gerou comentários maldosos?
Manoel – Gerou sim. Porque alguns pais não gostavam muito da ideia de eles estudarem. Queriam que eles trabalhassem no campo e os jovens queriam mudar de vida. Eles também se sentiam rejeitados na própria comunidade, então ir para lá (casa de farinha) era uma forma de refúgio. Porque alguns desses jovens ficavam sem fazer nada. Aí o pessoal do Interior dizia que era perda de tempo, porque não valorizavam muito isso. E começaram a criticar, porque os meninos estavam morando junto, acharam que eram homossexuais. Os jovens começaram, então, a se agregar. Foi nesse período que eles se fortaleceram. Depois de dois anos, um desses estudantes, o Francisco Antônio, o Toinho, fez vestibular para Pedagogia e foi aprovado. Foi uma festa.

OP – Foi daí que a comunidade passou a valorizar a ideia?
Manoel – Quando ele entrou na universidade, conseguimos residência para ele, se alimentava no restaurante universitário e retornava todo fim de semana comigo. Era um jovem da comunidade, da idade deles, e isso trouxe uma grande motivação para a comunidade. Seis meses depois, o Francisco José também fez vestibular e foi aprovado na UFC, no último vestibular semestral. Estávamos com dois estudantes aprovados no vestibular. Depois, mais dois outros estudantes foram aprovados na UFC. Em 1998, tínhamos quatro estudantes na UFC, retornando todo fim de semana para ajudar outros estudantes. A gente criou o Projeto Educacional Coração de Estudante (Prece), por causa da música (Coração de Estudante) do Milton Nascimento. Esse nome pegou, e nós criamos uma instituição registrada. Mas com o tempo, o nome da instituição ficou sem sentido. A coisa cresceu tanto, criou tantos projetos, que fomos obrigados a mudar de nome em 2004. O projeto foi registrado na Pró-reitoria de Extensão (da UFC). Em 2004, mudado de projeto para programa de extensão, porque tinham vários (projetos) já. O Prece ficou Programa de Educação em Células Cooperativas. Só que o nome Prece significa muito mais que um programa. Ele virou uma marca. Foram criadas mais de 10 instituições a partir do Prece. Tem uma agência de desenvolvimento local, foi criado um programa de rádio, que hoje não existe mais. Esse ingresso dos meninos na universidade e o retorno deles, nos fins de semana comigo fez com que o programa crescesse muito.

OP – E foi daí que se criaram os Preces em Fortaleza.

Manoel – Isso. Criou-se um no Benfica, no Pirambu e depois tiveram vários núcleos que foram se multiplicando.

OP – O Prece nasce do debaixo de um pé de juazeiro, sem apoio de ninguém deu muito certo. O que isso significa para o senhor?
Manoel – É uma pergunta complexa (pausa). O Prece para mim é uma prova contundente que a interação, a cooperação e a solidariedade entre as pessoas são forças e instrumentos fortes para a aprendizagem. É uma compreensão que eu tenho com muita clareza. A gente aprende muito interagindo com as pessoas. Muito mais que você simplesmente recebendo aula. Não tenho dúvidas em relação a isso.

OP – Quem financiava o Prece? Ele precisou de dinheiro no início?

Manoel – No início, as despesas do Prece eram de coisas que não eram contabilizadas. Os meninos precisavam vir fazer prova em Fortaleza. Aí eu trazia no meu carro e passavam dois dias na minha casa. Livros, eu pedia aos meus amigos, como doações, e levava. Depois, os meninos entraram na universidade e precisaram de uma bolsa para viver. E a universidade foi ajudando com bolsa. Começou a aumentar o número de alunos que passou no vestibular e meu carro já não dava para levá-los. A UFC, então, deu o transporte num primeiro momento, depois já não podia dar mais. A gente então tinha que alugar carro, ônibus.

OP – Hoje, o Prece tem quantos estudantes?
Manoel – É difícil dar essa resposta. Nós temos ações mais organizadas em Pentecostes, Apuiarés, Paramoti, Umiri. O Prece é uma entidade descentralizada.

OP – Que papel o senhor pensa em ainda alcançar com o Prece?

Manoel – A educação é um dever do estado. Então, nós hoje estamos cada vez mais envolvidos com o estado, sendo a palavra “estado” no sentido geral. Estamos hoje ajudando o estado com a nossa experiência, a multiplicar uma ideia. Não é alguém de fora. Se ele não tivesse deficiência, não precisaria da nossa ajuda. Estamos trabalhando em cima disso. O primeiro desafio foi a UFC, que olhou o Prece e pensou: “será que podemos levar o gene do Prece para a graduação?”. Assim nasceu o Programa de Aprendizagem Cooperativa, da graduação da UFC. Hoje temos o programa com 250 bolsistas de vários cursos, em todos os cantos da UFC. Foi criado também na Coordenadoria de Protagonismo Estudantil da Seduc (Secretaria da Educação do Ceará) um movimento para estimular estudantes de escola pública a também montarem grupos de estudos.

