segunda-feira, 7 de maio de 2018

Cidade: Território em Disputa




É notório que o aumento do número de cristãos em nossos territórios não significou a pacificação dos mesmos ou a tão sonhada chegada do Reino de Deus.  No início dos anos 2000 discutíamos nas igrejas, especialmente evangélicas, um novo tipo de teologia que pudessem contemplar o mundo urbano do qual vivemos e os desafios que o mesmo apresentava diante de nós. Passados alguns anos contemplamos com bastante preocupação e tristeza os caminhos que a dita igreja cristã evangélica percorreu. A famosa teologia urbana ficou apenas na teoria, na prática dominou a teologia do deus mercado.
Os grupos evangélicos adentraram as casas dos brasileiros através da compra de grandes aglomerados de comunicação, frutos de negociações e lucros não tão transparentes. Diante de uma sociedade marcada pelo individualismo e o desejo de posse, alimentado pela cultura do mercado consumista, as igrejas evangélicas, em seus grupos neopentecostais, souberam utilizar desses desejos para aumentarem os números de seus adeptos e os lucros exponenciais das contas bancárias de suas lideranças.
O envolvimento político continuou a ser desastroso. Nasceu uma igreja preocupado com o poder, parceira de grandes grupos empresariais, e despreocupada com a situação da pobreza e injustiça no país. Essa igreja criou partidos políticos, influenciou governantes e elegeu os seus próprios parlamentares. Mas, sua participação na prática beneficiava apenas uma parte da nova elite brasileira. Para sustentar o poder político adquirido foi preciso transformar a mensagem original do evangelho em mensagens com conteúdo mais conservador, mais violento e repressor. Observamos que os mesmos grupos “cristãos” que estão na mídia são os grupos que mais trazem mensagem com caráter misógino, homofóbico e racista.  
Essas mensagens não ficaram apenas nas fileiras das igrejas neopentecostais e pentecostais. As igrejas  conhecidas como de tradição de reforma também se adaptaram, ora se fechando para qualquer influência externa, ora se adequando aos discursos das igrejas neopentecostais, e potencializando em suas comunidades discursos de intolerância e ódio. O pensamento crítico presente nos discursos dos reformadores não está presente com a mesma força nas fileiras das lideranças reformadas brasileiras, excetuando-se alguns casos específicos. Exceções que servem para confirmar a regra.
Diante desse contexto os nossos territórios nos últimos tempos viram o aumento da violência em seu meio e a propagação de discursos de intolerância e ódio. É como se tivéssemos regressando a um passado onde a religião compromissada com o estado era utilizada como instrumento de colonização e manutenção do status quo da sociedade, concebendo como ideia divina que algumas pessoas devem ser pobres e outras devem ser ricas, que mulheres são inferiores aos homens, que a espiritualidade do outro é satânica e que qualquer um que rompa com o padrão pré-estabelecido por minha crença deve ser eliminado.
Então, deveríamos abandonar as nossas profissões de fé e esses territórios? A minha resposta é taxativamente não. O espaço da crença deve ser disputado. A cidade está em constante disputa entre as forças do mal e da opressão e forças da justiça e da dignidade. Em dados momentos da história essas forças maléficas adentram aos espaços religiosos mudando suas dinâmicas e trazendo para o lado delas aqueles que perpetuam discursos que levarão a morte. São nesses espaços que encontramos uma oportunidade para agirmos segundo os ensinamentos do Cristo, reafirmando o compromisso do evangelho com a justiça e com os empobrecidos do mundo.
Para fazer essa disputa precisamos entender que Deus ama a cidade. Que Ele deseja construir espaços de equidade e justiça. Robert Lincthicum, em seu livro Cidade de Deus, Cidade de Satanás, lembra-nos que a cidade é habitação do mal pessoal e sistêmico. Mas, ela pode ser também território da realização dos propósitos de Deus. Propósitos esses que destoam da igreja midiática, poderosa e amante do poder que vemos hoje em dia.  

sábado, 31 de março de 2018

Páscoa: A Memória de Um Sonho




Para todos que acompanham a história de Jesus Cristo através da Palestina podem perceber que sua prática em favor do povo marginalizado provocaria adesões e oposições. A chegada de Jesus em Jerusalém acelera o conflito entre os mesmos e demonstra que a neutralidade se torna algo impossível. Segundo as palavras de Balancin “não dá mais para ficar em cima do muro”. As opções têm que ser feitas: a favor ou contra a Jesus”.