OP – O senhor achava que o Prece ganharia uma dimensão tão importante?

Manoel – Não, desse jeito não. Eu tinha uma visão de que os meninos poderiam entrar na universidade, podiam mudar de vida, ser agentes de transformação das suas comunidades.

OP – Quais foram os louros colhidos pelo Prece para além da aprovação do vestibular?
Manoel – Através desses ‘matutos do interior’, nós temos um grande processo de multiplicação da rede. Já saímos do Estado do Ceará e tem um programa criado em Mato Grosso inspirado no daqui. Os professores estão sendo contaminados com a metodologia da aprendizagem cooperativa. Temos uma escola de educação profissional lá em Pentencoste. Este ano, pretendemos atingir 25 mil alunos. Tudo isso aconteceu por conta daqueles primeiros sete estudantes que acreditaram e conseguiram compartilhar o que sabiam. Dos sete estudantes, um abandonou e os outros seis se graduaram. Um deles, terminou agora o doutorado em química. Esse menino tinha abandonado os estudos na quarta série e estava com 20 anos e hoje é pesquisador na Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Outro menino que estava na sexta série, com 18 anos, hoje está terminando o doutorado em Fitopatologia, na Universidade Rural de Pernambuco. O outro é agrônomo, a outra é professora de História, um outro é mestre em Educação e outro é graduado em Teologia. Só um que desistiu. O mais importante não é isso, não. Se só eles tivessem tido sucesso, era legal. Mas nós contabilizando cerca de 500 estudantes, todos lá de Pentecoste, que passaram pelos grupos do Cipó, que estão na universidade a partir desse movimento.

OP – O Prece dá a oportunidade a uma pessoa que mora no interior de estudar para ser o que ela quiser, não é isso?

Manoel – O que ela quiser. Agora, o meu sonho é que a gente possa ser forte o suficiente para influenciar o desenvolvimento das escolas públicas, entendeu? A gente sonha que a gente possa influenciar o desenvolvimento das escolas públicas, para que toda criança tenha uma escola pública de qualidade desde o momento que ela começa a estudar. Entenda: se nós tivermos uma população mais educada, ela vai saber exigir mais dos governos. Ao invés de querer tomar o papel de educador, a gente tem é de dizer assim: eu vou votar num prefeito, num governador que vai ter um olhar na educação, porque eu sei que desenvolvendo a educação, tudo vai se desenvolver. A gente vai montar o Prece enquanto ele for preciso. A visão é de que é preciso melhorar a educação brasileira e não assumir o papel que é de lugar da escola.

OP – O senhor considera sua formação um exemplo e conquista?

Manoel – Acho que essa titulação acadêmica que eu conquistei foi uma coisa que aconteceu paralelo. O Prece foi um trabalho de extensão, que foi feito movido pelo coração. O que eu aprendi na academia não tem influência direta aqui. Agora, o mundo vive disso, os títulos valem alguma coisa. Talvez as relações que eu construí na pós-graduação tenham influenciado... Nada que foi feito aqui nasceu do banco da academia. Nasceu de uma paixão pela educação, de uma relação com o lugar, entendeu?

OP – O senhor acha que mudaram as prioridades das pessoas das comunidades onde o programa atuou?
Manoel – Na área da educação, sem dúvida, o impacto do Prece é grande. Hoje, os jovens têm o desejo de ir para a universidade. Em qualquer comunidade rural, tem muito menino sonhando com isso. Porque eles têm vários colegas na universidade e que mudaram de vida. O que a gente gostaria muito de impactar era na renda, na politização. Mas se o cara não tem como se sustentar, ele fica sempre dependente. A gente gostaria de afetar, mas isso pode levar 20, 30 ou 50 anos. Na educação, já afetou.

OP – Aonde o Prece quer chegar?

Manoel – Eu posso responder onde eu gostaria que ele chegasse. Quando eu penso num futuro para o Prece, não penso em criar um programa em qualquer lugar. A ideia não é chegar ao mundo. Se nós conseguíssemos que esse caso de Pentecoste desse certo – e esse dar certo significa não só o menino ir para a universidade, mas criar uma situação com que o aluno vá e volte, com apoio de governo e ver as escolas funcionando a contento - acho que isso já é um sonho que vale à pena. A toda criança que entra na escola é dada a oportunidade de aprender e de usar a aprendizagem para a própria vida. Se a gente puder contribuir com isso, eu me sentiria satisfeito. Porque, a partir dessas escolas, todas as outras coisas acontecerão.