Judas optou pela traição. Ele escolheu ficar do lado das autoridades. É a aliança de um discípulo com o centro do poder que leva Jesus Cristo a cruz. Os demais discípulos nos parecem que estão dispostos a defender o projeto de liberdade a qualquer custo. Mas, Jesus que confia na fidelidade do Pai, sabe muito bem que a covardia pode estar escondida por trás da boa vontade de alguns que o seguem. Mas ele está convicto que os discípulos, apesar do acovardamento latente, seguirão seu projeto, por isso planeja: “depois de ressuscitar, eu irei à frente de vocês para a Galileia” (Marcos 14,28).

Todos conhecemos o final dessa história, incluindo a ressurreição no terceiro dia. A sentença religiosa contra Jesus foi de blasfêmia e o Sinédrio o condenou por unanimidade à pena de morte. Lembremos: condenado pelo poder religioso e condenado pelo poder político. Considerado impuro, blasfemo, subversivo, bandido, ele está abandonado carregando sua cruz. À inscrição de Rei dos Judeus inaugura na história o tempo da realeza que não oprime, mas que dá a própria vida. O Jesus Rei que assume em sua própria carne e alma a condição dos mais marginalizados, desprezados e injustiçados seja física, política, social ou religiosamente.

Segundo Boff, Jesus deixou um opus inconclusum, quer dizer uma obra inacabada. Não vindo o Reino na plenitude desejada, apenas realizada em sua pessoa pela ressurreição, entraram em seu lugar o movimento de Jesus, as igrejas, o cristianismo popular e os valores cristãos que penetram a cultura ocidental. Essa nova forma não pode ser considera decadência da anterior, é simplesmente outra coisa. O autor nos lembra que a influência do sonho de Jesus nos continentes não foi algo sempre pacífico. Esse processo é marcado por momentos de violência e de paz, por pactos mentirosos e por gestos heroicos. “Às vezes, a dimensão dia-bólica ganhou proporções funestas que nada tinham a ver com o legado de Jesus; outras vezes, a sim-bólica alcançou os píncaros da perfeição e mostrou a possibilidade da antecipação, mesmo que parcial, do Reino de Deus. Aí estão os santos e santas, os mártires, os místicos e a piedade de tanta gente simples que tomaram e tomam a sério a causa de Jesus”.

Mas, o que seria tomar a sério a causa de Jesus? O historiador Hoornaert escreve sobre a memória cristã: “Ela foi e continua sendo frequentemente uma memória de vencidos e humilhados, marginalizados e desprezados e como tal não se articula numa “historia” segundo a tradição hegemônica da historiografia nas grandes culturas, através de discursos, monumentos, arquivos, documentos, iconografia e arquitetura. Pelo contrário, ela se transmite de geração em geração como uma cultura popular, uma tradição oral, uma resistência cultural. Daí podemos perceber que a memória cristã sobrevive antes de mais nada em comunidades. Existe uma relação íntima entre memória cristã e comunidades de base”. A partir dessa memória podemos afirmar que levar a sério a causa de Jesus significa ter os mesmos sentimentos que havia nele. Mosconi nos diz: É uma questão de atitude, de prática e não de palavra ou rito bonito.

Ditas essas palavras é preciso recordar que temos um compromisso com essa memória. Um compromisso para manter firme o sonho de Jesus para a humanidade. Esse sonho ultrapassa nossas perspectivas, às vezes limitadas, sobre a realidade que vivenciamos. Os tempos são sombrios e devastadores para todos aqueles e aquelas que acreditam na humanidade. Nossos compromissos devem ser assumidos em prol da vida. As instituições cristãs não podem ter o mesmo comportamento de Judas, se auto-afirmarem como discípulas de Jesus, mas na surdina se aliarem com o poder opressor.  Ou mesmo serem como os discípulos: prometerem um seguimento fiel a Jesus, mas se acovardarem nos primeiros sinais de violência e opressão. Se as instituições cristãs não são capazes de contarem e viverem o sonho de Jesus, temos que nos unir nas comunidades de base e continuar a construir esse reino de justiça. É hora de ressuscitar!

Regis Pereira, Fortaleza, 31 de março de 2018

domingo, 16 de julho de 2017

Como Lutar Pela Democracia?


Nos dias que antecederiam o afastamento da Presidenta Dilma Roussef de suas funções no Governo Federal, recordo que fomos até a Avenida da Universidade para um grande ato em prol da presidenta. Naquela ocasião aconteceram apresentações de diversos artistas, enquanto milhares de pessoas desfrutavam com tranquilidade de suas bebidas, comidas e outras questões. Não parecia que estávamos diante de um golpe de estado, mas sim em uma grande celebração da democracia. Enfim, encerrou-se aquele momento e no dia seguinte procedeu-se o afastamento da presidenta.

Passado um ano desses fatos e diante agora de um governo notoriamente corrupto e um judiciário aliado do mesmo, com direitos trabalhistas sendo retirados, desemprego ainda em alta e os pobres pagando pelo pato para sustentar os mais ricos do país, continuamos combatendo a ilegitimidade desse governo com os mesmos instrumentos que tornaram nossa luta fracassada anteriormente. Convocamos caminhadas, realizamos atos com artistas famosos, criamos aplicativos na internet, mas os deputados e senadores, juntamente ao presidente Temer, continuam a aprovar suas matérias questionáveis moralmente e financeiramente.

A luta popular não é um evento que nasce grande. Ela é a justa reação da classe oprimida, que, de forma pacífica ou violenta, espontânea ou organizada, escondida ou aberta, se contrapõe às diferentes formas de injustiça: exploração econômica, dominação política, manipulação ideológica, discriminação ou preconceito de cor, sexo, religião, idade (Peloso). Mas, o que temos visto aparentemente, e posso está enganado, é o desejo que essa luta nasça grande e que as massas simplesmente se integrem com o tempo. Há um distanciamento enorme entre os nossos dirigentes e as populações mais vulneráveis do país. Precisamos rever nossa estratégia de participação na luta popular.


Não adiante convocar diversos atos com artistas famosos, se a mensagem de liberdade não estiver no coração das periferias de cada cidade. Serão atos com muitas pessoas, mas sem nenhuma relevância para a retomada da democracia. As greves gerais precisam ser entendidas e planejadas pelos trabalhadores e trabalhadoras dentro das empresas, mas articuladas dentro das comunidades onde esses vivem, pois é lá que acontece diariamente a luta pela vida. Devemos contribuir para que o povo seja protagonista e tome a direção da barca. Não há outro caminho para a retomada da democracia. É hora de reconhecer a derrota e parar de passar mensagens cheias de ufanismo, que manipulam a realidade e nos conduz para um precipício ainda maior.  Reinventemos a luta e a democracia! 

domingo, 21 de maio de 2017

Um Conjuntura Difícil de Explicar


Nenhum analista político conseguirá com facilidade explicar o momento político atual brasileiro. Parece que tivemos um racha profundo naqueles que orquestraram o golpe político contra a Presidenta Dilma Roussef. Temos as organizações Globo procurando derrubar o presidente ilegítimo Michel Temer, e temos o grupo da Folha de São Paulo e Estadão, buscando de todas as maneiras a manutenção do mesmo. Somam-se as forças do judiciário que também compraram a ideia de eleições indiretas, mesmo que disfarçadamente. Mas, também não podemos esquecer-nos do poder econômico, que não me parece satisfeito com a atual conjuntura. Diante desse cenário, algumas questões nós temos como certas:

Michel Temer, que ocupa a cadeira da presidência de forma ilegítima, precisa ser afastado imediatamente de suas funções.  As gravações feitas por dirigentes da JBS comprovam de maneira clara que o presidente tentou interferir nas investigações da Lava-Jato, como também comprou o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha. Baseado nessas gravações nós não temos dúvidas que o mesmo também foi um dos grandes articuladores do golpe de 2016. A Folha de São Paulo tentou minimizar as gravações e o próprio presidente atacou os delatores. Entretanto, a parte central da gravação está intacta e é comprovadamente verdadeira. Ainda no campo político, o Senador Aécio Neves deve ser imediatamente preso. Não somente por questões de recebimento de propina, mas por provar que é capaz de planejar o assassinato de qualquer pessoa que tentar interferir em seus planos. Será que ele já mandou assassinar alguém?

O Poder Judiciário não está livre de acusações e dúvidas sobre a idoneidade de alguns de seus representantes. A conversa entre Aécio Neves e Gilmar Mendes é a confirmação de uma relação que todos sabíamos que existia, mas que ainda nos faltavam provas reais. Gilmar Mendes sempre agiu como um advogado de causas de políticos corruptos, principalmente ligados ao PSDB. O que podemos pensar de Alexandre Moraes? Atual ministro do Supremo Tribunal Federal foi uma indicação do congresso brasileiro atual e do próprio Michel Temer. O currículo do ministro nos deixam dúvidas sobre sua capacidade de realizar julgamentos de forma isenta. E por fim, o Juiz Sérgio Moro, em sua luta por prender Lula, tem muito que se explicar: Por que vetou que perguntas fossem feitas a Michel Temer, ou mesmo, por que sempre diz que não vinha ao caso qualquer delação contra Aécio Neves ou políticos do PSDB?