Por Angélica Feitosaangelica@opovo.com.br

sábado, 29 de dezembro de 2012

Paradigmas do Passado e do Futuro



Aproximamo-nos do cumprimento de mais um círculo anual. Entretanto, mais do que olhar para esses períodos anuais, precisamos estender nossa visão e compreender o processo evolucionário da terra e da humanidade. O teólogo brasileiro Leonardo Boff definiu essa fase como planetária: “Os povos dispersos nos diversos continentes e encerrados seus estados-nações começam a se mover rumo à Casa Comum, ao planeta Terra”.

Duas atitudes básicas estão presentes no processo de globalização. Uma que se orienta pelo passado e outra que se volta para o futuro. Entre esses dois paradigmas, necessitamos escolher qual será o nosso orientador neste novo mundo. Olhar para trás é deixar se levar por conceitos e práticas da inimizade e do confronto. Carl Schmitt afirmava que “a essência da existência política de um povo é a sua capacidade de definir o amigo e o inimigo”. Huntington caminhava na mesma direção ao afirmar: “Os inimigos são essenciais para os povos que estão buscando sua identidade e reinventando sua etnia... pois só sabemos quem somos quando sabemos quem não somos e, muitas vezes, quando sabemos contra quem somos”.

Essas duas afirmações são perigosas demais para a nossa existência na terra. Deixa o nosso tempo com as tristes marcas das guerras. Ensinam-nos a dividir o mundo em bem e mal. Todos aqueles que não pensam igualmente a nós, não creem como cremos ou não levam o estilo de vida que levamos são essencialmente maus. Não há espaço para o diálogo, pois na crença que o outro é inferior a mim não percebo a vida, a criatividade e a diversidade existentes nele.

Mas não precisamos ficar presos a esse paradigma. Podemos olhar para frente, para o novo, para o paradigma do hóspede e da aliança. “Necessitamos mudar nossos hábitos para não sermos responsáveis por grandes crises e desastres clamorosos”. Os recursos naturais do nosso planeta não são infinitos, nossa água potável é escassa, nossas guerras podem levara destruição do planeta. “Ao paradigma do inimigo e do confronto, precisamos contrapor o paradigma do aliado, do hóspede e do comensal. Do confronto devemos passar a conciliação e da conciliação chegar à convivência e da convivência a comunhão e da comunhão à comensalidade” (Boff).

Esse novo paradigma se inicia em nossa prática diária. Não podemos falar em grande transformação planetária, se não houver uma grande transformação dentro de cada indivíduo. Esses conceitos necessitam ser valorizados no indivíduo, na família, na comunidade e na cidade.  Olhar para outro como aliado, hóspede importante, perceber o entrelaçar da vida, onde antes só existia o confronto e a inimizade.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Pontes, Acquários e Prioridades



Hoje pela manhã indignei-me com o noticiário político de nossa capital cearense. O Governo do Estado anunciou duas grandes obras previstas para iniciarem no próximo ano: o Acquário, na Praia de Iracema, e uma ponte estaiada sobre o Rio Cocó. Sem querer ser injusto com o governo estadual, também houve o anúncio de construção de UPA´s (Unidades de Pronto Atendimento) e a Linha Leste do Metrô.

Entretanto, o que nos chama atenção é o alto volume de obras que não respondem as necessidades dos fortalezenses. Técnicos afirmam que esta ponte resolve apenas parcialmente o problema do trânsito naquela região, nos levando a imaginar que existem outros interesses por trás dessa obra. O Acquário já foi duramente criticado pela população, mas a altivez do governador faz com que ele passe por cima de qualquer crítica.

A minha indignação tem números concretos. Nas regionais da qual trabalho em projetos de desenvolvimento comunitária a desigualdade é alarmante. Por exemplo, a Regional V, que tem 21,5 da população de Fortaleza, é a mais populosa e também a mais pobre. Tem o segundo maior índice de analfabetismo da cidade e somente 24% dos imóveis tem saneamento básico. A Regional VI também tem números quase que idênticos a Regional V, principalmente na questão de saneamento. As duas possuem uma grande população de jovens, que estão à mercê da violência presente nas comunidades excluídas socialmente. Nenhuma instituição pública desses locais (escolas, creches, postos de saúde...) parecem funcionar adequadamente.