A elite econômica e financeira não deseja eleições diretas. Ela é responsável por boa parte da crise econômica do país e parece está cansada da demora de Michel Temer em realizar as reformas trabalhistas e previdenciária. Não está preocupada com repercussão popular, por isso, diferente das organizações Globo, defende um nome do mercado para assumir a presidência do Brasil. Em outras palavras, não está interessada o que poder acontecer com o atual presidente, desde que se garanta que haverá eleições indiretas e que Henrique Meireles assumirá o posto. Essa estratégia é fácil de ser consolidada, pois como a JBS comprovou, mais de 300 deputados estão ligados ao poder econômico.

Não podemos finalizar essa análise sucinta de uma conjuntura imprevisível sem citarmos Lula e Dilma. As delações da JBS também apresentaram acusações contra os ex-presidentes. A notícia repassada por alguns jornais é que teriam sido repassados para os mesmos valores em torno de R$ 180 milhões em contas no exterior. Diferente das acusações contra Michel Temer, Aécio Neves e alguns deputados, não foram apresentadas gravações, documentos ou qualquer outro item que pudessem comprovar o envolvimento dos mesmos. Não deixa de ser estranho que alguém abra uma conta em seu próprio nome para depositar recursos para terceiros, já que essa foi à tática do líder da JBS. Entretanto, defendemos uma investigação (mais uma), para que se possam comprovar os atos ilícitos ou não. Enquanto isso, o que temos é mais uma vez acusações contra os ex-presidentes baseados apenas em falas de delatores.

Enfim, necessitamos seguir o caminho para a restauração da democracia em nosso país. Mas, só podemos celebrar o reencontro com a democracia através de uma profunda reforma política. As eleições diretas que estão sendo solicitadas pelos movimentos sociais é apenas um paliativo para um sistema já falido. O próximo presidente, juntamente com um congresso renovado, necessitará encaminhar junto à população a modernização e reconstrução do sistema político brasileiro. Uma nova eleição dará um alívio temporário à crise política brasileira, é o que temos para hoje, mas não é a salvação. 

(Régis Pereira, Fortaleza 21 de Maio 2017)

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Individualismo x Espiritualidade


Tenho nos últimos dias voltado o meu olhar para a vida de Jesus Cristo, para que olhando para sua vida e atuação eu consiga me inspirar no desenvolvimento de uma espiritualidade tão radical como aquela vivida por ele. Tenho me deparado com a certeza que não é fácil tomar decisões baseadas em seus ensinamentos, sejam eles descritos ou somente vivenciados. Parece que estamos sempre um passo atrás nessa caminhada.

Estamos inseridos em uma sociedade marcada pelo individualismo. De acordo com o Frei Albert Nolan, o mundo ocidental só alcança a sua verdadeira identidade se estiver claramente separado dos outros e do resto do mundo que o rodeia. Entretanto, do ponto vista de todas as outras culturas do mundo isso é pura e simplesmente incompreensível. Uma pessoa que vive separada e isolada do resto da comunidade seria considerada infeliz. A interdependência, a coerência social e a confiança mútua são valores culturais altamente apreciados. Na África se costuma dizer: “Uma pessoa torna-se pessoa através de outras pessoas”.

Vemos esses aspectos na espiritualidade desenvolvida por Jesus. Para ele, a comunidade ou sociedade era mais como uma família de irmãos e irmãs, tendo Deus como pai cheio de amor. A imagem que ele tinha do Reino ou domínio de Deus era de uma casa de uma família feliz e transbordante de amor, não de um império conquistador e opressivo. Assim, o Reino de Deus não desceria do alto, mas subiria de baixo, do meio dos pobres, dos pequenos, dos pecadores, dos marginais, dos perdidos, das aldeias da Galiléia. Esses tornar-se-iam irmãos e irmãs, preocupando-se uns com os outros, identificando-se e protegendo-se mutuamente, partilhando tudo aquilo que tinham.

Esses ideais de comunidade, de partilha, de confiança mútua estão presentes na espiritualidade de Jesus. É um convite para nós vivermos em uma comunidade que possa ser marcada pelo perdão constante e ajuda aqueles e aquelas que mais necessitam. Cujas relações sejam transformadoras e nunca marcadas pela desconfiança ou medo. Se nosso caminho se aproxima do individualismo e o sectarismo, frutos de nosso egoísmo humano, demonstramos que não somos dependentes de Deus, e ainda por cima, nossos relações tendem a produzir discórdia e desconfiança. Confiar em Deus, como fez Jesus, não significa estar agarrados a Deus; significa deixar tudo, de modo a render a nossa pessoa e a nossa vida a Deus.

domingo, 2 de abril de 2017

Por que Prenderam Meu Tio?


Nos últimos dias minha família tem vivido dias de aflição, tristeza, indignação e inquietação, depois da invasão de nossa casa na Paraíba, culminando na prisão de meu tio, Ivonaldo Caetano, conhecido no bairro como Ronaldo Cabeleiro. Gostaria de poder compartilhar com vocês as ações ilegais dessa operação e ao mesmo tempo irresponsáveis. Não temos outras palavras que possam definir a esse ato de injustiça.

Na madrugada do dia 30 de março (quinta-feira), tivemos a residência dos meus avós invadida por policiais militares e civis, dentro de uma operação denominada Sualk que visava desarticular uma quadrilha de tráfico de drogas e homicídios. O mandato de busca e apreensão em nossa residência estava endereçado a “Ronaldo Cabeleiro”, pois em sua residência existia uma arma de fogo. Sem muitos detalhes, os agentes colocaram Ronaldo como integrante de uma quadrilha que praticava homicídios, sendo que ele era responsável pela distribuição de munições. Essa acusação não foi confirmada e nem comprovada, tanto que o inquérito relata apenas o crime de posse de arma, como motivo da prisão.

Quando os agentes chegaram chutaram o portão de entrada da casa, chegando a danificá-lo. Ronaldo, prontamente abriu a porta. Quando questionado se havia uma arma em casa, ele confirmou que sim e mostrou o lugar onde a mesma estava. Logo depois, apresentou o registro da arma, em nome do meu avô desde 1985.  Isso mesmo, a arma não pertence a Ronaldo, mas sim ao meu avô, que estava na residência no momento. Os agentes ignoraram o registro e rasgaram o mesmo. Logo depois conduziram Ronaldo até a delegacia. Na delegacia, quando questionado falou a quem pertencia à arma. Nesse momento, já estava algemado, sendo filmado e retratado pelos agentes da polícia e mídia como participante de uma perigosa quadrilha de tráfico de drogas e homicídio.

O delegado nesse momento exigiu uma fiança de R$ 40 mil. Com a presença do advogado, diminuiu para R$ 20 mil. Sem condições de poder desembolsar esse valor, Ronaldo foi conduzido ao Presídio de Segurança Máxima. O crime, posse de uma arma, que não era sua, cujo dono estava na residência. Acrescento que o mesmo foi conduzido ao presídio, em recuperação de uma cirurgia. Fazia 20 dias que o mesmo passou por processos cirúrgicos e tinha um atestado de 60 dias de repouso. Nada, nenhuma dessas questões: registro da arma, recuperação de cirurgia, primariedade foi levado em conta, apenas o desejo do encarceramento de um homem pobre, negro e trabalhador.

Resumo a ilegalidade da ação nos seguintes pontos: 1. A arma estava registrada e dono da mesma estava na residência. 2. Se tivesse que prender alguém seria o meu avô de 84 anos, cujo em nome está o registro da arma. 3. Os agentes ignoraram o registro e rasgaram o mesmo. Uma ação de violência sem medidas. 4. Foram pedidos valores exorbitantes de fiança, e conduziram ao presídio um homem que estava de licença médica, se recuperando de uma cirurgia. 5. Se houvesse algum crime, teria que ser levado em conta à primariedade, entretanto, o mesmo segue preso por erros dos agentes e da justiça.
   
Eu poderia encerrar esse texto levando em conta apenas o caso de um parente. Não gostaria de fazer isso, mas relatarei mais duas ações de ilegalidade nessas prisões. Na mesma madrugada foi preso um gari, que tinha um nome idêntico a de um suspeito de crimes na cidade. Foi solicitado para ele uma fiança de mais de R$ 4 mil. Ele foi pego na saída de sua residência, enquanto se dirigia ao presídio. Sem nenhuma prova, o despreparo da polícia colocou mais um inocente no presídio. Outro caso, uma jovem mãe, negra, foi presa acusada de envolvimento nessa quadrilha de tráfico. Ela está amamentando uma criança de 1 mês. Quando a família levou a criança para ser amamentada no presídio, os agentes não permitiram a entrada da criança, pois a mesma ainda não tinha sido registrada.