Prefeitura e governo do estado antes de preocuparem com Copa do Mundo, interesses de elites empresariais, precisam trabalhar para modificar essa triste realidade social. Acquário e ponte estaiada não resolvem problema do saneamento básico. Pouco investimento em educação gerará poucos profissionais qualificados. Só encontraremos soluções para o problema da violência urbana se fizermos os investimentos corretos no bem-estar de toda a população. E acima de tudo, todo governo democrático precisa ser participativo, e o faz quando atende os anseios de seu povo.

Precisamos ficar atentos a essa realidade que está diante de nós. Quais são as reais prioridades do governo do estado e prefeitura? Quais são os verdadeiros anseios do povo dessa cidade? Essas são perguntas fundamentais que determinarão se continuaremos sendo uma das cidades mais desiguais do mundo ou uma nova cidade onde a justiça fez morada com a paz e a igualdade.

Mas este homem tão rico, de que me falas, não morre?



Jean de Léry incluiu, em seus relatos de uma viagem realizada em 1557, um diálogo travado com um velho tupinambá, a respeito do grande interesse demonstrado pelos franceses na retirada do pau-brasil, revelando o choque de visões entre o nativo e o europeu: “Por que vindes vós outros mairs (franceses) e pêros (portugueses) buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra?” Jean de Léry respondeu que os franceses não as queimavam mas dela extraíam tinta. Ao que índio retrucou: “E por ventura precisais de muito?“ Tendo Léry respondido afirmativamente, pois que existiam na Europa grandes comerciantes que acumulavam aquela madeira, o velho tupinambá estranhou aquele desejo pela acumulação: “Mas esse homem tão rico, de que me falas, não morre?”

Na seqüência do diálogo, Jean de Léry explicou que, com a morte, os bens passavam para os filhos, irmãos ou parentes mais próximos. O índio, não satisfeito com a resposta, acrescentou: “Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados.”

Texto extraído de publicação do Museu de Porto Seguro, Ministério da Cultura — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Porto Seguro, 2000.

domingo, 25 de novembro de 2012

O Partido dos Trabalhadores x Supremo Tribunal Federal: Novos Rumos



O julgamento do mensalão está terminando. Ao final dele podemos perceber duas vertentes muito bem arraigadas. Por um lado vemos um povo satisfeito com o rumo que julgamento tomou, com uma parte da população elogiando e santificando os ministros do Supremo Tribunal Federal. Por outro lado, vemos outra parte, principalmente aquela ligada ao Partido dos Trabalhadores, que insatisfeitos comentam quão injusto foi esse processo e as condenações. Antes de tudo, gostaria de dizer que sempre fui atento observador das políticas petistas e que em boa parte concordei com elas e com os avanços que trouxeram ao Brasil e América Latina. Entretanto, isso não pode nos cegar de tal forma que tentemos esconder debaixo do tapete toda a sujeira de séculos.


Não concordo com os meus colegas petistas que tentam de toda maneira desvirtuar o trabalho do Supremo Tribunal Federal. Decisão do tribunal é para ser observada, respeitada e cumprida. Parto do pressuposto que só houve julgamento porque houve pelo menos a intenção do crime. Tentar convencer a população que caixa dois não é crime é alimentar um sistema injusto que apenas atende aos interesses dos mais ricos. O trabalho do STF acende em nós uma faísca de esperança que a justiça nesse país tem jeito. Entretanto, a posição que muitos têm de achar que todo petista é burro e ladrão também me preocupa. Xingamentos não contribuem para o processo democrático.  

Concordo com os meus colegas petistas que o julgamento teve um ar político, principalmente por ser realizado em época de eleição e ter uma cobertura intensa da mídia. Cobertura essa que simplesmente diminuiu logo que passaram as eleições. As penas foram muito duras com toda certeza. Sobre Teoria do Domínio de Fato, Dosimetria da Pena não me cabe fazer comentários porque foge do meu campo de conhecimento. Posso apenas confiar na decisão dos ministros e naquilo que sempre defendi: desvio de dinheiro público é crime gravíssimo e as penas têm que ser altas.

Sobre tudo o que foi realizado podemos traçar um novo panorama para a política brasileira. O Supremo Tribunal terá que julgar os casos de desvio de dinheiro oriundos de partidos como PSDB e DEM, para provar que o julgamento do Mensalão Petista não foi influenciado nem pela mídia ou mesmo por opositores do PT. O Partido dos Trabalhadores precisará rever o seu programa político e suas alianças, fato que a Presidente Dilma Roussef tem feito com muita cautela.  José Dirceu e José Genoíno precisam cumprir suas penas, duras penas, porque através delas poderá buscar uma maneira de provar que eram inocentes.