Se esses casos que estou relatando já constatam a violência presente na periferia de Patos, PB, saibam que escutei muitos outros nesses dias na cidade. É preciso urgentemente trabalhar a relação da polícia com as comunidades. Estabelecer parâmetros de atuação que não sejam violentos e que não tenham a tortura como instrumento de trabalho. Acima de tudo, que não possam colocar inocentes em presídios, com investigações que não são bastante claras.


Por que prenderam o meu tio? Tire suas conclusões. Nós só queremos justiça. 

sábado, 19 de novembro de 2016

Traficamente Em Estado Grave Ou Policial Levemente Ferido



Não somos mais uma sociedade a beira do caos, creio que já estamos no centro dele e não está claro para nenhum de nós como sair. As reivindicações por direitos sociais potencializaram as repressões e a violência tornou-se evidente, institucionalizada e “democraticamente” apoiada pela maioria das pessoas. Somos uma sociedade do imediatismo, que se nega a fazer reflexões e buscar as soluções para os problemas que temos enfrentado. Voltamos a dividir o mundo em bem e mal, sendo que qualquer um que não esteja de acordo com o meu pensamento, ideologia, religiosidade torna-se evidentemente o meu inimigo, alguém a ser combatido e eliminado. Não há espaços para construções coletivas e sínteses de pensamentos. O acesso à informação também se tornou o instrumento da desinformação e canal da manipulação de grandes indústrias de comunicação.

Para que possa ser claro nas afirmações acima, ilustro a guerra diária entre os chamados “homens de bem” e os “defensores de direitos humanos”. Indo mais profundamente nesse exemplo, podemos citar os casos envolvendo a Polícia Militar brasileira e os defensores de um novo sistema de segurança que preveem uma polícia cidadã e não militarizada. Ambas as partes, em muitos momentos, deixam-se levar pelas palavras e atos de violência, da qual não creio que sejam o caminho para vivermos em uma sociedade que garanta a segurança de todos. Como um militante dos direitos humanos temos que buscar estar atentos para não repetir o discurso e os atos de violência dos opressores. Nessa semana, a morte do jovem Guilherme, assassinado pelo seu próprio pai, deixa evidente que o discurso violento se tornou prática violenta.

Outra evidência de onde chegamos em nossa miserabilidade e mediocridade humana é uma pesquisa feita pelo um canal de televisão brasileiro onde se perguntava quem deveria ser resgatado: Um policial levemente feriado ou um traficante gravemente ferido. Muitas pessoas criticaram o fato de que o escolhido para ser salvo foi aquele que estava gravemente ferido. Deixa-se de lado a humanidade, a solidariedade e como diria alguns cristãos, o amor ao próximo, e usa-se o ódio como instrumento norteador para a tomada de decisões. Livres do ódio, saberíamos sem nenhuma questão de dúvida que o primeiro a ser resgatado é o que está gravemente ferido. Não há fundamentos legais, morais ou éticos que nos façam pensar diferente. Infelizmente, o que vimos foram tentativas de justificar a violência em nossa sociedade sem nenhuma reflexão. Quem defende a morte por gostar da morte em nada se diferencia do traficante ou bandido, é assassino da mesma forma.

Como citei inicialmente, estamos em meio ao caos e não sabemos para onde caminhar. A degradação humana e a violência estabelecerem impérios poderosos demais. As massas parecem ter escolhido o caminhar violento. Se não escolheram estamos hipnotizados pelo poder da grande mídia. Como um cristão, tenho escolhido o caminho ensinado por Jesus, o caminho de socorrer o judeu ferido à beira da estrada, mesmo sendo eu um samaritano. Talvez pudéssemos ter nesse texto diversas outras elucidações sobre o papel da polícia militar, o desafio dos direitos humanos e outras questões básicas. Mas, por hoje estou repetindo as palavras do poeta José Régio: “Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí”!  Entre o traficamente em estado grave ou o policial levemente ferido, eu escolho ter misericórdia. 

(Pr. Régis Pereira, Igreja Presbiteriana Independente de Jardim Iracema)

Cidade: Território em Disputa

É notório que o aumento do número de cristãos em nossos territórios não significou a pacificação dos mesmos ou a tão sonhada chegada...