Hoje há um espaço deixado pelo PT que precisa ser preenchido com a renovação dele ou com a chegada de uma nova forma de fazer política. Como diria Leonardo Boff: “Criou-se um vazio que clama ser preenchido ou pelo PT reconvertido ou por outros atores e partidos que levantem a bandeira da ética e orientam suas práticas políticas por princípios e valores. Nisso nossa esperança não desfalece”.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Ex-morador de rua se forma em pedagogia na Universidade de Brasília



Os olhos de Sérgio Reis Ferreira têm um brilho intenso; o sorriso é de inesperada candura; as mãos evidenciam sofrimentos passados e um discreto nervosismo. A tentação de enxergá-lo como herói é grande –mas qualquer tentativa de apreender Sérgio na superfície é imediatamente frustrada: é preciso muito tempo e generosidade para reler o longo e árduo caminho que este ex-morador de rua percorreu até aqui, ao gabinete do reitor da UnB (Universidade de Brasília) nesse mês de novembro de 2012.
Foi no primeiro dia de novembro, então, que -com um sorriso tímido- o mineiro Sérgio enfim pôde entregou nas mãos de José Geraldo de Sousa Junior a monografia que atesta a conclusão do curso de pedagogia iniciado por ele na UnB há seis anos, em 2006.
O ineditismo do caso obrigou a instituição a se desdobrar para manter o estudante aqui após a surpreendente aprovação no primeiro vestibular de 2006. “A universidade que não lida com isto –que não acompanha esse aluno proveniente de situação adversa em todas as circunstâncias, até que complete o seu ciclo– é que fracassa, e não ele”, disse José Geraldo de Sousa Júnior, em referência à constante ameaça de descontinuidade que pairava sobre Sérgio durante os anos na UnB.
Institucionalmente, a universidade colaborou para a permanência de Sérgio com apoio sob a forma de alimentação, transporte, assistência social, orientação pedagógica etc.
“Não estamos aqui em torno do personagem Sérgio –mas, sim, do sujeito que, sobretudo, saiu da condição de vítima e trouxe sua vida até aqui, realizando uma ultrapassagem”, disse o reitor José Geraldo, para quem Sérgio é “alguém que, mesmo numa situação adversa, confiou”: “Se chegamos até aqui, é porque ele quis assim”.
O reitor revelou que vem acompanhando atentamente a trajetória do aluno, e que sabe das dificuldades que o percurso representou não só do ponto de vista econômico, mas também nos aspectos subjetivo, social e intelectual. “Ainda assim, Sérgio nunca tentou me atingir pelo sentimentalismo”, disse o reitor. “A rua não é mais o seu lugar!”, disse a Sérgio, que agradeceu: “Obrigado mais uma vez por me fazerem crescer”.
Monografia 

“As dificuldades dos moradores de rua do Distrito Federal de se inserirem por meio da educação formal”, trabalho de conclusão de curso de Sérgio, pulsa com a narrativa simples – movida por sua evidente inteligência e por uma candente sinceridade ao narrar sua trajetória. O trabalho ganhou menção máxima. “A universidade não passou a mão na cabeça do Sérgio, ele fez valer este título. Este trabalho é o Sérgio: as fraquezas são fruto de sua história educacional, mas as conquistas são dele”, frisou o professor Cristiano Muniz, o orientador.
Dedicada “a todos os moradores de rua do DF e a todos os que me ajudaram direta e indiretamente”, a monografia resgata o caso de Sérgio e de outros dois amigos em situação de igual vulnerabilidade social – um que conseguiu a inclusão e não mora mais na rua; e outro que, a despeito da grande capacidade crítica e conhecimento, não consegue entrar na universidade e ainda mora ao lado do restaurante Piantella, na Asa Sul, no Plano Piloto da capital federal. Na monografia, Sérgio faz também uma contundente crítica à universidade.
“Acredito que a universidade idealiza o estudante perfeito e se esquece da complexidade da existência humana, pois quando vem mendigo morador de rua para dentro da universidade, vem também com estes as doenças, os vícios, a falta de disciplina e, naturalmente, a dificuldade de se adequar à rigidez acadêmica. Sendo assim, é a academia que, em um primeiro momento, tem que se adequar para receber estes estudantes até que se adaptem à academia. Falo isto por experiência própria, pois tive muito dificuldade para me adequar aos horários, às regras acadêmicas escritas e não escritas, a exigência de produção e, principalmente, para me adequar à cultura acadêmica, ou seja, a maneira de se falar e de se comportar em grupo”, diz Sérgio em sua monografia.
O formando comentou com o reitor sobre o árduo esforço por ajustar-se e aprender a se limitar pelos parâmetros comportamentais que regem a vida na UnB: “Eu não tinha condições de estar dentro dessa sociedade; tive de aprender a falar, a esperar, a me vestir, a me adequar à Universidade”, disse. O professor Cristiano concordou: “De fato, a liberdade inerente às ruas é um grande obstáculo ao enquadramento destes alunos na academia”.
Livros sob um bueiro
“Senti tudo na pele: frio; não fome, mas vontade de comer; e o fato de estar privado do mínimo necessário à vida em sociedade”, disse Sérgio, lembrando que, muitas vezes, guardava os livros sob um bueiro. “Eu me envergonhava de dizer aos colegas que meu material havia sido roído por ratos e baratas”, disse, reclamando que, “no Brasil, não há políticas públicas direcionadas a esta população de rua – não há bebedouros nem banheiros e as pessoas são obrigadas a buscar locais em que há água gratuitamente disponível”.
Mas o caminho até a sala de aula não era feito apenas de percalços físicos – de longas caminhadas a pé, de banhos no Parque da Cidade e de roupas lavadas no lago Paranoá: a “inclusão excludente” de Sérgio na Universidade o fazia sofrer intensamente, levando-o muitas vezes a abandonar o abrigo da instituição para sentir-se paradoxalmente acolhido pelas ruas. “Às vezes a discriminação doía, e eu chorava por saber que eu era o invasor”, revelou Sérgio.
Há quase três meses, uma fatalidade – em meio ao mar de outras adversidades – ameaçou impedir a formatura de Sérgio de forma radical: no dia 28 de agosto de 2012, ao tentar roubar do pedagogo uma quentinha, outro morador de rua o esfaqueou. “Quanto à agressão física que quase me levou a óbito, eu somente aprendi uma dura lição: quando seres humanos ‘invisibilizados’ e silenciados pela sociedade - como os moradores de rua - lutam desesperadamente, eles utilizam até os meios mais vis e sorrateiros, no caso, a violência.”
No encontro com o reitor, Sérgio resumiu a surpreendente e notável trajetória com uma frase: “Eu não tinha mais nada em que me agarrar – só tinha a Universidade – e então me agarrei a ela com unhas e dentes”.
*Com reportagem de Grace Perpetuo, da Agência UnB
http://educacao.uol.com.br/noticias/2012/11/14/ex-morador-de-rua-se-forma-em-pedagogia-na-universidade-de-brasilia.htm

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Transformações de Vida na Rota da Paz


Reunir para poder falar sobre si mesmo, suas dificuldades, para escutar, rir e chorar. Valorizar a amizade, descobrir a partilha como o dom de multiplicar o pouco, respeitar o outro em suas diversas formas de vida. Buscar o desenvolvimento pessoal, sem esquecer que toda conquista é mais real e verdadeira se for coletiva. Praticar a paz de tal forma que ela se torne um hábito fazendo desaparecer pouco a pouco os resquícios de violência. Essa seria uma pequena definição, de minha parte, sobre o que é Rota da Paz.

Os jovens e adolescentes reuniam-se semanalmente para poder tratar sobre os temas citados acima. No grupo, todos podem falar e expressar seus sentimentos sem medo de qualquer tipo de preconceito ou repressão. Talvez fosse essa liberdade, não encontrada em nenhum outro lugar, que motivava a participação sempre crescente. Uma educadora certa vez comentou: “Acredito que a Rota tem essa sensibilidade de cultivar uma educação voltada para a vida, que sensibiliza para uma tomada de consciência e superação de limites individuais e coletivos”.

Essa superação, citada acima, percebi ao longo dos anos em que participei da Rota da Paz juntamente com jovens de algumas comunidades de Fortaleza. Foi fantástico ver a transformação de vida de vários deles, aproveitando cada oportunidade recebida, mas acima de tudo criando suas próprias oportunidades que levariam a realização dos seus sonhos. O alicerce dessa nova cultura vivenciada por esses jovens era a paz, qualquer ação, pensamento deveria ser guiado em torno dela.


Alguns depoimentos são emocionantes, como de um jovem que acabara de perder o seu pai: “Hoje eu sei que amizade é tudo. Quando perdi meu pai, foram os meus amigos da Rota que me ajudaram a superar esse momento”. Outra jovem falou: “Eu era rebelde e isolada de todo mundo, não gostava de conversar com ninguém e odiava escutar os outros. Na escola eu era expulsa quase que todos os dias. Hoje em dia eu gosto de ser aconselhada, presto atenção nas aulas (e até tiro notas boas em matemática), aprendi a confiar nas pessoas, voltei a ser amiga de minha mãe e percebi que amizade verdadeira existe. Aprendi tudo isso participando da Rota da Paz”.

Nesses relatos percebemos como foi importante a atuação da Rota da Paz na vida desses jovens. O ambiente de partilha e amizade construída ao longo do tempo nos ensinou que é possível viver uma cultura de paz, acima de tudo porque todos precisam se ver como multiplicadores da pacificação.

Acesse www.rotadapaz.blogspot.com e acompanhe outros depoimentos e notícias sobre como se deu o andamento desse projeto.


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Rota da Paz, Por Uma Cultura de Paz!




Uma das propostas desse blog em sua criação era compartilhar histórias que representassem a busca pela justiça e igualdade, experiências que possibilitassem a transformação de uma realidade social tão sofrida. Nada melhor do que começar por uma que conheci e participei ativamente nesses últimos anos: Rota da Paz.

No ano de 2009 conheci uma instituição denominada Missão Betsaida que desenvolvia projetos na área de desenvolvimento comunitário. Foi a partir dessa relação que entrei em contato com a Metodologia Rota da Paz. Para entendermos o contexto da criação desse projeto, hoje metodologia na área de cultura de paz, precisamos direcionar o nosso olhar para a cidade de Fortaleza.

O Mapa da Violência feito pelo Instituto Sangari demonstrou que o número de mortos por causa do uso da violência aumentou no Nordeste, chegando a declarar que essa região pode ser definida como a grande chaga da violência no país. Os números de homicídios aumentaram 65%, os suicídios 80% e os acidentes de trânsito 37%. Na população jovem os índices são ainda piores: um crescimento de 49% nos acidentes, 95% nos homicídios e 92% nos suicídios. Fortaleza é um dos municípios onde esses dados se confirmam, pois entre 2002 e 2010 a taxa de homicídios contra crianças e adolescentes triplicou. A capital subiu da 21ª posição para a 6ª posição no ranking nacional.

Sensibilizada pela dor dessas famílias que perdiam seus filhos e motivadas pelos parceiros para a criação de um projeto que pudessem agir no meio desses ciclos de violência, a equipe da Missão Betsaida, na pessoa de sua coordenadora Rose Lira, trabalhou na elaboração do Projeto Rota da Paz. Logo nos primeiros meses de aplicação as mudanças já eram visíveis na vida dos adolescentes e jovens beneficiados. Com o sucesso do projeto, Rose Lira foi desafiada a sistematizá-lo, concluindo dessa forma a formação da Metodologia Rota da Paz.

Abaixo, reservamos uma entrevista com a Rose Lira no Programa Papo na Rede, pertencente a Koinonia Online. Durante a semana continuaremos a falar um pouco sobre a Rota da Paz.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Crianças Invisíveis



No último dia das crianças tive a oportunidade de “dormir na rua” juntamente com outros amigos(as), como forma de protesto afim de despertar a atenção do poder público para o número altíssimos de crianças e adolescentes que sofrem diversos tipos de violência na cidade de Fortaleza. O ato foi organizado pela Associação O Pequeno Nazareno, Visão Mundial, Equipe Interinstitucional de Abordagem de Rua, Fórum DCA, com apoio da Campanha Criança Não é de Rua.

À noite relembramos o nome de vários adolescentes assassinados na capital cearense. Até setembro desse ano mais de 162 crianças e adolescentes foram assassinadas na Capital e Região Metropolitana. Um número assustador que a cada dia tem crescido e percebemos que o poder público pouca coisa tem feito para mudar essa realidade. Muitos desses adolescentes foram assassinados em comunidades que nós nos acostumamos a denominá-las de violentas. Entretanto, um dos participantes do movimento chamou atenção para algo: “nossas comunidades não são violentas, elas são excluídas, esquecidas pelos governos, não há educação de qualidade, segurança, saúde ou saneamento básico”.

Diante da inércia do poder público, crianças e adolescentes deixam suas comunidades a procura da sobrevivência em espaços públicos, como bem lembrou Manoel Torquato, coordenador da Associação O Pequeno Nazareno. Não podemos olhar para elas como grandes vilãs e causadores de toda violência estalada em nossa capital. Ao contrário, são também vítimas de um sistema que nunca procurou ajudá-las ou dar a mínima condição para que pudessem se desenvolverem com segurança e dignidade. Jogadas na rua, tornam-se alvos fáceis para outros tipos de violência, incluindo o uso de drogas, dentre elas o crack.

Essas também são nossas crianças, muitas vezes invisíveis, pois não recusamos a olhar para elas. Mas, estão lá e se faz necessário que lutemos para que os seus direitos sejam respeitados e garantidos. Dormir na rua foi sensação terrível para mim, o frio não é confortador. Imagina todos os dias ter que está ali para poder tentar garantir a sobrevivência. 

Você pode obter mais informações sobre a temática em:
http://www.criancanaoederua.org.br/
http://www.opequenonazareno.org.br/
http://www.forumdca.org.br/
http://www.visaomundial.org.br/

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Aliança Evangélica se manifesta contra o voto de cajado




A Aliança Cristã Evangélica do Brasil(ACEB), lançou uma carta pastoral sobre as eleições onde condena o “voto de cajado”. Para a ACEB, o voto “é exercício de cidadania. É secreto e tem de ser responsável. Não está à venda e não pode ser produto de negociações manipuladoras” e adverte que o "Voto de cajado" é voto aviltado e precisa ser denunciado.

O texto também lembra que que o “púlpito é sagrado” e que o voto não pode ser utilizado para favores indevidos para indivíduos ou grupos e que o exercício do voto deve ser para o bem de toda a cidade.
Para Christian Gillis, pastor batsita e membro da ACEB, “é preciso alertar contra toda forma de manipulação eleitoral, seja de que matriz for esta tentativa, e não apenas a de origem religiosa”. Gillis também afirma que “O voto segundo a própria consciência do eleitor é absolutamente necessário para a dinâmica democrática - é a base do sistema - para fazer opção por programas de governo e escolha de legisladores. Naturalmente os graus de consciência social e política variam e o cidadão deve ser, e se sentir, livre para votar soberanamente, sem que ninguém determine a ele o que seria voto consciente. O cidadão deve escolher de acordo com os valores com os quais se identifica, e não segundo as expectativas de quem quer que seja”.
Veja o texto na íntegra:

Carta Pastoral ACEB - A vocação cristã para o voto cidadão

E procurai a paz da cidade… e orai por ela ao Senhor: porque na sua paz vós tereis paz. (Jr 29:7)
Caros irmãos e irmãs,

Aos nos aproximarmos das eleições municipais em outubro queremos celebrar a nossa democracia e o privilégio de contribuir, através do nosso voto, para a construção de uma sociedade mais sólida e participativa. Votar solidifica a democracia e queremos fazer parte deste processo. Reconhecemos que nos últimos anos o Brasil tem mudado muito e para melhor, mas o que preocupa sobretudo, neste novo período eleitoral, é que o nosso sistema político partidário é arcaico e viciado. Não responde às demandas atuais, ignora as possibilidades gerenciais e tecnológicas disponíveis e carece de profundas mudanças sistêmicas, programáticas e éticas. Este sistema precisa mudar e nossos políticos precisam adequar-se às necessidades de uma sociedade mais justa, mais transparente e mais participativa.

Votar é uma forma de contribuirmos, como brasileiros e brasileiras, para a construção da nossa nação. Como cristãos evangélicos, comprometidos com os destinos do país, vamos votar nesta consciência e convidar todos ao nosso redor a fazerem o mesmo.

Como cristãos evangélicos, nos identificamos com a advertência do profeta Jeremias ao seu povo: Procurai a paz da cidade e orai por ela ao Senhor, porque na sua paz vós tereis paz. É por esta razão que, nas eleições que se aproximam, queremos caminhar para as urnas movidos por princípios que consideramos centrais:

- O voto é exercício de cidadania. É secreto e tem de ser responsável. Não está à venda e não pode ser produto de negociações manipuladoras. "Voto de cajado" é voto aviltado e precisa ser denunciado.

- A igreja é de Jesus Cristo e não pode ser identificada com nenhum partido político. O púlpito é sagrado e não pode ser usado como plataforma política de candidato algum.

- Votemos no que consideramos melhor para a cidade e não em busca de favores pessoais ou mesmo de grupos.

- Votemos em candidatos que afirmem e tenham histórias de vida que reflitam os valores do Reino de Deus, entre os quais justiça, liberdade e
verdade.

Caminhemos, pois, para o dia 07/10/2012 valorizando o nosso voto e o voto de todos, conscientes de que assim contribuiremos para a construção de uma sociedade democrática que não se esquece do outro, especialmente do pobre e do pequeno, e cujos resultados nos levem a dizer: Soli Deo Gloria!

Graça e paz!
Aliança Cristã Evangélica Brasileira

Disponível em: Blog do Fale

Como Lutar Pela Democracia?

Nos dias que antecederiam o afastamento da Presidenta Dilma Roussef de suas funções no Governo Federal, recordo que fomos até a Avenida...